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A versão portuguesa do programa de televisão Shark Tank estreou no sábado, na SIC, seguindo o modelo que o celebrizou internacionalmente. Mas há na versão portuguesa uma significativa diferença de contexto face à versão original: enquanto nos EUA (país onde existe uma grande liberdade económica e empresarial) Shark Tank é sobretudo um bom programa de entretenimento, em Portugal é um exemplo de serviço público de televisão. E é-o a dobrar. É que, entretendo, o programa combate dois dos mais perniciosos vícios da personalidade portuguesa: a dependência no Estado e o desprezo social pelos pequenos empresários. Caros administradores da RTP, ponham os olhos nisto.

Assiste-se ao telejornal e não há como escapar aos agentes empresariais e respectivas corporações que, diariamente, exigem do Estado o impulso que lhes garanta a sustentabilidade do seu negócio – geralmente por via de regulamentação para limitar a concorrência. Sim, é certo que montar um negócio não é tarefa simples, para a qual basta ter garganta. Requer muito trabalho, olho para as boas oportunidades e algum arrojo. E requer perseverança, sobretudo em Portugal, onde os entraves legislativos e fiscais se multiplicam ao ponto de levar ao desespero até os mais dedicados empresários. Só que o problema do nosso empreendedorismo nunca foi ser difícil pela existência de mais obstáculos do que incentivos à iniciativa privada. O problema é que criar um negócio sem esperar algo do Estado em troca aparenta ser inconcebível para a maioria dos empresários – precisamente aqueles que escutamos nos telejornais e cujo raciocínio guarda raízes na nossa histórica dependência no Estado. Mas, valha-nos o milagre, há todo um país de empresários sem tempo de antena nos telejornais. Empresários que acreditam em gerar prosperidade por via da iniciativa privada, que não suspiraram por impulsos para dinamizar os seus negócios e que, ao Estado, apenas exigem que não atrapalhe e saia da frente. Shark Tank, num acto de serviço público, ajudará a libertá-los do anonimato. Afinal, Portugal tem mais liberais do que os telejornais dão a entender.

Mas nem só de dependências se fazem os nossos vícios. Portugal é também um país de invejas. E é histórico o desprezo português pelo sucesso do vizinho. Um sentimento particularmente corrosivo quando direccionado aos self-made men, símbolos de uma ascensão social que desagrada com igual intensidade as elites das boas famílias (que nunca os reconhecem como iguais) e os vizinhos que partilharam as dificuldades do berço (e não superaram a sua condição social). A nossa praça é uma palete de exemplos desse desprezo, sobretudo entre elites. Cavaco Silva pode ter sido primeiro-ministro e ser hoje presidente que, para muitos, será sempre um gasolineiro parolo. Belmiro de Azevedo pode ter construído uma fortuna na indústria dos estratificados que só foi reconhecido como grande empresário aquando da criação do jornal Público, que limpou a sua imagem de “empresário de Marco de Canavezes”. Alexandre Soares dos Santos pode ter elevado a Jerónimo Martins no mercado internacional e criado a Fundação Francisco Manuel dos Santos (responsável, entre outros, pelo Pordata) que, para muitos, permanecerá um merceeiro. É mesmo assim: um pequeno empresário que se agigante será sempre visto, aos olhos da nossa intelligentsia, como um novo-rico saloio ao volante de um mercedes.

A dependência no Estado e a inveja pelo sucesso dos outros são dois traços latentes da nossa personalidade colectiva – tão poucas vezes discutidos, mas que urge quebrar. São, bem vistas as coisas, sementes do nosso atraso económico e social. Ora, não se trata de sugerir que se confie a um programa de televisão a responsabilidade de salvar a nação e mudar o que durante mais de um século permaneceu imutável. O ponto é mais modesto: salientar que Shark Tank tem características que fazem bem ao país e que o qualificam enquanto serviço público de televisão. Mostrando que é possível ter sucesso empresarial sem usar o Estado como muleta. E recusando o estigma do desprezo social pelos nossos pequenos empresários. Pode até aparentar ser coisa pouca, mas não. É que os nossos problemas são como os tubarões: os mais perigosos não são os que vemos, mas os que nos escapam à vista.

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