Entre os ruídos, posturas exacerbadas e a crescente opacidade, o debate  político português carece – e sofre – do silêncio dos Bons, ou seja, dos  notáveis perdidos nos seus escritos, afastados da vida pública por saturação  ou por desencanto.

Vivemos num período de profunda confusão política que não tem origem nos  irresolúveis problemas de Estado, mas da exacerbação psicológica dos seus  atores, ora próximos da loucura freudiana, ora entregues a um imobilismo  intelectual que paralisa qualquer gesto de grandeza.

É neste vaivém entre o delírio e a paralisia que me interrogo: onde está a voz  dos Bons?

As eleições presidenciais deveriam corresponder a momentos de reavaliação  moral, de reencontro com os Príncipes da Política – aqueles cujo mérito e  grandeza atestam a capacidade de Chefiar uma Nação. Contudo e  especialmente as presentes eleições, servem sobretudo para expor o declínio  moral, político e cultural da nossa Sociedade.

Os fundadores de regime, os Príncipes Fundacionais, envelheceram e, por  razões partidárias, sociais e históricas, as possibilidades de renovação  principescas são escassas.

Em não havendo espaço para novos políticos com magnitude presidencial,  faltando domínio intelectual para afirmações de carácter e não havendo  recetividade para figuras com profundidade e robustez moral, como podem os  Bons apresentar-se ao combate? A arena da política é aos dias de hoje, um  repelente natural para estas figuras.

Por vezes, procuro através de sucessivas reinterpretações, uma causa para  este desequilíbrio entre o perfil político dominante de outrora e o perfil que  domina o período contemporâneo. Encontro poucas razões estruturais que  expliquem a magnitude do declínio, para além de uma evidência, a  indisponibilidade social para os acolher.

A transformação social foi abrupta, arrastou consigo as instituições políticas,  não para caminhos de superioridade moral ou capacitação administrativa, mas  para uma corrida pela compatibilidade entre as dinâmicas socioeconómicas e  as dinâmicas sociopolítica – como garantia mínima de sobrevivência do regime.

Esta metamorfose, precipitada e insuficientemente ponderada, desencadeou  um movimento centrífugo que empurrou os notáveis para longe da vida política.

É possível conceber a interdependência entre Sociedade e Política, uma  enquanto agente vivo, autónomo e espontâneo e outra, enquanto seu espelho.  Contudo, esta visão é utópica e distante da realidade portuguesa, sobretudo,  quando comparamos os primeiros governos constitucionais e a sociedade que  os elegeu, caracterizada por uma elevada taxa de analfabetismo. A  discrepância era enorme – e, ainda assim, surgiram gigantes.

Existem, naturalmente, outros fatores. Alguns, senão grande parte, moldados  pela consciência individual daqueles que reconhecem em si capacidade para a  notoriedade principesca, mas que não encontram, no ambiente político  contemporâneo, um espaço digno do seu contributo.

O Serviço-Público – o ditame da excelência do homem ciceroniano – tornou-se,  nos dias de hoje, um ato quase suicida, estando sujeito a perseguições  constantes, exigências obscenas e pressões mediáticas cujo propósito não é a  melhoria do bem-estar coletivo, mas a maximização do share televisivo. Isto,  sem referir, que se trata de uma barreira ao verdadeiro estímulo intelectual.

Arrisco, por isso, afirmar que, para os que são portadores de espírito, a  produção intelectual é um mandato de serviço público, tão ou mais válido que  qualquer mandato político sufragado.

No entanto, enquanto os Bons e Notáveis permanecem afastados de um  sistema político em declínio, onde a histeria conquistou a eloquência e a  decadência se sobrepõe à prudência, a gravidade da situação apenas é  intensificada.

O silencia dos grandes, refugiados nos seus habitats naturais, é para quem se  interessa pela vida do regime político um sinal de asfixia. Porque, ao  preservarem esta postura, alimentam a tonalidade dos loucos, fazendo-os crer  gigantes.

Gigantes que passam por estadistas, declamando, em momentos oportunos,  palavras calorosas e fervorosas retiradas aos poetas da História, não por  inspiração, mas por recomendação de agências de marketing político,  ensaiados por técnicos em comunicação política.

Aos notáveis que nos restam, apelo a que se insurjam, demonstrando o lugar  meritório que a sociedades vos deve reservar.