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25 de Abril. Íamos ser livres, não era? A gaivota voava, voava… Pois era mas algures, não sei bem onde nem quando, as coisas começaram a mudar. Não sei se foram as coisas que mudaram primeiro ou se foi a forma como víamos as gaivotas que se alterou antes de percebermos que as coisas não eram o que pareciam ser. (Resumindo é o velho dilema do ovo e da galinha transposto para a nossa história recente.)

Esta foi uma descoberta mais do que difícil verdadeiramente contra-natura para todos aqueles que no ano de 1974, em Portugal, tínhamos entre 4 a 104 anos pois durante meses, pelo menos três vezes por dia, lá vinha a voz de Ermelinda Duarte mais o coro a garantir-nos que “Uma gaivota voava, voava,/ asas de vento,/ coração de mar./ Como ela, somos livres,/ somos livres de voar.” (Também havia os versos dedicados à “papoila que crescia, crescia,” mas estes nunca foram muito populares fosse por causa das ressonâncias opiáceas da papoila a crescer ou pela dificuldade poético-política de fazer rimar “grito vermelho/num campo qualquer” com liberdade em qualquer campo.)

Mas seja como for houve um dia em que nós começámos a ver as gaivotas com outros olhos. Para começar constatámos que as gaivotas voavam pouco, preferiam as lixeiras à vastidão dos oceanos. Muitas até trocavam as falésias pelas varandas e esplanadas. Para cúmulo, as gaivotas em pouco tempo controlavam as demais aves. Enfim, de símbolo da liberdade a gaivota passou a parasita de que não nos conseguimos libertar. Uma praga, portanto.

O que não quer dizer que a gaivota tenha deixado ser um símbolo. Pelo contrário, ela tornou-se no símbolo da oligarquia do regime.

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