O dicionário da Academia define deficiência como uma incapacidade, invalidez. Trata-se, portanto, de um termo que supõe a existência de um padrão, de uma norma – conceitos que, não o esqueçamos nunca, não passam de mera estatística. Todos percebemos que um cego, incapaz de guiar os seus passos por um sentido tão essencial quanto o da visão, se encontra em desvantagem relativamente a todos aqueles que conseguem ver, mas significará isso que é menos valioso (que é precisamente o que significa “in-válido” – privado de uma parte do seu valor)? Mais importante ainda, o que é ser normal, uma pessoa normal? Bem vistas as coisas, no final das contas, normal é não sabermos quem somos, é descobrirmos que estamos sempre em construção. O que nos define como seres humanos, em última análise, não é tanto o que somos, mas o processo pelo qual nos podemos transformar numa outra coisa.
É por isso que, nos contos infantis, as limitações físicas nem sempre significam algo de negativo. Em A Pequena Sereia, de Andersen, por exemplo, a perda da voz ou a dificuldade de locomoção da protagonista não nos parecem de todo um defeito, mas um sinal da excelência daquela criatura que, abandonando o seu reino no fundo do mar e movida pela força do amor, deseja transformar-se numa menina – alguém que tem de renunciar ao seu canto para poder falar, como se as palavras tivessem de surgir precisamente dessa renúncia à embriaguez do canto. É dessa permanente construção de nós próprios, característica da condição humana, que falam todos os contos, cuja missão não seria tanto dar conta de uma verdade única, mas antes tornar possível que cada um narre a sua verdade aos outros.
Vivemos hoje sob o império da autossatisfação: o desenvolvimento económico e tecnológico fez com que o homem ocidental olhasse para a humanidade de outras épocas e culturas com um sorriso de compaixão e superioridade. Mas seremos melhores do que eles? Gozamos de um bem-estar incomparavelmente maior do que o dos nossos pais e avós, mas seremos por isso mais sábios?
Os bosquímanos, habitando um mundo de atroz escassez, criaram algumas das histórias mais belas jamais narradas. Um povo que, do nosso ponto de vista de homens desenvolvidos, vivia nas condições mais dolorosas, foi, no entanto, capaz não apenas de expressar as coisas mais comoventes nas suas narrativas, como de mostrar os mistérios e as ansiedades da existência humana com invejável precisão e força poética. Progredimos tecnologicamente e formulamos teorias que iluminam o mundo físico, mas temo que não tenhamos feito grande progresso na compreensão dessa coisa inapreensível que os antigos chamavam alma.
É por isso que a literatura é importante. O que as histórias procuram é um conhecimento não racional, que tem a ver com a sabedoria: um conhecimento capaz de iluminar o mundo. As personagens das histórias comovem-nos e obrigam-nos a prestar atenção a cada uma das suas palavras e ações, pois é como se carregassem consigo uma pequena lâmpada nas mãos. A sua luz é delicada e íntima, oposta ao brilho ofuscante e baço de tantas supostas verdades. Não é uma luz que emane do poder, mas da debilidade. Talvez seja por isso que as histórias estão cheias de personagens que hoje chamaríamos deficientes ou inválidas: a pequena sereia tem de, para alcançar o que deseja, perder a voz e aprender a andar; a Bela Adormecida vive num sono eterno do qual ninguém parece ser capaz de despertá-la; em Os Cisnes Selvagens, um dos príncipes ver-se-á forçado a viver com uma asa de cisne no lugar de um dos braços, e as histórias infantis estão cheias de meninos e meninas que perderam os braços ou as mãos, e que não conseguem falar ou ver. Não são completos, mas estão vivos. Quem sabe se a verdadeira mensagem dos contos não será precisamente a de que estar vivo é ser incompleto.
Essas personagens não são muito diferentes de nós, pois todos nós procuramos algo que não temos. É por isso que falamos, para que nos possamos completar. Que coisa será, por exemplo, o amor senão a busca por aquilo que nos falta? Culturas antigas acreditavam que seres deformados eram dotados de poderes extraordinários. A mutilação, a anormalidade, o destino trágico, como escreveu Juan Eduardo Cirlot, constituíam o preço e o sinal de excelência de certos dons – por exemplo, da faculdade poética: Homero, o maior dos vates, era cego.
Ao contrário do mundo da psicologia, onde certas qualidades nada mais são do que a compensação ou sublimação de uma deficiência original, no mundo das histórias a falha nomeia o lugar da abertura ao outro. Em Os Cisnes Selvagens, a presença da asa do cisne implica uma deformidade, mas constitui também um sinal de excepcionalidade, de uma conexão com o mundo mais amplo da natureza, onde o príncipe é o mestre de faculdades desconhecidas pelos outros. Adorno disse que a verdadeira questão, aquela que funda a filosofia, não é a questão acerca do que temos, mas daquilo que nos falta. E faltam muitas coisas ao nosso mundo. Não há problema algum em reconhecê-lo, porque o lugar da falta é aquele onde surge a questão de se poderíamos ser de outra forma. Desse ponto de vista, somos todos inválidos, porque viver – pelo menos humanamente – é sentir o peso trágico de todas as nossas inúmeras carências.
Há muitos motivos para nos orgulharmos do nosso mundo, mas não menos motivos para censurá-lo. Terão um dia os nossos filhos, saudáveis e bem alimentados, memórias por exemplo? As crianças do passado sabiam o que eram uma fonte e um ninho, conheciam os animais e acorriam à mudança das estações com olhos maravilhados. A tecnologia facilitou extraordinariamente as nossas vidas, permitindo-nos alcançar um nível de bem-estar absolutamente impensável há apenas alguns anos. A criança dos nossos países desenvolvidos tem um lar confortável, vai à escola e tem à sua disposição uma infinidade de entretenimentos que tornam a sua vida mais aprazível e fácil. Mas nem a Inteligência Artificial nem os desenhos animados conseguem substituir o tremor de um gato enroscado no nosso colo. E, como a delicada Marlen Haushofer viu, o seu mundo pode tornar-se muito mais pobre do que o das crianças que, mesmo vivendo em países subdesenvolvidos, são capazes de experimentar esse tremor. Nesse sentido, todos os recém-nascidos são como pequenas crianças inválidas, pois nascem incompletas, e para saber quão verdadeiro isso é, basta compará-los com outras crias do reino animal. Além disso, a sua beleza decorre justamente da imaturidade com que vêm ao mundo. Uma criança que não consegue andar, ou uma criança cega ou surda, padece de um claro déficit em relação às faculdades das restantes crianças, mas não é na essência diferente delas. Todas desejam viver, todas se sentem insatisfeitas e incompletas, todas tremem sem saber o motivo, porque talvez seja isso a vida: o tremor diante do desconhecido.