No artigo “O PS precisa da pobreza como mentalidade dominante” referi que a mais importante reforma que Portugal precisa é a mudança de mentalidade, para passar a promover a acção dos indivíduos e das empresas como fonte de crescimento em vez de continuar com a mentalidade de pobreza, que privilegia a acção do Estado como fonte de nivelamento social por baixo.

Esta mentalidade de pobreza decorre de algo ainda mais profundo, que é a mentalidade paternalista, dominante em Portugal há vários séculos. Devido ao paternalismo, estamos sempre à espera que “alguém” resolva os nossos problemas, em vez de nos mobilizarmos para os resolver autonomamente.

A reacção à nova estratégia de segurança dos EUA e a greve geral ilustram o nosso paternalismo.

No documento “National Security Strategy of the USA”, no capítulo “C. Promoting European Greatness”, podendo concordar ou discordar de partes do diagnóstico e de algumas linhas de acção, está claro que os EUA querem e precisam de uma Europa forte. No entanto, políticos, jornalistas, comentadores, académicos e outras pessoas interessadas interpretaram essa estratégia como uma traição à Europa, fingindo-se virgens ofendidas.

Falta-lhes uma perspectiva essencial…

No artigo “A esquerda é contra a natureza humana” referi que, devido ao instinto humano da cooperação (em complemento ao da competição), as sociedades foram evoluindo em graus sucessivos de agregação:

Família   ->   Clã   ->   Tribo   ->   Nação   ->   País   ->   Império   ->   Civilização

Há diferentes civilizações no mundo. No livro O choque das civilizações, Samuel P. Huntington descreve as principais civilizações (ocidental, latino-americana, islâmica, subsaariana, hindu, sínica, nipónica, entre outras) e os conflitos latentes entre elas. Mas mesmo as civilizações podem ser agrupadas em dois grandes grupos: livres e submissas.

Os países que pertencem ao grupo das civilizações livres têm regimes democráticos. Nestes incluem-se repúblicas (Alemanha, EUA, França, Portugal) e monarquias constitucionais (Espanha, Noruega, Países Baixos, Reino Unido). Têm em comum a alternância no governo entre partidos de esquerda e de direita. Nestes países existe liberdade de expressão, embora o movimento woke a queira permitir apenas para ideias de esquerda, proibindo a expressão de ideias de direita.

Os países que pertencem ao grupo das civilizações submissas têm regimes autocráticos. Nestes incluem-se tiranias (China, Coreia do Norte, Cuba, Irão), e pseudo-democracias (Angola, Moçambique, Rússia, Venezuela). Têm em comum o governo de forças políticas de esquerda e repressão política e policial. Nestes países não existe liberdade de expressão, excepto para o Estado e para pessoas de esquerda.

Os EUA são a maior potência económica e militar do grupo das civilizações livres.

A China e a Rússia são respectivamente a maior potência económica e a maior potência militar do grupo das civilizações submissas.

Tendo esta perspectiva em conta, a maneira adequada de sintetizar a estratégia de segurança dos EUA no que respeita à Europa é com a frase “Brother, grow up, I need you!”.

Os EUA já disseram aos países europeus – e agora escreveram – que têm de abandonar a infantilidade de depender da protecção militar dos EUA e passar a ter autonomia para se defender, porque o inimigo é outro e a Europa e os EUA não deixarão de ser aliados.

O grupo de civilizações livres precisa de cooperar para enfrentar o cada vez mais forte, agressivo e nefasto grupo de civilizações submissas. Ignorá-lo é deixar a Europa vulnerável aos movimentos subversivos de extrema-esquerda que trabalham diariamente para passar para esse grupo. Tristemente, em alguns países como Portugal, também há forças políticas “moderadas” de esquerda e de centro, que trabalham ingenuamente para passar para as civilizações submissas, sem se aperceber que o estão a fazer. Um exemplo recente disso foi o voto a favor da proposta de legislação europeia denominada “chat control”.

Assumindo que a maioria dos portugueses não quer seguir o caminho da submissão, é preciso abandonar o paternalismo. Se na política externa significa não depender de terceiros, na política interna significa a população deixar de esperar que o Estado resolva os problemas e os políticos deixarem de assumir que o Estado deve decidir tudo porque os cidadãos não têm discernimento para decidir o que é bom para si e para o país.

A greve geral de 11 de dezembro (geral apenas de nome) foi feita por empregados do Estado, motivada falsamente pela proposta de alteração da lei laboral, que não os afecta em praticamente nada. O motivo real foi a luta política dos partidos de esquerda para manter a mentalidade de paternalismo e pobreza, que o país precisa de abandonar.

Abandonar o paternalismo significa seguir aquilo que John F. Kennedy disse no seu discurso inaugural como presidente dos EUA em 1961: “Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, mas sim o que podes fazer pelo teu país”. Em Portugal, temos ignorado olimpicamente este repto e o leviatã Estado tem crescido desmesuradamente.

O paternalismo está tão impregnado na mentalidade portuguesa que é difícil reconhecê-lo. Até Nuno Palma, no seu brilhante livro As causas do atraso português, falha na identificação desse problema. Tal como Portugal com as especiarias da Índia, o ouro do Brasil e os fundos europeus, muitos outros países beneficiaram de riqueza externa e não se mantiveram atrasados. Exemplos recentes são os países do centro e do leste da Europa, que beneficiaram dos fundos europeus e estão a ultrapassar Portugal na riqueza actual e na capacidade de gerar riqueza no futuro. A diferença está na mentalidade do paternalismo, que não existe nesses países, essencialmente porque foram “vacinados” contra os governos de esquerda ao sofrerem arduamente sob domínio soviético. Efectivamente, o paternalismo é o maior entrave ao desenvolvimento de Portugal.

A mentalidade paternalista (e mendicante) está tão impregnada em Portugal que uma parte significativa da população não ficou incomodada quando o último primeiro-ministro do PS perguntou “Já posso ir ao banco?” na altura em que a presidente da comissão europeia lhe deu o cheque simbólico do PRR. Que vergonha…

Como mudar essa mentalidade?

Através do sistema de ensino é inviável, porque está dominado pela esquerda. Como diz um gestor meu conhecido, em Portugal as escolas “produzem” demasiados jovens adultos com a motivação de empregados do Estado.

Através do sistema de justiça também é inviável, pela mesma razão. Como diz um advogado meu conhecido, em Portugal o patrão é culpado mesmo com prova em contrário.

Através dos meios de comunicação é impossível, pela mesma razão. Basta lembrar os despedimentos de jornalistas que ousaram destoar do discurso dominante de esquerda.

Através da economia é talvez a única via. Se as pessoas passassem a depender do seu bom desempenho para ter rendimentos em vez de depender de contratos de trabalho rígidos para manter o emprego mesmo tendo mau desempenho, então a mentalidade de paternalismo desapareceria, sendo substituída por uma mentalidade adulta de autonomia. Há uma forma simples e eficaz de o fazer, é só incluir o fraco desempenho como motivo de despedimento por justa causa, tendo naturalmente o cuidado de incluir algumas salvaguardas para evitar abusos.

Quem terá discernimento e coragem para fazer isto?

O país também precisa de se livrar do paternalismo porque isso gera muita corrupção. As pessoas com mentalidade paternalista não têm muita capacidade de gerar riqueza, por isso recorrem a “esquemas” para subtrair riqueza a outros.

O que aconteceria se, tal como a Noruega, Portugal descobrisse enormes jazidas de petróleo? Em vez de termos um fundo soberano como a Noruega, provavelmente teríamos “fotocópias” distribuídas por cofres, notas no meio de livros distribuídos por estantes, contas bancárias recheadas distribuídas por offshores, carros desportivos distribuídos por apparatchiks, terrenos vastos em zonas protegidas distribuídos por camaradas, iates sumptuosos distribuídos por barões, “tachos em barda” nas empresas de capital público distribuídos por militantes, etc.

Além disso, o partido no governo distribuiria tenças vitalícias para a população, de maneira a comprar votos para se perpetuar no poder.

Como diz um economista meu conhecido que trabalhava no Banco de Portugal em 2010 (quando houve uma crise financeira mundial), se não fosse a lei a impedir, provavelmente o governo do PS teria esbanjado todas as reservas de ouro do Banco para continuar a executar as suas políticas de esquerda, adiando apenas por algum tempo o pedido de ajuda que fez à troïka para evitar a bancarrota.