É curioso, para não dizer grotesco, observar como o Ocidente, esse mesmo que se ufana da sua laicidade e do seu compromisso com os direitos humanos, se prostra com reverência diante de certas expressões religiosas exógenas enquanto relega o cristianismo ; sobretudo o catolicismo ; a um estatuto de relíquia embaraçosa. A deferência com que certas práticas culturais e religiosas são tratadas por elites mediáticas e académicas contrasta violentamente com o desdém, o escárnio e até a hostilidade reservados à Fé que, goste-se ou não, moldou as fundações civilizacionais do próprio Ocidente.

Tomemos como exemplo a polémica em torno da proibição do hijab em escolas públicas na França ; uma medida cuja intenção, concorde-se ou não com ela, assenta na preservação da neutralidade do espaço público. A reacção de certos sectores da esquerda foi de uma intensidade quase religiosa: marchas, declarações inflamadas, acusações de islamofobia institucionalizada. No entanto, esses mesmos paladinos da liberdade mantêm-se em absoluto silêncio quando, nos países onde o uso do hijab é obrigatório, possuir uma Bíblia, um rosário ou um simples crucifixo é o equivalente legal e social a assinar a própria sentença de morte. A liberdade religiosa, ao que parece, só merece defesa quando serve uma agenda política conveniente.

Mas a perseguição ao Cristianismo não se limita aos desertos do Médio Oriente ou às selvas da Nigéria. No próprio Ocidente, ela é conduzida com punhos de veludo por uma elite pseudo-intelectual que, sob o pretexto de progresso e esclarecimento, se dedica a demolir os alicerces morais que a sustentam. Essa mesma elite, formada nas universidades que outrora ensinaram Tomás de Aquino e Agostinho, agora cospe sobre a tradição que lhes deu linguagem, ética, e sentido histórico. No seu zelo iconoclasta, esquecem ; ou fingem esquecer ; que os valores que hoje proclamam como universais não emergiram no vácuo, mas de uma Matriz Cristã que ensinou ao mundo o valor intrínseco da pessoa humana.

É por isso que o verdadeiro combate à intolerância religiosa não pode limitar-se ao Ocidente e aos seus tiques de culpa pós-colonial. Deve, antes de mais, apontar para os regimes que, com indiferença brutal, promovem massacres , perseguem cristãos em massa e consideram a conversão religiosa um crime de Estado. A liberdade religiosa não é um brinquedo ideológico; é uma fronteira civilizacional. E é precisamente por isso que o Ocidente deve olhar para si com honestidade e perceber que, ao abandonar o Cristianismo à chacota das suas elites, está a serrar o galho onde repousa a sua própria dignidade moral.

Se a Europa abdicar da sua Herança Cristã por vergonha ou desinteresse, tornar-se-á, inevitavelmente, uma civilização órfã: sem passado que respeite, sem valores que defenda, sem futuro que mereça. A tolerância, para ter qualquer valor, deve ser coerente ; ou não passa de condescendência mascarada. E essa, meus senhores, é a mais pérfida das intolerâncias.