A única previsão que tinha em relação a estas eleições é que António José Seguro (AJS) iria ganhar a primeira volta a uma distância maior do que indicado pelas sondagens. Fez uma boa campanha sem atacar os adversários. Soube gerir os silêncios. Como é habitual as próprias sondagens tiveram impacto nos resultados eleitorais como já aconteceu no passado. Isto porque o carácter renhido dos resultados nas previsões das sondagens, levaram muita gente, em particular de esquerda (apoiantes de Livre, Bloco, PCP e mesmo socialistas que não votariam no candidato apoiado pelo PS) a não votar nos candidatos da sua preferência política, mas em votar Seguro.

Isto significa que os votos em AJS estão sobredimensionados relativamente à sua base eleitoral e, por seu lado, estão subdimensionados os votos em António Filipe, Catarina Martins e Jorge Pinto em relação aos eleitorados dos partidos que os apoiam (PCP, BE e Livre). Dos três parece-me que o mais penalizado pelo “voto útil” foi Jorge Pinto por duas razões. Primeiro, porque, ao contrário dos restantes, foi ambíguo em relação à possibilidade de desistência e teve a honestidade de dizer que compreendia que as pessoas votassem útil noutro candidato potencialmente ganhador. Segundo, porque os eleitores do Livre, mais do que os do Bloco ou PCP, são mais tolerantes e racionais sobre a implicação do seu voto e menos obedientes às indicações de voto dos respetivos partidos de filiação ou afeição. Quer António Filipe, quer Catarina são candidatos sólidos, bem conhecidos e experientes, enquanto Jorge Pinto, mais jovem e menos habituado a estas lides foi, contudo, uma boa surpresa destas eleições.

À direita as coisas eram mais complexas e é difícil quantificar as implicações dos diferentes casos que marcaram esta campanha. Luís Marques Mendes foi (LMM) o grande derrotado da noite. Foi claramente afetado pela maior transparência legislativa que existe no que diz respeito ao exercício de cargos políticos  e pelo bom trabalho jornalístico feito aqui no Observador sobre os rendimentos e património dos vários candidatos. O título do artigo dedicado a LMM – Mendes chegou a ter ativos de 670.000 euros (..) — e a explicação de como evoluíram os seus ativos e passivos é quase suficiente para alienar muitos votantes para vários candidatos sem tal património e que vivem de forma mais clara dos rendimentos do seu trabalho, como a esmagadora maioria do povo português. Não conseguiu afastar-se da imagem de facilitador de negócios. Marques Mendes  e o PSD/CDS – dado o empenho pessoal de Luís Montenegro na campanha — tiveram uma derrota pesada descendo dos 31,21% de votos do PSD para cerca de 11%.

João Cotrim de Figueiredo, foi claramente a surpresa à direita nesta campanha eleitoral obtendo uma votação superior à que se poderia imaginar no início da campanha eleitoral. Fez de longe a mais criativa campanha nas redes sociais (não medida em termos de visualizações, que aí André Ventura superou, mas em termos de conteúdos). Também não saberemos que impacto eleitoral tiveram dois eventos em dois dias consecutivos da campanha. A denúncia de assédio sexual de que foi alvo e, depois de uma noite seguinte provavelmente mal dormida, a confissão infeliz, de que não excluía um apoio ao líder do Chega numa segunda volta. Não temos contrafactual para saber se não fora estes casos se teria passado a uma segunda volta. Apesar de Cotrim ter dito que teve uma derrota é óbvio que teve uma vitória. Aumentou consideravelmente os votos que a Iniciativa Liberal teve nas últimas eleições. Está a tentar ocupar a liderança da direita democrática e aproveitou o discurso da noite para o ataque ao PSD não dando indicação de voto para a segunda volta.

André Ventura é o segundo vencedor da noite. Percebeu precocemente algo que o Chega usa com mestria e que os restantes partidos de direita e de esquerda deveriam perceber. São as redes sociais (Facebook, X, Tik Tok, Instagram, etc.), usadas de forma segmentada para públicos-alvo de jovens, idosos,  etc.  o meio privilegiado de acesso e difusão da informação na democracia portuguesa! Já não são os jornais em papel nem online que formam a opinião pública, são as redes sociais. Ventura recorre ao mantra habitual da limpeza de Portugal da corrupção, de imigrantes e da segurança, da necessidade de um país em que a polícia tenha autoridade e possa usar as armas sem ter medo. Não fala nesse verdadeiro escândalo nacional que foi a violência, incluindo tortura e violação, alegadamente perpetrada por agentes policiais em duas esquadras de Lisboa. Lidera de longe o uso das redes, com notícias verdadeiras, ou falsas (pois sem mediação de jornalistas ou contraditório) e, o que é certo, é que continua a convencer muitos eleitores, mesmo não tendo propostas substantivas para nenhum dos alegados e os reais problemas do país. Mas tendo boas performances para as redes e para as TVs como a de ontem à noite ter ido à missa na hora nobre das televisões.

Finalmente,  Gouveia e Melo mostrou ser um estreante na política, que poderá almejar um futuro político, mas será algo que muito dificilmente conseguirá, pois um projeto político necessita de um pensamento político consistente e coerente e um conjunto mínimo de pessoas com credibilidade alinhadas em torno desse pensamento

Na noite eleitoral, os maiores candidatos derrotados — Cotrim, Gouveia e Melo e Marques Mendes – recusaram-se a recomendar o voto em qualquer candidato na segunda volta. Já o mesmo não aconteceu com os candidatos de esquerda que apelaram ao voto em Seguro. É óbvio que os candidatos não são donos dos votos daqueles que neles votaram e fica sempre bem dizer, porque é verdade, que cada português é livre de votar onde achar melhor e é isso que acontecerá. A campanha eleitoral ainda não começou, mas nada impede que digam em quem pessoalmente irão votar. Espero que ainda o façam.

Há duas coisas a reter destas eleições. Uma é a reconfiguração do espaço político da direita portuguesa. Outra, ainda mais importante, pois explica a primeira, é a capacidade de usar de forma efetiva as redes sociais. É aqui, goste-se ou não, que se ganham ou se perdem as eleições na democracia portuguesa.

A segunda volta não será entre esquerda e direita, muito menos entre socialistas e não socialistas. Será entre quem defende a democracia, a liberdade e a República e quem as quer minar. Se todos os democratas, progressistas e humanistas forem votar, e se houver uma utilização inteligente das redes sociais, será claramente António José Seguro o futuro Presidente da República.