“Um dia, quando olhares para trás, verás que os dias mais belos foram aqueles em que lutaste.”
Sigmund Freud

São estes momentos que definem as grandes nações. Este é o tempo de demonstrarmos ao mundo, mas sobretudo a nós próprios, o quão capazes somos.

Nos últimos tempos a identidade colectiva portuguesa tem sido colocado em causa pelos piores motivos. De corruptos a racistas, passando por intolerantes e desorganizados. Nas próximas semanas não importará se és preto, branco, ou cigano, rico ou pobre, crente ou ateu. Todos serão necessários no ultrapassar desta crise. A acção individual de cada um terá impacto no bem-estar colectivo. Hoje estamos longe de saber quando é que esta crise terminará. Mas a forma como a ultrapassarmos ditará muito da nossa entidade colectiva futura.

Num pais com mais de 2 milhões de pobres e mais de 20% de população idosa (com mais de 65 anos) e com um Serviço Nacional de Saúde incapaz de dar resposta às enormes dificuldades que se avizinham, cabe a cada um de nós ser parte da solução para uma situação nunca antes vivenciada na sociedade portuguesa. Não tenhamos dúvidas, o COVID -19 será um enorme teste à nossa identidade colectiva, à consciência cívica de cada um. Um teste também aos nossos limites físicos, emocionais e relacionais. As relações sérias e coesas perdurarão. As fictícias, perecerão.

Na ausência de lideranças (têm sido raras – muitos reagindo ao desenrolar dos acontecimentos, em vez de se anteciparem, propondo formas eficazes de lutar contra um inimigo invisível) a acção individual e o espírito comunitário terão um papel decisivo no ultrapassar desta crise. É aguardar o melhor mas estar preparado para o pior.

Que cada um seja soldado na linha da frente no combate ao vírus, através das medidas básicas de prevenção, principalmente, ficando em casa e indo à rua somente por motivos de força maior! O espírito comunitário, enquanto resposta sequente e urgente, será fundamental para ultrapassarmos da melhor forma este enorme desafio. Idosos isolados e sem abrigos serão os grupos mais vulneráveis, não apenas no acesso à alimentação e cuidados de saúde – numa fase mais aguda – mas também da sua própria segurança.

Caberá a um espírito comunitário atento e eficaz dar a resposta devida. Com as medidas adequadas, não deixe de olhar para os seus vizinhos mais vulneráveis que irão precisar de comida, de medicação, ou de simplesmente conversar… (por telefone, telemóvel ou até de janela a janela, varanda a varanda, etc). Não circule na rua se não for mesmo necessário, mas não deixe de pensar nos outros, por vezes uma palavra amiga dita na hora certa dá ânimo e atenua o desânimo. Aconselhe e sugira cuidados àqueles que parecem não acreditar na gravidade da situação.

O Serviço Nacional de Saúde, através da assistência nos hospitais deverá ser a última retaguarda no apoio a quem mais precisa. Até lá, dependerá de cada um de nós o regresso à desejada normalidade. Evitem a ida aos hospitais ao mínimo sintoma, leiam as indicações da Direção Geral de Saúde. Não entupam os hospitais ao mais leve sintoma, que pode não ser mais do que uma constipação ou um resfriado. A ida aos hospitais e centros de saúde deve ser reservada apenas em casos de emergência. Apele ao bom senso e à calma de todos. O medo pode levar as pessoas a agir de forma automática, sem ponderar as consequências de um gesto mal ponderado.

Por outro lado, este será um verdadeiro teste às autarquias locais. “Ninguém ficará para trás por falta de apoio”!!! Esta deveria ser a primeira mensagem dos nossos líderes. A presente situação deixará a nu o que realmente muitas autarquias têm feito, ou não, junto dos mais vulneráveis, bem como da sua capacitação de resposta em tempos de crise. Governar em tempos de “vacas gordas” é fácil…

Será mais “fácil” para as autarquias que sempre adoptaram políticas de proximidade, que conhecem bem o terreno, quer junto das suas instituições locais, quer junto dos seus munícipes/fregueses. Por outro lado, outras, que se têm limitado a fazer propaganda com medidas e ações repetidas no tempo, inibidoras da emancipação das comunidades, por força da cristalização das suas decisões e incapazes de mobilizar os actores locais, que trabalham no terreno, em contato direto com as populações terão maiores dificuldades.

Caberá também – com as devidas precauções de segurança – às associações locais, sejam elas desportivas, culturais ou de moradores, organizarem-se na procura de resposta aos mais necessitados, em articulação com demais entidades locais.

Se cada um desempenhar o seu papel com consciência cívica, social e comunitária, poderemos sair mais cedo desta crise, devendo, desta feita, sair do desígnio do triste fado que ciclicamente tem marcado o coletivo português.

Podemos sair mais forte, enquanto comunidade, transmitindo ao mundo aquilo que melhor nos define enquanto povo, enquanto nação. Um povo generoso, solidário e próximo de quem precisa. Heterógeno na sua composição étnico-social, mas homogéneo no gosto pela vida e pelo prazer de viver neste magnífico país à beira mar plantado.

Juntos e conscientes, venceremos!

Sejam fortes!