Há algo de comovente — e até de poeticamente previsível — na forma como, geração após geração, os governos se deixam encantar por juristas para os seus cargos executivos. Como se o mundo se resolvesse com argumentos bem encadeados e a realidade respeitasse vírgulas em decretos-lei.

Nada contra os advogados, entenda-se. São essenciais. São os guardiões da linguagem dos códigos, os mestres das causas nobres e das pequenas tragédias do quotidiano. Só que, ao contrário do que o uso excessivo de latinismos possa sugerir, governar não é redigir um parecer.

A gestão pública, no seu estado mais puro, é um exercício de realismo brutal, com consequências reais. É decidir sem tempo, com recursos limitados, interesses em choque e com os olhos do país a observar — mesmo que distraidamente. E é por isso que me espanta esta resistência quase estrutural à ideia de entregar cargos executivos a… gestores.

Nas empresas, ninguém pergunta ao diretor financeiro se já leu a Constituição antes de aprovar um investimento. Ninguém escolhe um CEO com base na sua habilidade para citar jurisprudência. O que se exige — veja-se lá a ousadia — é experiência, capacidade de liderança, visão estratégica e resultados. E, sobretudo, uma qualidade rara em certos círculos políticos: humildade.

Sim, essa coisa incómoda que obriga a discutir ideias, recuar quando necessário, aprender com os outros e assumir que nem sempre se tem razão. Nas empresas modernas, a humildade executiva não é sinal de fraqueza — é critério de excelência. E quando bem usada, conduz à inovação — esse outro palavrão que, na política, muitas vezes só serve para decorar discursos.

Inovar, nas empresas, não é um luxo. É o que se faz todos os dias para sobreviver. Copiam-se boas práticas, estudam-se modelos de sucesso, testam-se soluções e — com alguma sorte e muito esforço — ainda se melhoram as melhores práticas. Não se gasta metade do tempo a provar que o concorrente está errado; prefere-se gastar todo o tempo a fazer melhor.

Na política, porém, inova-se pouco — e, quando se inova, é muitas vezes por acidente. A tendência continua a ser a de encarar a governação como um campo de batalha argumentativa, onde o mais fluente vence, mesmo que nada mude.

Mas governar é gerir. É assumir a responsabilidade de fazer acontecer, de criar valor público, de transformar realidades — não apenas de as interpretar. E isso exige mais do que vocação política ou talento para o debate. Exige método, visão, coragem e, lá está, prática. Daquela que se adquire nas empresas, nas organizações, nos projetos que realmente mexem com vidas, dinheiro, prazos e consequências.

Se a política fosse uma empresa, já teria fechado. Não por falta de missão, mas por falta de execução. E por insistir em colocar no leme quem sabe redigir relatórios, mas nunca pilotou um barco.

Está na hora de levarmos a governação tão a sério quanto levamos os nossos negócios. Porque o país merece líderes com provas dadas — e não apenas discursos com vírgulas bem colocadas.