Amanhã os Pais Natal gatunos (“ardilosos amigos do alheio”, como em tempos gloriosos dizia o Jornal de Notícias) que desde há uns anos por esta altura se vêem a escalar as paredes dos prédios vão começar a desaparecer da nossa vista. O Natal acabou. E as pessoas, lamentavelmente inclinadas ao materialismo (um horror!, e o mal que é feito às criancinhas, ingrediente indispensável do nosso ecosistema?), vão pôr-se a pensar se ficaram ou não satisfeitas com os presentes que receberam. No caso negativo, pode ser uma experiência dolorosa. Grandes e recorrentes raivas tendem a acompanhar a existência de quem não recebeu, na devida altura da sua vida, uma pista de carrinhos eléctricos. Conheço casos desses.

Pela minha parte, graças a uma natureza fundamentalmente não atribiliária que não sei francamente a quem agradecer, não padeço desse mal. Só desejo presentes espirituais, que, é claro, nunca recebo, a não ser, por assim dizer, por alusão. Este ano mais uma vez, por causa da danada pulsão consumista desta sociedade, não os recebi. Faço, no entanto, por me mostrar agradecido com o que os costumes actuais oferecem. Desde criança que finjo isto, já se me tornou uma segunda natureza. Mas aqui fica uma lista de desejos imaginariamente satisfeitos, que poderíamos encontrar nos papéis de embrulho coloridos dispersos pelo chão de uma sala, em torno de um pinheiro de Natal, caso a sociedade fosse aquilo que devia ser. Por comodidade, optei pela ordem alfabética. O próximo ano vai ser assim.

BES/GES. A família Espírito Santo declarou ter sido um erro a adopção dos princípios filosóficos dos Bantus como fonte inspiradora dos seus critérios financeiros. Ricardo Espírito Santo aceitou ter falhado ao acreditar na existência do bwanga e os restantes familiares admitem que não deviam tê-lo julgado mukomo. (Ver glossário no fim.)

Deputados. Todas as intervenções na Assembleia da República passaram a ter as qualidades de inteligência e perspicuidade das da deputada do CDS Cecília Meireles, entre alguns poucos outros exemplos actuais. E ninguém – mas mesmo ninguém, acreditem – lá chega fingindo convicções ideológicas que não tem, apenas com o fim de ganhar um fragmento de notoriedade e um niquinho de aparência de poder.

Greves. Heroicamente, António-Pedro Vasconcelos propôs uma greve perpétua a Manifestos sobre a TAP, a RTP e outros objectos desse tipo, reconhecendo que essa coisa das “bandeiras” era um pedaço de retórica um bocadito oca e revelava uma certa pequenez provinciana, como se a nossa vida dependesse de símbolos que as pessoas esqueceriam um dia depois de eles terem sido abolidos. Mais: comprometeu-se a ter olho nos usuais signatários que o acompanham e a pôr se necessário na ordem eventuais fura-greves, que a carne é fraca e o espírito às vezes ainda mais.

Igreja Universal da Politologia. Dissolveu-se. Uma das últimas manifestações da sua existência foi uma extensa tentativa de mostrar, através de cálculos matemáticos sofisticados, que em democracia é geralmente o chefe do partido mais votado que é convidado a formar governo. Os fiéis passaram a buscar ocupações sérias. Alguns não conseguiram.

Islamismo. Os mais facinorosos xiitas e sunitas que se concentram em grupos terroristas decidiram resolver os seus problemas entre si, deixando em paz o resto do mundo, que se interessou, aliviado, pelo novo curso dos acontecimentos. Afinal de contas, não é todos os dias que se observa a destruição recíproca e sistemática de dois bandos de criminosos, repugnantes entre todos.

PS. O PS admitiu impecavelmente a existência da relação entre causa e efeito, segundo os critérios mais comuns nos nossos dias, em matéria económica. Ferro Rodrigues declarou, visivelmente emocionado, que o PS abandonava de vez, à imagem da família Espírito Santo, os princípios filosóficos dos Bantus: “Por muito que isso custe a alguns dos nossos camaradas, não há bwanga para a economia e ninguém é mukomo”. (Ver de novo, se necessário, o glossário no fim.) António Costa disse a mesma coisa, mas de forma mais descomplexada e com ar divertido, rindo-se até (os jornalistas riram-se com ele) da sua antiga comparação dos aviões da TAP com as caravelas: “Faz parte da tradição do PS recusar qualquer bwanga e não aceitar que alguém pretenda ao estatuto de mukomo”. Consta que nos bastidores excêntricas facções mantêm ainda a crença no bwanga e vivem na nostalgia de um passado mukomo. Certos sociólogos (alguns deles antigos adeptos da Igreja Universal da Politologia) aproximam essas correntes idiossincráticas do sebastianismo. Uns poucos livros e vários artigos académicos foram publicados sobre o assunto.

Pyongyang. O Team America removeu Kim Jong-un do poder e a Coreia do Norte evoluiu para uma sociedade tradicional autoritária, embora com algum espaço para a liberdade individual. Sobretudo, deixou de haver milhões a morrerem à fome. O filme de Oliver Stone denunciando a acção imperialista dos Estados Unidos foi um fracasso de bilheteira. Em Portugal, nem os membros do PCP o foram ver.

Putin. Meteu o rabo entre as pernas. Abandonou a Ucrânia oriental. Mas a relação dos russos com aquilo que normalmente entendemos pela palavra “democracia” permanece complicada. De qualquer maneira, as coisas melhoraram. O fervor nacionalista abrandou significativamente.

RTP. Resta dela apenas a “RTP Memória”, que, entre várias coisas úteis para percebermos o nosso passado, passa também um jingle de Natal dos anos sessenta da VARIG: “Papai Noel  voando a jato pelo céu”, depois qualquer coisa que não me lembro, e, a acabar: “VARIG, VARIG, VARIG”.

Rui Santos. Continua, graças a Deus, Rui Santos. Alguns membros da extinta Igreja Universal da Politologia, em desespero, procuraram competir com ele, passando ao comentário desportivo. Erro crasso. Foram rapidamente reduzidos à sua insignificância, depois de uma breve discussão sobre a essência do conceito de “verdade desportiva”. Ninguém o bate no capítulo do aleatório redundante, embora, como nem só Deus sabe, a concorrência seja feroz. Portugal precisa dele. Nada a mudar aqui.

TAP. Privatizada, procura um jingle. “TAP TAP TAP” não soa bem. Foram recusadas várias propostas do célebre jornalista Baptista-Bastos.

Televisões. As televisões deixaram de ser daquela esquerda by default em que a urgência de aparentar bons sentimentos distorce quase sistematicamente os factos. Igualmente abandonaram para todo o sempre a tentação lírica concomitante. No início dos telejornais, os apresentadores anunciam: “Neste espaço televisivo (esta do “espaço televisivo” é a única excepção) não tentaremos fazer poesia”. É verdade: já não têm por hábito censurar as pessoas que, como eu, deixam  as compras de Natal para a última hora. É óptimo.

Espero que os leitores do Observador partilhem comigo pelo menos alguns destes desejos natalícios. Naturalmente, agradeço sugestões para daqui a um ano. Estas coisas só ganham em ser um empreendimento colectivo.

Glossário. Bwanga: Remédio mágico. Mokomo: Grande força, Entidade dotada de uma grande força. Ver Placide Tempels, La Philosophie Bantoue, 1945. (É ainda hoje um livro fascinante, embora, é claro, como se diz, datado. Leva a sério um pensamento, mesmo que a palavra “filosofia” seja, no contexto, discutível.)