No começo da Segunda Guerra Mundial, o governo britânico estava absolutamente convencido de que os primeiros bombardeamentos nazis sobre Londres seriam suficientes para provocar um rápido e irrecuperável colapso da sociedade. Primeiro, haveria pânico; depois, histeria; por fim, caos. Desaustinado com esta previsão apocalíptica, o Ministério da Informação decidiu que a única forma que lhe restava de tentar evitar esse regresso à Idade das Trevas era (não sei muito bem como dizer isto, mas cá vai) colar cartazes. Um desses cartazes continha uma ordem disfarçada de conselho: “Keep Calm and Carry On”. Acontece, porém, que os britânicos da época não eram propriamente um grupo de pré-adolescentes que desatavam aos gritinhos quando confrontados com a primeira dificuldade. Os bombardeamentos começaram, continuaram e perduraram, mas ninguém entrou em pânico, ninguém cedeu à histeria e ninguém se entregou ao caos. Por isso, o governo decidiu, prudentemente, guardar estes cartazes paternalistas sem nunca os revelar e eles ficaram a apanhar pó até ao ano 2000, quando alguém descobriu uns exemplares perdidos num alfarrabista.
Os britânicos acabaram por não precisar deste cartaz nos anos 40. Mas a mensagem poderia, talvez, ser útil para os dias de hoje. O “sistema” que há séculos mantém a paz nas ruas e a tranquilidade nos espíritos em todo o Reino Unido está afundado num pantanoso impasse. Esta semana, o governo trabalhista começou a tentar aplicar a sua nova política para conter a imigração ilegal. “Entra um, sai um” é o nome dado ao acordo com Emmanuel Macron que permite aos britânicos devolver a França um número substancial de imigrantes que atravessam o Canal da Mancha em pequenos barcos lucrativamente operados pelas máfias do tráfico humano. Supostamente, vários desses imigrantes deveriam ter entrado ao longo da semana em aviões da Air France. Mas inúmeros lugares ficaram vazios na sequência de uma decisão judicial. A espumar de frustração, a nova ministra da Administração Interna do Labour, Shabana Mahmood, vociferou contra os “migrantes que subitamente decidem, na véspera da expulsão, que afinal são vítimas de escravatura” e que exigem ser protegidos pelo Estado britânico. Esforçadamente, o governo conseguiu até agora expulsar, no total, dois solitários imigrantes ilegais. Impotente e inconsequente, o Partido Trabalhista tenta mostrar que realmente existe, apesar de todas as evidências em contrário.
Os conservadores britânicos têm o mesmíssimo problema. Esta semana, um dos seus mais promissores deputados, Danny Kruger, decretou que “o partido acabou” e entregou-se nos braços acolhedores de Nigel Farage e do Reform. Os tories estão a decompor-se lentamente: há dias, Boris Johnson e outros membros influentes do partido envolveram-se numa violenta discussão pública sobre o passado e o futuro dos conservadores, numa demonstração clara de que não sabem onde estão nem para onde vão.
Nigel Farage sabe onde está — está em primeiro lugar nas sondagens com o seu partido de direita populista. E sabe para onde quer ir — quer ir para o governo. Mas, por estes dias, perdeu pela primeira vez o controlo da narrativa da indignação. Manuel Fraga Iribarne sempre alertou o PP espanhol de que a única coisa que o partido podia ter à direita era uma parede. Mas o Reform não conseguiu isso e tem à direita Tommy Robinson, que Farage descreveu como “demasiado extremista”. É uma escolha cuidadosa de palavras, tendo em conta que este ex-hooligan foi já condenado por vários crimes. Mas, com cadastro ou não, no último sábado Tommy Robinson conseguiu mobilizar bem mais de 100 mil pessoas para a manifestação Unite the Kingdom, que preencheu avenida atrás de avenida e praça atrás de praça em Londres.
O Labour está num impasse por causa da pressão da imigração; os conservadores estão num impasse por causa da pressão do partido à sua direita; e o Reform está num impasse por causa da pressão radical das ruas. Sejam muito bem-vindos ao pântano. “Keep calm and carry on”? As pessoas não querem ficar calmas e, decididamente, não querem continuar no mais-do-mesmo. O Reino Unido precisa de mais do que um simples cartaz de propaganda. Nós, se calhar, quando dermos por nós, também.