Uma pessoa ouve “taxa de rejeição” e agarra-se à carteira. No país em que estamos, o mais certo é quererem agora que também pague imposto por tudo o que não quer, já que já paga por tudo o que quer – duas vezes: o preço, pelo que quer; o imposto, por querer. Mas, por uma vez, eis uma taxa que não lhe vai ao bolso; antes vem do coração, da cabeça, do instinto ou do intestino, que é mais ou menos a mesma coisa. A taxa de rejeição é o indicador político, estudado pelas sondagens, do que não queremos – e talvez não lhe andemos a prestar a atenção que deveríamos.
Acerca da perplexidade perante o crescimento da extrema-direita já estamos todos confessados e conversados: “donde vem?”, “mas porquê?”, “porque é que as pessoas estão tão zangadas?”, “como é que não vêem o perigo?”, “como é que não vêem as contradições?”, “não lêem”, “não sabem”, “fascistas”, e por aí adiante. De cada vez que radicaliza o discurso e exalta mais um fiel, cria do outro lado mais um anticorpo, mais uma resistência. É ver os estudos: André Ventura e o Chega têm, indiscutivelmente, muitos simpatizantes e seguidores, mas também têm uma taxa de rejeição altíssima. Certo? Certíssimo. Então, e a esquerda? Causará a mesma repulsa? “Oh, não… Portugal é um país de maioria sociológica de esquerda, não é? O PCP até goza de uma certa simpatia, faz um bom trabalho autárquico, Cunhal era admirado, não estamos exactamente a falar do Gulag…” Só que não.
Convido-o a espreitar os segundos e terceiros parágrafos das notícias acerca das sondagens. Em vez de olharmos sempre só para “quem ganharia se as eleições fossem hoje”, “quem passaria à segunda volta”, para os “empates técnicos”, margens de erro e sobe-e-desce em relação ao estudo anterior, veja também as taxas de rejeição, se a sondagem as contemplar, como no caso da publicada esta semana pela Universidade Católica para o Público, Antena 1 e RTP, relativa às próximas Presidenciais. Ventura tem uma taxa de rejeição, isto é, de pessoas que dizem que nunca votariam nele, de 71%. Elevadíssima, sem dúvida. Mas então que dizer dos 81% de Catarina Martins? Dos 87% de António Filipe? Dos 91% de Jorge Pinto? E, sobretudo, do que dizem estes números acerca de uma rejeição da esquerda em bloco, independentemente do candidato ou partido de origem?
Frequentemente temos procurado as causas para o crescimento da direita radical numa teoria do “esquecimento” histórico, ou mesmo numa espécie de pretenso fascismo zombie, que sempre cá teria estado, mas andado adormecido, até sentir condições para sair da tumba e se mostrar à luz do dia sem medo nem vergonha. Pode ser – a falta de memória é tão humana e rotineira como o sono ou a fome, e a hipótese dos mortos-vivos uma fantasia razoavelmente irresistível. Mas não só as duas são incompatíveis (ou bem que nem sabemos o que aconteceu há seis meses, quanto mais há 60 anos, ou bem que continuamos agarrados ao antigamente), como insistem em desviar os olhos dos factos. Do que nos dizem a migração de antigos eleitores comunistas para a Frente Nacional, em França; o crescimento da extrema-direita na Alemanha que vem, sobretudo, do lado da antiga Alemanha de Leste (comunista); ou o crescimento do Chega em Portugal muito mais expressivo no Sul, bastião esquerdista, do que no Norte, que se mantém, por enquanto, de maioria social-democrata ou democrata-cristã.
No início do século, falou-se muito do fim das ideologias, de fazer ou não sentido persistir na separação esquerda-direita. Foi o tempo das “terceiras vias”, dos “independentes” e dos “movimentos cidadãos”. Hoje, alguns continuam a achar que esse ainda é o caminho – veremos aonde os leva. Mas o que os números parecem mostrar, do colapso dos grandes partidos de esquerda na Europa e do desnorte democrata nos Estados Unidos às taxas de rejeição em Portugal, é que é a esquerda a única e verdadeira vítima do ar que vivemos ao fim de uma era. Afinal, sempre foi esse o lado “ideológico” do espectro, às vezes roçando o nível da fé religiosa, em contraste com um perfil muito mais prático, pragmático, ideologicamente neutro ou mesmo vazio, da direita.
Numa sociedade que, do Texas a Berlim, sente que as elites lhe falharam nas recompensas prometidas pelo seu modelo político-económico, é cada vez mais difícil acreditar em “conversa” (a tal que, do café da esquina ao discurso de Ventura, vai apodada desse mistério etimológico que é ser “de chacha”). Nos subúrbios de Lisboa ou nos de Paris, as pessoas querem soluções concretas para problemas concretos. Não sofrem de amnésia nem são zombies fascistas recém-despertados; estão desencantadas e desiludidas. Porque é que, na América, há um tipo que ganha um trilião de dólares e elas, por mais que trabalhem, já não conseguem sequer pagar a renda de casa? (Com o requinte cruel de esse tipo que ganha o trilião de dólares se alimentar, precisamente, da revolta destilada pelas redes e, cada vez mais, pelas urnas, dos que já mal têm como pagar a casa.)
Se queremos perceber o mundo céptico e descrente a que chegámos, precisamos de olhar pelo menos tanto para as taxas de rejeição como para as cada vez mais magras declarações de preferência. As futuras maiorias não se vão formar por adesão, mas por recusa. Exclusão de partes. À José Régio: “Não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí”, mas com muito pouco de poético.
Muito mais do que o sonho húmido dos ricos, a direita radical são as noites mal dormidas dos pobres. Se estivéssemos a escrever em inglês, o título desta crónica seria “What’s left?”. Em português, resta-nos perguntar: e a esquerda? Como se endireita?