Peço desculpa de me repetir mas insisto que a Grécia não é Portugal nem, aliás, Espanha. Os dois países ibéricos estão entre os primeiros estados-nação europeus, juntamente com a Inglaterra e a França. O lugar que ocupam no concerto internacional baseou-se, durante mais de cinco séculos no caso português, nos seus impérios coloniais ultramarinos de inspiração e expiração católica. Historicamente, o seu lugar na Europa ocidental é em tudo diverso da Grécia milenar, cujo actual estatuto de estado-nação de religião oficial ortodoxa tem menos de duzentos anos de existência desde a separação do império otomano.

Isto para dizer o quê? Que as bruxas não existem, pero que las hay, hay! Ou seja, enquanto os problemas susceptíveis de ser levantados à União Europeia (UE) pelo PS e pela extrema-esquerda portuguesa (e os seus equivalentes espanhóis) seriam no limite uma bomba relógio-financeira (pequenina no nosso caso), na Grécia são duas bombas-relógio, qualquer delas gigantesca! A financeira e, correlativamente, económica e social, mas também, se não sobretudo, a internacional, isto é, a bomba-relógio geopolítica. Não por acaso, foi com esta última que o Syriza – e o seu inquietante parceiro de coligação, a extrema-direita ortodoxa e anti-europeia dos «gregos independentes» – ameaçaram a UE desde o primeiro minuto, a saber, a viragem à Rússia, também cada vez mais ortodoxa e mais extremista, e através da Rússia a quem com ela tem alianças abertas ou escondidas.

Até em Portugal, ironicamente que fosse, já houve quem se lembrasse, perante o manifesto desinteresse dos EUA pela base dos Açores, de sugerir o seu aluguer aos russos ou aos chineses… Ora, na Grécia, o jogo das alianças geo-estratégicas fia muito mais fino. O seu posicionamento geográfico entre o Mediterrâneo ocidental e oriental; a afinidade com Chipre (que estará neste momento a ser visitado por Tsipras e tem igualmente contas atrasadas com a UE), bem como a confrontação que os gregos mantêm há séculos com a Turquia, dão à Grécia um peso imediato nesse choque civilizacional que muitos negam, pero que lo hay, hay!

É tudo isso que explica a chantagem à UE e, através desta, aos EUA, sobretudo agora que a Turquia se orientalizou de novo e está a trazer de volta o islamismo depois do falhanço do laicismo imposto pelos militares republicanos há menos de um século. Israel está, como já tive oportunidade de assinalar, no olho deste furacão Leste-Oeste ou, como há quem prefira, Norte-Sul, alargando politicamente esse Sul alternativo à «austeridade» não só à Rússia e à China mas também à Grécia, Portugal e Espanha… Seja como for, o Syriza e os «gregos independentes» sabem que a Grécia é um peão importante no xadrez internacional e, ao brandir esta ameaça contra a UE, acrescentam aos riscos que provocaria a sua saída do euro uma chantagem mais séria ainda, ou seja, uma alteração de consequências imprevisíveis para os fragilíssimos equilíbrios internacionais actuais.

É impossível dizer, neste momento, para que lado a UE e os próprios EUA se inclinarão, tendo em conta a nova guerra fria em curso: ceder no plano financeiro para manter a Grécia na NATO ou arriscar a ruptura grega com a NATO a fim de salvar as finanças europeias? A primeira hipótese, por dificilmente pensável que seja, é capaz de ser a menos onerosa, até porque a segunda poderia acabar por arrastar a primeira, continuando a ser altíssimo o preço a pagar pelo funcionamento da moeda única.

A abertura de alguns países a uma forma de suavização qualquer da dívida grega, sem no entanto a cancelar uma vez mais, como a França acaba de dar a entender, poderia revelar-se uma espécie de meio-termo com várias vantagens: manter a Grécia no euro e na NATO, abrir o caminho a uma suavização semelhante da nossa dívida e fazer baixar o tom de voz do Syriza e dos seus imitadores fora da Grécia. As semanas que se seguem nos dirão o que a UE fará com as bombas-relógio lançadas pela Grécia. E podemos calcular a atenção com que os EUA acompanham a situação.

No que diz respeito à Espanha, não é de pôr as mãos no fogo pelo «Podemos» que ontem desfilava em Madrid e é seguramente contra a NATO, como já sucedeu com boa parte do PSOE, mas imagino que nem o PS português nem o PSOE actual se atrevessem a usar uma chantagem dessas contra a UE. Acresce que a nossa altura de votar será bastante mais tarde e, entretanto, a dupla ameaça da Grécia já terá produzido os seus efeitos na UE e, naturalmente, na própria Grécia.

Seja como for, o assunto não vai sair dos noticiários. Devido à relativa exterioridade da história política grega em relação à Europa ocidental, a Grécia tem tido a maior das dificuldades em cumprir as regras europeias desde que entrou para a então CEE sem qualquer preparação, por compadrio manifesto da França, enquanto Espanha e Portugal tiveram de penar durante anos à porta da Europa. Essa exterioridade também explica por que razão a espúria coligação soberanista grega e provavelmente uma parte dos seus apoiantes são cegos à gravidade da política externa russa no quadro geopolítico actual, a começar para os países da UE limítrofes da Rússia, mas alguém vai ter de lhes mostrar isso.

P.S. Em resposta a um leitor assinado Bento Júlio (28 de Janeiro), que escreveu ter sido eu um «acérrimo defensor do governo Sócrates e particularmente da ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues», informo-o de que está completamente equivocado. Ou nunca me leu ou confundiu-me com outra pessoa!