Rui Rio

O Turista Acidental /premium

Autor
126

Rio é como o escritor de viagens que abomina viajar; é o político que odeia a política, o chefe partidário que desdenha os partidos (incluindo o próprio), o líder da oposição que despreza a oposição.

Rui Rio é um turista acidental. Está a passar pela política por acidente, aparentemente forçado por algum golpe cruel e irónico do destino, que o impeliu para o um caminho que nunca quis e que agora o precipitou para o abismo da liderança de um grande partido, a contragosto do seu coração mas para gáudio do seu ego.

Rio detesta o que faz e detesta o que os outros querem que ele faça. Não tem a menor paciência para delinear estratégias substantivas para o partido – e muito menos para falar sobre elas! –, não sabe nem quer saber de oposição ao Governo, não tem tempo para fazer propostas nem debates e muito menos terá alguma vez pachorra para a comunicação social.

É tudo uma maçada, uma estopada entediante, um penoso sacrifício que o outrora designado por contabilista-mor da cidade do Porto está a fazer, em nome da ética e da transparência (segundo dizia). Mas sem que isso tenha nenhuma consequência visível quer no plano teórico quer no plano da política concreta e pragmática (mesmo em período pré-eleitoral).

Aliás, quando aterrou na Câmara do Porto foi também por acidente — Fernando Gomes perdeu a eleição em 2001, não foi Rio que a ganhou, tendo inclusivamente confessado em entrevista (muito congruentemente) que, quanto à primeira medida pensada como Presidente da Câmara, “não tinha”. E agora, à frente de uma força partidária, está claro que também não tem.

Rio não tem medidas e não propõe, não discute, não comenta, não acusa, não provoca, não elogia, não critica, não responsabiliza, não pede contas, não debate. Nada.

Tudo quanto nos tem sido dado a conhecer sobre o seu pensamento tem que ver com a vida interna do PSD – desde as sanções aos autarcas até às atrapalhações provocadas pelas presenças e ausências no hemiciclo parlamentar – ou então são migalhas esparsas e desconexas sobre temas também eles acidentais. O caso mais anedótico (e anedotal) será porventura o da dramática preocupação manifestada com a especulação imobiliária, em que Rio decidiu roubar o palco ao Bloco (sem o conseguir, aliás) e cavalgar a ideia – sem contextualizar, sem explicar – de que é condenável a actividade lucrativa com a compra e venda de imóveis. Para começo de conversa não está mal ter o Presidente do PSD como aliado do Bloco no combate ao lucro.

E já que nada nos diz sobre o seu pensamento ou sobre a sua acção, sobeja-nos espaço para também nós especularmos. Não nos poderá levar a mal, portanto, que tentemos divisar uma qualquer estratégia num cenário de aparente vácuo onde pontua um alinhamento cirúrgico e surpreendente com PCP e Bloco agora também na magna questão dos professores. Talvez o grande segredo de Rio seja uma original estratégia — a de procurar ultrapassar o PS pela esquerda, ensaiando a construção de uma nova e ainda mais inesperada geringonça 2.0!

É certo que, quando Catarina Martins se mostrou ofendida por ter sido esquecida pelos discursos de António Costa, mostrou também que estava a aprender. E pensou: “se o chefe do Governo faz assim, deve ser assim que se faz”. Por isso fez: nomeou, no encerramento da convenção, Cavaco Silva, Assunção Cristas e Pedro Passos Coelho, recusando-se a mencionar o nome de Rui Rio.

Com isso, recusou-se a reconhecer-lhe qualquer relevância, nem que fosse a de adversário digno de combate – e assim declarou, no plano formal e publicamente, através do silêncio, a substância do estatuto que ele informalmente reclamou para si próprio: a inexistência. Por isso, Rio tem ainda muito caminho pela frente se quiser efectivamente tentar a ultrapassagem do PS…

Como no filme de Lawrence Kasdan, Rio é o escritor de viagens que abomina viajar; é o político que odeia a política; é o chefe partidário que desdenha os partidos (incluindo o seu próprio); é o líder da oposição que despreza a oposição. E nem Tancos, nem Borba, nem o Orçamento, nem coisa nenhuma parece suficiente para inspirá-lo.

O turista acidental do filme era uma espécie de sonâmbulo, apático e desinteressado da vida, até ser abanado e revitalizado por uma personagem exótica e extrovertida. Irá António Costa suceder a Geena Davis no Óscar? Duvido.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Serviço Nacional de Saúde

O Partido sem Bergonha

Luís Reis
1.381

Sou um utente frequente do SNS onde sou submetido mensalmente a uma intervenção que implica a utilização de uma pequena peça que custará 10 a 15 cêntimos. Mas já aconteceu as peças estarem "esgotadas"

Política

Salazar /premium

Helena Matos
1.498

Os actuais líderes não têm discurso, têm sim objectivos: manter-se ou chegar ao poder, através da popularidade e não da política. Logo precisam do passado e de Salazar para falarem de política.

PSD

Ao centro, o PSD não ganhará eleições /premium

João Marques de Almeida
262

Rio, que não perde uma ocasião para evocar Sá Carneiro, não aprendeu a sua principal lição: o PSD só chega ao poder quando lidera uma alternativa aos socialistas. Não basta esperar pelo fracasso do PS

PSD

Onde vais Rio que eu canto /premium

Alberto Gonçalves
2.008

O dr. Rio passou pelo Colégio Alemão, pela Faculdade de Economia e pela vida em geral e, não obstante, conseguiu chegar aos 60 anos convencido de que o PSD é um partido de esquerda.

PSD

Porque é que Rui Rio ganhou e vai perder /premium

Rui Ramos
324

Porque é que Rui Rio vai perder? Por este pormenor: a manobra de António Costa resultou de uma bipolarização do debate político, notória desde a Guerra do Iraque (2003) e a Grande Recessão (2008).

PSD

Marcelo, o conspirador /premium

Alexandre Homem Cristo

O pior destes 10 dias no PSD foi a interferência de Marcelo. Que o PSD se queira autodestruir, é problema seu. Que o Presidente não saiba agir dentro dos seus limites institucionais, é problema nosso.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)