Os exames de acesso ao ensino superior deste ano fazem transparecer o estado doentio em que se encontra, há algum tempo, o sistema educativo. As circunstâncias excecionais geradas pela pandemia de covid-19, podendo em parte atenuar o juízo de desvalor relativamente aos enunciados apresentados, não são de molde a justificar globalmente o fenómeno a que se assiste. Na verdade, mais do que a dificuldade ou facilidade das provas que representam o culminar do secundário, aquilo que se observa é ao domínio de um tipo de racionalidade que desvaloriza por completo o conhecimento, a cultura, o estudo, o esforço, a construção firme do espírito crítico dos mais jovens. O exame de português é disso exemplo claro. Articulando diversos domínios, que não podem deixar de se entrecruzar – a compreensão do texto, a educação literária, a escrita e a gramática – uma leitura ainda que superficial dos desafios propostos aos estudantes permite-nos perceber que a educação literária foi relegada para segundo ou terceiro plano, tendo um peso residual na economia da prova. É certo que o texto literário está presente, com a sua complexidade própria, formulando-se, a partir dele, várias questões. Mas, se ele se afigura fundamental na testagem do domínio decisivo de compreensão do texto, deve também ser valorizado, como aliás se evidencia no documento que formaliza o programa da disciplina, como “repositório essencial da memória de uma comunidade, um inestimável património que deve ser conhecido e estudado”.

Ora, no exame de Português de 2020, malgrado o contexto pandémico, o texto literário surge descontextualizado. De múltiplas opções, privilegiou-se Os Maias e A Ilustre Casa de Ramirez, obras que se estudam alternativamente, segundo opção das escolas que os alunos frequentaram. Mas, contrariamente ao que seria de supor e que o senso comum deveria ditar, cada estudante tinha de responder a questões sobre ambas, o que significa que o exercício não pressupunha qualquer conhecimento adicional acerca da obra, da sua estrutura, das suas personagens, do seu tempo e do seu espaço. As perguntas não convidavam, portanto, à valorização da literatura enquanto domínio cultural específico, não requeriam estudo – até porque uma das obras não poderia ter sido estudada – e não potenciavam o espírito crítico do discente. Pior do que isso, a simplificação a que assim era remetido o examinando acabou por, ao ser tão grosseira, conduzi-lo a um engano. De facto, ao contrário de outros escritores, que reconduzem as personagens das suas obras a estereótipos sem grande densidade, com o único objetivo de cumprir um propósito ideológico, Eça de Queirós introduz a crítica nos seus romances partindo da realidade que observa para identificar os vícios da sociedade. É por isso que não se podem comparar acriticamente e descontextualizadamente personagens de diversos romances. Enquanto as personagens de Os Maias caem na ociosidade por descrença no país, tornando-se uns vencidos da vida; a personagem de A Ilustre Casa de Ramirez, tal como surge caracterizada no excerto transcrito, não descrê no país, tanto que ainda é instada a escrever para a revista patriótica, mas mergulha na preguiça por razões várias, para as quais não há desculpa. É claro que esta não era a única vertente literária da prova. Simplesmente, a geometria variável a que somos conduzidos pelos critérios de classificação, de acordo com os quais só se contabilizam algumas das respostas, exatamente aquelas em que os alunos demonstraram melhores resultados, volta a tornar residual o peso do conhecimento literário.

Tudo isto não seria grave se não fosse fator de desagregação cultural, de perda dos alicerces do desenvolvimento da personalidade, de emergência de um mundo eficientista, limpo, desprovido de emoção, incapaz de conhecer as raízes do ser humano, de o reconhecer nas múltiplas personagens que os autores criaram ou cantaram, incapaz, ainda, de valorizar os seus antepassados e, por fim, incapaz de discernir e criticar a sociedade em que está mergulhado. A literatura é também veículo de promoção de valores nacionais, meio de contacto com outros modos de ser e outras épocas históricas, forma de abertura ao conhecimento do mundo e à sensibilidade, instrumento de compreensão dos sentimentos alheios e próprios. De uma racionalidade de tipo narrativo, a fazer apelo à integridade do ser pessoa, passamos a dar a primazia a uma racionalidade de tipo eficientista, em que o examinando é apenas o leitor do momento, que pode pôr de lado o esforço de três anos e desmerecer todos os conhecimentos que lhe foram transmitidos pelos docentes.

A esta degenerescência nos conduzem os exames nacionais, enquanto instrumento aferidor de competências para aceder ao ensino superior. E tudo isto é triste, sem ser fado!