Já sabemos que, para as esquerdas, toda a direita é “radical”. Não vamos discutir isso, mas outra coisa: porque é que as esquerdas não tratam Rui Rio como parte dessa “direita radical”? Dir-me-ão: que disparate, então se o homem diz que não é de direita, mas de “centro-esquerda”, “um verdadeiro social democrata”, que até votou em Mário Soares em 1986. Bem, se é esse o caso, então estamos perante uma novidade histórica. Porque auto-definições dessas nunca impediram as esquerdas de arrumarem o professor Cavaco Silva — que também apoiou Mário Soares, mas em 1991 –, como um “homem da direita” (um “nacional populista”, segundo a rotulagem agora na moda).

O assunto merece alguma reflexão, por isto: não me recordo de outro líder do PSD que, como Rui Rio, fosse tão fácil de caricaturar nos termos em que a esquerda geralmente caricatura os políticos de direita. Para começar, Rio defende tudo aquilo que os outros líderes do PSD tradicionalmente defenderam, e que sempre serviu à esquerda para os acusar de serem de direita: por exemplo, a iniciativa privada na saúde. Mais: nos últimos dois anos, Rui Rio renegou repetidamente o “regime”, que acha “profundamente desgastado e incapaz de responder às exigências da sociedade”. Le Pen em França ou Salvini em Itália não dizem outra coisa. Podemos prosseguir: como o general Franco em Espanha, Rio parece viver apavorado com as conspirações da maçonaria, cujas garras vê por todo o lado. Porque é que, então, a esquerda não o está a denunciar como um “liberal”, determinado em “destruir” o Estado social, um “populista”, decidido a levantar a plebe reaccionária contra a democracia, ou mesmo um “fascista”? Por muito menos, Francisco Sá Carneiro, Aníbal Cavaco Silva, ou Pedro Passos Coelho foram tratados assim no seu tempo. Porque não Rio?

Por uma razão muito simples: porque as esquerdas portuguesas não têm razões para recear Rui Rio, como recearam Sá Carneiro, Cavaco Silva ou Passos Coelho. Sá Carneiro, Cavaco Silva e Passos Coelho ganharam eleições, juntaram gente com filosofias diversas num movimento reformista, e fizeram do PSD o maior partido nacional. Rui Rio tem sido o contrário disso. Isolou-se, apostou tudo numa campanha de purificação ideológica e de expurgo do seu partido, e já conseguiu reduzir o PSD à sua mínima expressão eleitoral. No sábado passado, Rio tornou-se, entre os vencedores de eleições para a presidência do partido, o menos votado desde que há directas. Apesar de haver mais de um candidato, apenas 31 000 militantes participaram. Em quatro concelhos, não houve um único voto. Nunca o PSD foi tão pequeno e esteve tão desmotivado. O próprio Rio, depois das derrotas nas Europeias e nas Legislativas, já parece estar a baixar as expectativas para as Autárquicas de 2021.

Mais ainda: Rio, como alguns dos candidatos à liderança do CDS, insiste em fingir que o PS não decidiu em 2015 governar com os votos e as abstenções do PCP e do BE. Prefere imaginar António Costa como um refém da extrema-esquerda, à espera de uma mão parlamentar da direita para se resgatar. As famílias socialistas agradecem este contributo para o peditório de equívocos em que se habituaram a viver.

Por que razão haveriam as esquerdas de destratar Rui Rio? Ele é a garantia de que a direita permanecerá desmobilizada e desorientada, e nunca será alternativa de governo nos próximos anos. Rio pode propor a privatização integral do SNS ou até a substituição da estátua de D. Pedro IV no Rossio de Lisboa por uma estátua de Salazar. Jamais lhe chamarão “neo-liberal” ou “fascista”. A “direita radical”, para as esquerdas, é aquela que ganha eleições. Rui Rio nunca será da “direita radical”.