Chegou hoje o dia que nenhum dos amigos de Miguel Macedo quereria viver. O dia em que nos deixa e em que somos obrigados a despedirmo-nos na sua cidade de Braga.
Não é fácil escrever sobre o Miguel Macedo.
Qualquer palavra que se utilize é manifestamente insuficiente para descrever a pessoa e o político de mão cheia que foi.
A calúnia e uma investigação criminal tiraram-lhe o destino natural político: provavelmente lideraria o PSD. A morte, antes de tempo, roubou-lhe o regresso político.
Conheci o Miguel como Secretário de Estado da Justiça e foi o meu Ministro da Administração Interna nos três anos em que assumi funções de Secretário de Estado. Convivi diariamente com o homem político e em boa verdade não houve um único dia que não tivesse aprendido com ele. Passámos momentos intensos num Governo dependente de terceiros e em que os desafios eram exigentes e diários.
Recordo e guardarei os momentos inesquecíveis, de uma cumplicidade que se foi construindo e que chegou mesmo a ultrapassar os quadrantes partidários, inicialmente diferentes e com agendas nem sempre coincidentes. Entre nós, verdadeiramente, não havia Partidos, as discussões eram intensas mas na maior parte das vezes eu acabava a concordar com a sua perspicácia. Ocorrem-me muitas das suas frases e muitos dos seus ensinamentos.
A convivência política com o Miguel foi toda uma Escola de vida que nunca esquecerei.
Mas é preciso dizer que o Miguel foi muito mais do que isso: foi um grande amigo. Foi um irmão mais velho.
Alguém que esteve sempre presente em todos os momentos relevantes da minha vida e alguém que aprendi a observar, a ouvir e a admirar.
Acompanhei de perto os últimos anos, o julgamento na praça pública muitas vezes sem oportunidade de contraditório, a campanha orquestrada por interesses económicos obscuros opostos aos do interesse público, as agências de comunicação contratadas ao serviço desses interesses, as mais de 50 capas de jornais com condenações na opinião pública que não só não se verificaram nos Tribunais, como foram totalmente contraditadas sem, sequer, um qualquer pedido de desculpas.
Acompanhei a forma como viveu este tormento, com alguns bons amigos, num sofrimento e auto-isolamento que se impôs a si próprio. Tenho orgulho de ter testemunhado em vários dos processos que lhe moveram e que ele moveu, ganhando todos eles. Sem exceção.
O Miguel era um exemplo e sobretudo continua a ser a uma inspiração.
Ao longo dos últimos anos – nos anos mais duros que ele próprio viveu – almoçávamos regularmente na sua cantina oficial em Braga e, em amena cavaqueira, discutíamos a atualidade nacional e internacional. Raras vezes concordávamos em tudo, mas a dependência do seu conselho fazia-me procurá-lo com regularidade. O seu conhecimento sobre a política nacional e internacional eram assinaláveis e a sua inteligência e sentido prático eram desafiantes.
O PSD sempre lhe correu no sangue, mesmo quando uma parte importante do mundo político duvidou dele. Quem o conhecia bem sabia bem a fibra de quem ali estava.
Quando decidi desfiliar-me do meu Partido, ligou-me incessantemente até que no meio de uma reunião de trabalho perguntei-lhe o que se passava. Perguntou-me três vezes se eu ia para o Chega e não descansou até ouvir uma resposta que ele considerasse satisfatória. Eu sei que o respeito e o carinho eram mútuos, e que para todos os efeitos, eu era já um dos seus.
Tentei convencê-lo a voltar à política. Por diversas vezes. Ao longo de vários meses. Para mim era uma questão de Justiça. Perante o calvário vivido, seria um regresso obrigatório.
O desafio autárquico na sua terra de sempre, eu sei, mexia com ele. Mas a opção familiar era muito forte e o tempo para a família era inegociável. Confesso que usei o argumento mais forte que eu próprio dispunha: tiraria um mês para fazer campanha política com ele. Com a sua inteligência e habitual argúcia riu-se, desviou-me das minhas ideias iniciais, dizendo que não seria candidato mas que queria que eu fosse fazer um dia de campanha com ele em Braga e com o seu PSD local. Dizendo pouco dizia muito.
Na quarta-feira, dia 12, decidi ligar-lhe e ao contrário do que normalmente acontecia estivemos à conversa mais de 45 minutos. Falamos sobre tudo, sobre o programa que iria fazer, sobre a forma como interpretava a difícil situação política que muito o preocupava, em particular o futuro do País e o do seu PSD. A conversa avançou e acabou em gargalhada, com boa disposição e ficamos de agendar almoço. Disse-me “marca”.
Já não vou a tempo de marcar, Miguel. Nem o almoço nem o dia de campanha.
Mas a sorte de teres passado pela minha vida ninguém a tirará. A Ana tem toda a razão. Que o legado que deixaste em tantas pessoas não esmoreça e que possa fazer com que o País possa ser melhor do que é. Temos todos muito que aprender com o teu exemplo e o teu legado.
Eu sei. Há pessoas que passam pela nossa vida e que são indiferentes e há outras, quando menos se espera, de onde menos se espera, que passam pela nossa vida e que nos transformam para muito melhor. Eu fiquei muito melhor por ter tido o privilégio da tua amizade.
Obrigado Miguel, por tudo. Um privilégio ter passado por aqui contigo. Vou ter muitas saudades das nossas conversas.