É de semiótica para totós que se trata. As religiões e os Estados sempre se alimentaram e perpetuaram através de símbolos – em torno de deuses, de líderes, de nações ou de civilizações, que nos definem por oposição aos outros.

Bastam poucos exemplos: o ritual iniciático com as cruzes de Cristo dos cruzados; os suplícios no pelourinho; os empalados de Vlad; a iconografia ideológica soviética; a queda da estátua de Saddam; a destruição dos monumentos de Palmyra pelo Daesh. Tudo símbolos de um determinado poder que é preciso reforçar ou, inversamente, que é necessário depor – destrói o que representa aquilo em que acredito e começarás a destruir a minha crença.

A Procuradora Joana Marques Vidal foi uma magistrada excepcionalmente competente, que criou uma boa equipa, que a respeitava – atenta a complexidade do cenário em que se moveu e o track-recorddos seus antecessores, isso é aceite por todos, transversalmente, em todos os pontos cardeais onde se queira perguntar. É a melhor Procuradora do mundo? É insubstituível? A sua saída é uma tragédia para a nossa democracia? Não, de modo nenhum! Mas é um símbolo – do combate ao crime sem tréguas, com integridade, probidade e desassombro.

O juiz Ivo Rosa foi sorteado para a Instrução da Operação Marquês. Nesse processo, o computador, perante a enorme complexidade de escolher entre dois nomes… Pifou!!! Por 3 vezes deu o resultado “erro no serviço de comunicações” e à quarta lá escolheu Ivo Rosa. As más línguas diriam que havia duas escolhas possíveis, Ivo Rosa e um outro magistrado chamado “erro no serviço de comunicações”. Ivo Rosa é um incompetente? É sinónimo de impunidade? Foi escolhido pelos arguidos? Seguramente que não!

E Carlos Alexandre é o juiz perfeito para avaliar a Instrução requerida por Sócrates? É um magistrado imune a críticas? Comportou-se sempre de modo perfeito? Não, de todo em todo! Mas é um símbolo – de uma justiça resiliente, obstinada, destemida, inflexível.

A sucessão trágico-cómica de decisões e não-decisões relativas à deslocação do Infarmed para o Porto significa que o Governo é incapaz de decidir? Ou que pretendeu deliberadamente enganar os agentes políticos portuenses? Ou que considera que o Porto é uma cidade destituída das condições adequadas à instalação de um grande instituto público? Com certeza que não! Mas é um símbolo – de precipitação, de leviandade, de desorientação e, no fim de contas, de rendição ao endémico credo centralista.

O roubo de material de guerra em Tancos e as trapalhadas que se seguiram, desfiando um novelo (e uma novela) que ainda vai a meio, representa o fim do Estado de Direito em Portugal? Traduz a existência de um Governo corrupto? Revela que as altas patentes são afinal mercenários? Demonstra que a Polícia Judiciária Militar não passa de uma hierarquia a soldo de interesses obscuros e estranhos à Pátria? Absolutamente não! Mas é um símbolo – de fraqueza, de desinvestimento, de desatenção, de incúria, de demissão.

A Procuradora-Geral deveria ter sido reconduzida, o juiz Ivo Rosa merecia ter sido sorteado impecavelmente, a decisão sobre o Infarmed só podia ter sido anunciada depois de devidamente ponderada e o crime de Tancos tinha que ter sido evitado. São quatro símbolos fundamentais de uma democracia credível – da nossa democracia – que se destroem, de uma penada, e se esfumam perante a nossa incredulidade.

Os partidos da – à falta de melhor termo, oposição – são cúmplices. Ou então são mansos (caramba, até Cavaco Silva veio falar)!

E nós somos os tansos. Temos o que merecemos.