A forma de apresentação do ator político tem sofrido uma transformação  crescente, uma que transcende o simples acompanhamento de técnicos  especialistas em comunicação política ou de assessoria de imagem, uma transformação cénica.

Esta transformação, na postura e apresentação do ator político, surge da  clara incapacidade de afirmação intelectual, como os grandes políticos  fundadores haviam conseguido, numa nação – diga-se – pouco aberta a  burgueses intelectualizados. Invocando esta incapacidade intelectual a  necessidade de agradar às massas de formas simples, com formas sensoriais.

O trabalho sensorial, no quadro da ação política e essencialmente da  comunicação política, prende-se em larga escala com a noção populista, não  obstante, há uma dimensão que transcende o populismo e é essa que tem vindo  a ser trabalhada por diversos quadrantes políticos em Portugal e também no  Ocidente Liberal, a encenação.

A encenação política é em larga escala uma plataforma para o sucesso quando os “autores da peça” são bons no seu trabalho, no caso, os analistas  que estudam a Sociedade, os seus anseios e os conteúdos digitais que gostam  de consumir, levando à construção de discursos e à recomendação da criação  de conteúdos que satisfaçam as suas audiências.

Fischer-Lichte reforçaria neste parágrafo a própria relevância acrescida do tom de voz, da gesticulação e do estilo de retórica ao conteúdo discursivo,  algo que também se tem revelado verdade, quando se avaliam as reações em  números históricos a intervenções parlamentares sem conteúdo político útil, mas  com uma fortíssima representação que gera uma experiência sensorial de oposição cerrada ao Estado das Coisas.

O sucesso desta nova era para a comunicação política é um sinal  preocupante. A consolidação e o êxito de um claro eixo político através deste  mecanismo de apresentação, faz desta forma de expressão política um potencial polo gravitacional, que facilmente, conduzirá outros atores políticos ou partidos  políticos a adotarem posturas semelhantes. Esta ação originará um agravamento  da degradação institucional e protocolar, bem como, uma generalização da política “farsante”.

Em caso de generalização desta ferramenta política, uma realidade que  já esteve mais distante, o caos estará seguramente instalado transformando o  equilíbrio de regime e o bom-senso em nulidades existenciais.

A radicalização progressiva da argumentação, a manipulação frequente  de dados, a adulteração de imagens e a própria personificação – artificial – de  posturas e comportamentos, especialmente, de uma presença digital que  procura a “humanização”, não no contexto moral das práticas humanistas, mas  na adoção de posturas comportamentais que se aproximam do cidadão, são hoje uma constante.

Se a proximidade entre o cidadão e o ator político é algo necessário para o bem-estar do regime, a farsa consolidada de reaproximação por parte do ator  político é dos elementos mais perigosos para a vitalidade democrática.

A generalização desta prática leva à inutilidade do ator político enquanto representante legal da população, mas a veemência do controlo desta  ferramenta por um só grupo de atores permite com profunda facilidade o  enraizamento de práticas e de costumes com base na mentira e adulteração.

Schechner, na sua interpretação do fenómeno atribui ao cidadão uma dimensão de espectador ativo e não passivo, algo que tenho crescente  dificuldade em verificar nos diversos quadrantes da nossa Sociedade, onde o  encanto e o espanto, no senso da reaproximação e identificação – artificial – com um ator político, absorveram em muito a força da razão no juízo da ação e  da condução política que lhe é apresentada.

Debord, antes da própria imaginação da década de 60 permitir a conceção de redes sociais, já referia o facto das relações sociais serem moldadas por imagens, o que nos alertava para um fenómeno que então era  pequeno, os teatros de poder e a força da imagem no êxito de um qualquer ator político, considerações que assumem uma magnitude imensurável com a  propagação das redes-sociais como instrumento político.

A figura maior do teatro clássico, o imortal Séneca, ficaria profundamente espantado com a mestria cénica dos pequenos “senadores” da  política contemporânea. A postura farsante, digna de ser apresentada num Coliseu diante das massas e que todos os dias é nos apresentada por diversos  meios de comunicação é um dos males do período político contemporâneo.

A veracidade e o intento da ação são suscetíveis a dúvidas, a eloquência é desvalorizada e justa ou injustamente a credibilidade da mais nobre casa de  qualquer democracia, o Parlamento, é radicalmente reduzida, adquirindo seguidores atentos aos confrontos artificias e previamente ponderados e  desatentos aos atos legislativos em discussão e à fiscalização do poder executivo.