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Quando os nossos adolescentes são mais maduros que os nossos políticos, e não só /premium

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Quando dois ministros recorrem a livros infantis para nos tratarem como se fôssemos crianças, a infantilização do debate público chegou ao ponto de já nem tolerar um inocente debate de adolescentes

Há dias, ou semanas (meses?), em que se tem a impressão de passarmos, ou nos quererem fazer passar, por um processo acelerado de estupidificação colectiva. Mas quando de repente o ministro das Finanças acha que a melhor forma de justificar a falta de investimento público neste mandato é falar do “Anita vai às compras” ou vemos o ministro da Educação, na SIC, a recomendar a leitura dos livros da colecção “Uma Aventura” aos outros partidos da geringonça, entendemos que o processo é outro. É antes um esforço deliberado de infantilização do debate político, da sua redução a truques próprios de adolescentes e – sobretudo – de menorização do eleitorado, tratado como a displicência altaneira com que se tratam crianças rabinas.

Devo dizer que nada disto me surpreende porque tudo nisto se encaixa bem no espírito dos tempos que vivemos. Há quem eleja (Itália), ou se prepare para eleger (Ucrânia), palhaços encartados, há quem acredite que com palhaçadas é que lá vai, mas a verdade é que sempre que assisto a mais um episódio destes não posso deixar de recordar o que o saudoso Vitor Cunha Rego escreveu no prefácio ao seu livro “Os dias de amanhã”, quando se manifestou contra “uma frase transformada em hino internacional e que representa o desprezo pela maturidade, o regresso à adolescência de milhões de adultos e a vitória do hemisfério não verbal do cérebro humano: ‘We are the world, we are the children” – Nós somos o mundo, nós somos as crianças”. Parece que sim, parece que somos e que gostamos de ser tratados como tal.

De facto só alguém que ache nos pode tratar como crianças acha verossímil que acreditemos que o Governo que optou por cortar no investimento público para apostar nas reversões só o fez porque – segurem-se – “às vezes os concursos ficam desertos”, Centeno dixit. E como ficam desertos a Anita não faz as compras com o Pantufas. Durante quatro anos.

(Apenas para que não restem dúvidas sobre o que foi este desinvestimento público, evidente na delapidação das infraestruturas de transportes, no SNS e no estado de muitas escolas, registe-se que em 2015, no tempo do governo que nos queria empobrecer, ele foi de 4,045 mil milhões de euros, em 2016 caiu para 2,887 mil milhões e em 2018 ainda não tinha chegado aos valores de 2015, tendo-se quedado pelos 3,965 mil milhões de euros).

Custaria muito a Mário Centeno ter a honestidade intelectual de reconhecer que o dinheiro que foi para as reversões não pode ir para o investimento? Tinha de tentar tomar-nos por tolos? Ou por miúdos ignorantes? Eu diria que não custava – só que esse não é o hábito quem há muito deixou de se preocupar com a honestidade intelectual ou com ter um discurso em Lisboa e outro em Bruxelas.

Há contudo uma altura em que a duplicidade, o equilibrismo e o achar que se pode tratar tudo e todos como tontos que não sabem fazer contas acaba por ter um preço. Alguns exemplos soltos, antes de um assunto realmente sério e, esse sim, bem revelador de como estamos naquele ponto de desprezo pela maturidade e regresso à adolescência de que falava Vítor Cunha Rego.

O primeiro exemplo é ainda da entrevista de Mário Centeno, da parte em que ele avisa que “não estamos a abrir as portas às pré-reformas”. Eu diria que ainda bem, pois tal seria suicidário num país com a demografia do nosso e a segurança social no estado em que a nossa está. Contudo a verdade é que foi o governo de que Mário Centeno faz parte que, em Dezembro do ano passado, regulamentou a possibilidade de os funcionários públicos requererem a pré-reforma, dizendo que iam poder receber até 100% do salário a partir dos 55 anos, uma benesse que permitiu que se fizesse dela grande estardalhaço. Agora que haverá milhares de professores a inundar as escolas com pedidos de informação sobre essa mirífica reforma antecipada, para não falar do que se passará noutros serviços, o ministro vem dizer que tem a chave do cofre e que não tenciona abri-lo. Deitam-se os foguetes, cria-se a expectativa e depois ainda se espera recolher louros com a imagem de “responsabilidade” na gestão dos dinheiros públicos. É como mostrar o chupa-chupa ao miúdo e depois escondê-lo no armário porque “faz mal aos dentes”.

O segundo exemplo é o do inesquecível “erro de perceção mútua” sobre o sentido de uma frase inscrita num Orçamento do Estado que implicava a contagem de todo o tempo de serviço dos professores e criou nestes uma expectativa bem diferente dos “dois anos, nove meses e 18 dias” que o Governo acabou por impor depois de umas “negociações” onde nunca ninguém saiu das posições em que estava. O problema dos “erros de perceção mútua” é, como nas reformas antecipadas, criam expectativas que depois se procuram resolver dizendo que a culpa é do “menino que não percebeu bem”.

O terceiro exemplo é esta teimosia em querer justificar tudo o que pode cair mal na opinião pública com decisões do governo anterior. António Costa tem 11 motoristas ao serviço do seu gabinete e isso sabe-se na véspera do dia em que se andou a passear pelos transportes públicos da capital? Então a culpa é de um despacho de Passos Coelho que ele, em quase quatro anos, não teve ainda oportunidade de rever. O tema é tão relevante que motivou mesmo um comunicado, num daqueles momentos em que eu voltei a hesitar sobre se realmente para os lados de São Bento se julga que somos todos crianças crédulas ou antes tolos incuráveis.

Mas não. O que se acredita mesmo é que os portugueses são adolescentes ainda impreparados para o mundo real. Tive a prova disso quando me caiu em cima da secretária uma recomendação surreal da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial a propósito de uma notícia – de resto difundida pela agência Lusa e reproduzida em numerosos órgãos de informação – onde se referia o início do julgamento em Lisboa, por terrorismo, de um cidadão marroquino. Que pretendia a dita comissão? Que não se referisse a nacionalidade do réu. Certamente não lhe faria cócegas se o cidadão fosse francês, inglês ou sueco, agora marroquino deveria ter sido traduzido por, suponho, “estrangeiro”, porventura por
“alienígena”.

Aparentemente há quem ache que escondendo informação relevante – não será a nacionalidade de alguém julgado em Portugal por terrorismo relevante? – se evite não sei bem o quê. São pessoas que se comportam relativamente aos cidadãos como aqueles pais que acham que escondendo o mundo real dos filhos eles vivem mais felizes e seguros, sem perceberem que um dia acabam por ter uma surpresa, pois o mundo real entra-lhes, sem aviso e às vezes violentamente, pela porta das traseiras. São pessoas que preferem interditar tudo em lugar de permitir o livre arbítrio de quem responsavelmente dá notícias, só por receio de que alguém as dê irresponsavelmente.

E como se este exemplo não fosse suficiente, eis que nos deparamos com adultos com menos maturidade do que adolescentes. Desta vez o caso a que me refiro teve por palco um colégio de Lisboa, o Sagrado Coração de Maria, onde alunos do ensino secundário tiveram uns debates, designados “Talents talks”, em que queriam abordar temas controversos de forma controversa. Por exemplo: “O país que acolhe refugiados deve respeitar a cultura dos estrangeiros ou impor a sua, uma vez que o Estado lhe paga os subsídios?”; “Será que nascemos geneticamente gays ou é algo que resulta de uma conjuntura externa?” Independentemente da forma mais ou menos feliz como as perguntas estão formuladas, a primeira delas sintetiza o contraste entre o modelo britânico e o modelo francês de integração de migrantes e refugiados; a segunda é uma questão para a qual a ciência não tem respostas fechadas e é tipicamente um tema de conversa entre adolescentes.

Imediatamente se levantou a habitual “onda de indignação” das redes sociais, a escola, para mais católica, assustou-se e recuou, pelo que os/as sacerdotes/sacerdotisas mores do politicamente correcto do Diário de Notícias também afiaram as espadas pelo que, em editorial, viu-se mesmo na simples existência do debate o risco de assim se banalizarem ideias de extrema-direita de Steve Bannon, sem em momento algum lhes ocorrerem três coisas simples: primeiro, que aqueles temas de debate existem, são legítimos, nalguns casos mesmo pertinentes; segundo, que um debate de alunos do secundário enquadrado por professores é seguramente mais informado do que aqueles que esses mesmos alunos têm e terão sobre aqueles temas, pois ninguém duvide que os discutem; e terceiro, porventura mais importante, que somos todos adultos.

Ou talvez não sejamos. É mesmo possível que Vitor Cunha Rego tivesse toda a razão ao falar do regresso à adolescência de milhões de adultos, a começar pelos adultos que tratam os outros adultos como se fossem crianças ingénuas prontas a acreditar nas suas mentirinhas, que tratam os adolescentes como seres de incapazes de terem uma discussão aberta (e não dogmática, apenas seguindo os seus credos) ou ainda que destratam os demais como brutos que é melhor não saberem que um acusado de terrorismo é de nacionalidade marroquina.

Quando se rebaixa assim o nível do debate público (e do discurso político) há ainda quem fique surpreendido com o que vê em certos talk-shows televisivos. Eu não. O mundo sempre foi feito de vasos comunicantes.

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