Durante semanas, muitos em Portugal compararam Ventura a Salvini como duas figuras do novo “fascismo europeu.” Disseram que seria necessário um muro a separar os democratas do Chega. Com fascistas e racistas, não se negoceia nem se fazem acordos políticos, ouvimos inúmeras vezes. Como explicam que o homem que salvou o Euro e foi Presidente do BCE esteja a negociar com Salvini, entre outros, o apoio ao governo de unidade nacional? Embora ainda não seja absolutamente certo, tudo indica que a Liga apoiará o governo de Draghi, e poderá mesmo fazer parte do executivo. Bem sei que é um governo de salvação nacional, e que a situação em Itália é diferente da portuguesa. Mas esse não é o ponto relevante. O que interessa sublinhar é que as forças políticas moderadas e centristas em Itália deixaram de tratar Salvini como se sofresse de lepra política. Tal como, aparentemente, Salvini é mais pragmático do que se julgava.

Com o apoio ao governo de Draghi, Salvini enviará dois sinais políticos relevantes. Reconhece que a União Europeia é indispensável para a recuperação da economia italiana (seguramente os fundos europeus contribuíram para a moderação de Salvini) e estará aberto a reconsiderar a sua oposição ao Euro. Em termos políticos, consegue deslocar a Liga para a direita moderada, deixando os Fratelli como o partido da direita radical.

Mas o apoio da Liga a um governo centrista nem é muito surpreendente. Na Áustria, na Bélgica, na Holanda e na Dinamarca já houve governos de centro direita com o apoio de partidos da direita populista e nacionalista. Alguns deles, como na Dinamarca e na Holanda, liderados por partidos liberais (um ponto para ajudar a Iniciativa Liberal a refletir sobre as suas posições). À esquerda, em Portugal o PCP e o Bloco apoiaram um governo socialista – ainda apoiam? Em Espanha, o Podemos está no governo com o PSOE. E na Grécia, o Syriza foi da esquerda radical para o centro esquerda, e da oposição à defesa do Euro. A Liga em Itália está a fazer um percurso semelhante.

A cultura política europeia é predominantemente de integração, de inclusão. Mais tarde ou mais cedo, muitos dos partidos radicais acabam por ser integrados no sistema político. E com a Liga já havia sinais de que isso poderia acontecer vindos, curiosamente, da Alemanha. Tem havido encontros privados entre dirigentes da Liga com dirigentes da CSU e da CDU. A direita alemã sabe que o partido de Berlusconi não recupera a liderança da direita italiana e começou a trabalhar para ajudar a moderar a Liga e Salvini. Os alemães perceberam ainda que partilham muitas das críticas que a Liga faz ao despesismo de Roma. Além disso, sobretudo a CSU, também não quer imigrantes ilegais na Europa. Os partidos políticos europeus analisam os estudos de opinião e sabem que a maioria dos cidadãos é contra a imigração ilegal. No caso da emigração, foi a maioria que se aproximou de Salvini, e não o contrário. 66% dos italianos considera que há demasiados imigrantes no seu país. Já agora, 53% dos franceses e 50% dos alemães acham o mesmo. Não sendo viável mudar o povo, convém alterar as políticas.

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Mas muito mais importante do que Salvini e dos dirigentes da Liga, são os seus eleitores. Quando um partido passa dos 30% e recebe 9 milhões de votos, como a Liga nas eleições europeias em 2019, não pode ser ignorado. Os eleitores da Liga são cidadãos italianos perfeitamente normais. Num estudo recente do Pew Research Center, 79% dos italianos são a favor do regime democrático, mas entre os eleitores da Liga, o número sobe para 85%.

Ninguém sabe o que vai acontecer ao Chega em Portugal, e muito menos se terá um percurso semelhante ao da Liga – na minha opinião, será muito difícil chegar à dimensão do partido de Salvini, mas será muito provavelmente indispensável a um futuro governo de direita. Há um problema com muitos críticos do Chega, sobretudo na direita, ou no centro direita. Olham para certas questões políticas com um excessivo moralismo, ficam prisioneiros do seu dogmatismo e não entendem como a política está permanentemente a mudar. Talvez lhes fizesse bem ler um pouco menos Kant e um pouco mais Maquiavel.