Ver no novo governo a força da reforma e modernização da administração é inspirador. São 23 anos de trabalho para e com a Administração Pública. Alguns momentos foram particularmente marcantes, tais como a criação da UMIC  no governo de Durão Barroso; o Simplex e o PRACE sob a liderança de Maria Manuel Leitão Marques; ou, com Pedro Passos Coelho, as reformas estruturais da organização administrativa. Hoje, somos reconhecidamente — segundo o índice IDES da Comissão Europeia — um Estado com alto desempenho na digitalização.

Mas a reforma e modernização da Administração não devem assentar apenas no digital. É necessário repensar funções, tipos e formas de prestação de serviços, processos e atividades em toda a administração. Em projetos em que participei, como o MIIP (Metadados para Interoperabilidade, em 2006/2007), percebi que a Administração (na altura, apenas a Central) apresentava atividades repetidas e processos que faziam lembrar o famoso sketch “Papel? Qual papel?” dos Gato Fedorento.

Ao reler o discurso de tomada de posse do Senhor Primeiro-Ministro permito-me refletir em seis pontos essenciais:

  1. Guerra à burocracia
    Os processos administrativos devem ter como princípio base o uso do Português Claro. Na altura do justiça.gov e do ePortugal, conheci o projeto claro.pt, que visava “traduzir” a linguagem jurídica. Também o Digesto, hoje integrado no DRE, fazia um trabalho notável na interpretação de diplomas. Mas é preciso ir além: a legislação deve ser clara — e não uma malha indecifrável de revogações e reescritas. Os regulamentos e regras de contenção orçamental, racionalização da despesa ou gestão ambiental não devem criar uma sucessão interminável de pareceres. Devem, sim, ser repensados quanto ao propósito, forma e meio.
  1. Reorganização da estrutura do Estado
    A centralização das secretarias-gerais e a concentração dos gabinetes no campus APP, dado que é necessário unificar processos, sistemas de informação e, sobretudo, pensar esta reorganização como uma fusão empresarial — com aspetos formais e informais, que envolvem pessoas e espaços. É necessário promover uma cultura comum.
  1. Eficiência e qualidade do serviço público
    A qualidade do serviço é comprometida pelo cansaço e pela falta de condições. É urgente repensar novas formas de trabalho que mantenham ou aumentem a motivação, simplifiquem procedimentos e permitam um serviço mais rápido e eficaz para cidadãos e empresas. É notório o que os servidores públicos conseguem fazer com poucos meios. No entanto, essa entrega nem sempre se traduz em eficiência, por falta de visão estratégica e de reengenharia de processos.
  1. Combate à corrupção e tráfico de influência
    Muitas vezes estes fenómenos são alimentados pela demora, pela falta de resposta e pelo emaranhado de pareceres e relatórios. A economia exige celeridade — não pode esperar anos por uma adjudicação . E depois, exige-se que o trabalho seja feito em metade do tempo. Muitos fornecedores do Estado enfrentam estas situações. O problema não é apenas o famoso CCP, mas todo o ecossistema: pareceres prévios, vistos, auditorias e inspeções que, embora promovam transparência e concorrência na teoria, na prática imobilizam a atividade. Ninguém defende contratações sem regras, mas talvez seja hora de simplificar e alinhar os processos com os de outros países europeus.
  1. Coordenação interministerial
    A articulação entre ministérios é essencial. Vivemos num mundo complexo, que exige respostas integradas, com competências e meios que atravessam áreas governativas. Interrogo-me se a criação de novas unidades orgânicas seja a solução. Proponho que o caminho passe por perfis e unidades dentro de cada estrutura que promovam essa integração — sempre com base em prioridades políticas e objetivos concretos. É mais fácil envolver as pessoas quando há um desígnio comum.
  1. Valorização dos recursos humanos
    Nenhuma mudança se faz sem pessoas. Para enfrentar novos desafios, precisamos de pessoas com competências diversas — não apenas académicas e técnicas, mas também com perfis complexos e adaptáveis. Quero destacar o papel dos dirigentes. Como dizia o meu avô: “Não há maus soldados, há maus generais.” É fundamental qualificar os dirigentes, máximos e intermédios, promovendo competências de gestão, liderança e conhecimento técnico das áreas que lideram. Devem ser líderes na articulação com outras entidades, na gestão por objetivos e no envolvimento das suas equipas e tutelas.

Estas são reflexões de quem sempre viveu de perto a Administração Pública. Tenho um profundo respeito e gratidão por muitos dos que a integram. Acredito que a Administração tem um papel fundamental na vida coletiva. Um Estado forte é aquele que é simples de entender, complexo de montar e eficaz na ação.