Um tipo muito parecido com Jesus Cristo senta-se ao lado do fulano que urinou no altar da Basílica de São Pedro, enquanto esperam por uma espécie de julgamento. Acende um daqueles cigarrinhos meio ridículos de tabaco aquecido, porque um indivíduo pode ser filho de Deus, mas nunca fiando.

— Não te importas, não?

O outro encolhe os ombros, continuando a olhar em frente, no vazio.

— É verdade que tu…?

O outro bufa de impaciência.

— No altar da Basílica de São Pedro?!

— Olha lá, diz o outro, finalmente rodando a cabeça para encarar o tipo parecido com Jesus Cristo, eu conheço-te de algum lado?

Aí, gela. Engole em seco. — Quer dizer, por acaso, a tua cara não me é estranha…

— Porque é que fizeste aquilo, meu?

O outro volta à posição original, mas mais resignado ainda. Encolhe os ombros.

— Estavas a protestar contra o preço do azeite, da bitcoin…? (Silêncio.) É a Basílica de São Pedro! A igreja mais importante do mundo para os católicos! Ou foi por isso mesmo?

— Palavras tuas, não minhas.

— Desenhada pelo Bramante, baldaquino e acabamentos do Bernini, uma mãozinha do Rafael, a Capela Sistina ali ao lado! A Pietá lá ao fundo! (O tipo parecido com JC aponta, muito empolgado, para lá e para cá como se estivessem no interior da basílica, a verem exactamente aquilo de que está a falar. Deve lá ter ido estado numa excursão há pouco tempo.)

— E então?

— Sabes quem é que está enterrado debaixo do altar? Em cima de quem é que tu…

— E então?, repete, ainda mais enfadada e enfaticamente.

— Vou dar-te uma pista: está no nome da basílica!

— Essa porcaria cheira mal, diz o fulano desviando com a mão o bafo que vem do tabaco aquecido. É a primeira vez que estamos de acordo.

— Tu és do Kosovo, não és?

— O que é que isso tem a ver?

— Curiosidade, só. Não perguntei se tinhas motivos políticos ou religiosos.

Silêncio. Se o tipo parecido com JC estava à espera de que o outro confirmasse ou desmentisse alguma das hipóteses, está sem sorte nenhuma.

— De que tamanho é o Kosovo?

— Maior que o Vaticano.

— Justo. Mas quê? 10 mil quilómetros quadrados?

— Para aí.

— Duas Cisjordânias, portanto. Meia Israel. O equivalente a Beja, vá, para os nossos leitores perceberem.

— Queres chegar a algum lado ou estou só a ser castigado com o velho método do sermão sequista?

— Deve ser um país interessante. Tanta história. Muito martirizado…

— Não tem mar. Se achas que vais para lá fazer aqueles truques de separar as águas em duas, podes tirar o cavalinho da chuva.

— Mas tem bom vinho. Por causa do sol!

O outro olha intrigado.

— Oiço dizer…

O outro volta a olhar para a frente, queixo apoiado nas mãos, apoiadas nos cotovelos sobre os joelhos, aborrecido de morte.

— Então porquê, meu?

— Estava com vontade.

— Ali?!

— Vá, dá-me lá a lição de moral!, diz o outro levantando e perdendo, finalmente, a paciência. Que, noutro sítio equivalente, noutra religião, já me tinham mandado matar – ou matado ali mesmo! Que, na melhor das hipóteses, sou um vândalo; na pior, só mais um turista idiota e inconsciente, com a mania que é esperto, a tentar criar um momento “viral”… No contexto actual, só vim acicatar ainda mais os ódios! E se for um gajo agora mijar a Meca? E outro defecar em Al-Aqsa? Imagina a escalada! Posso ter provocado uma guerra!

— Não te dês assim tanta importância… (Desta vez, é o tipo parecido com JC que fica muito tranquilo, expelindo uma baforada mal-cheirosa de tabaco aquecido e olhando em frente.) Se calhar, estavas só com vontade… Na vida, para o bem ou para o mal, o que importa não é o que um gajo faz; é como os outros reagem. Nunca reparaste?

O outro, meio que tendo gastado a pouca energia que lhe restava, volta a sentar-se.

— O que me faz mais impressão – diz o quase JC – é: aquilo é arte, meu! É um sítio lindo! Cheio de tesouros!

— E para quê tanta ostentação?

— Foi feito com as ofertas dos crentes, ao longo de séculos. São as pessoas que querem e precisam de ter estes lugares para olhar, para orar, para se refugiarem. Não para m…

Por sorte, o outro interrompe.

— És muito hipócrita… Ou então, muito tanso.

— O que eu quero dizer é: aquilo é de todos!

— Então, posso ir lá buscar a Pietá, não é? Acho que vai ficar bem lá na sala. Se é de todos…

— Se a levas para a tua sala, deixa de ser de todos. Ou então, tens de deixar que todos entrem para a ver, como fazem em São Pedro.

— Então, se é meu, posso mijar lá! Simples!

— Ah! Para marcar território?

— Estás a chamar-me de cão, fulano vagamente parecido com uma personagem do Diogo Morgado? (Neste momento, ficamos com medo que a discussão descambe para o confronto físico.)

— Palavras tuas. Os cães também vêm na Bíblia, sabias? 14 vezes!

— Ah, é? E quantas delas para dizer que são animais impuros? Ou como insulto a alguém?

— Algumas; noutras, são cães mesmo. Animais domésticos. Tobias, por exemplo, quanto parte com o anjo, leva um cão com ele. Vão os três até ao anoitecer e acampam juntos na margem do Tigre.

O outro assente, arquivando a informação. Depois, levanta-se.

— Estou cansado desta conversa. Porque é que eu fiz o que fiz? Não sei! Talvez seja maluco, não leste nos jornais? Problemas mentais – não está excluída a hipótese.

— O que eu te quero dizer é, diz o outro retirando o micro-cigarro já fumado da máquina, lançando e acertando, miraculosamente, num caixote do lixo a uns cinco ou seis metros de distância: a cena é o espanto, meu.

Levanta-se, por fim.

— Lugares como a Basílica de São Pedro estão lá para o espanto. Para que ainda te consigas emocionar. Para que ainda percebas que há coisas mais importantes do que tu. Não importa se há Deus ou não, se é o teu ou não é; foi obra de milhares de homens e mulheres antes de ti, continua a ser cuidada por milhares de homens e mulheres. É símbolo do que o génio humano consegue. Sabes quanto tempo levou Miguel Ângelo a pintar a Capela Sistina? Já olhaste bem para a Pietá, como o corpo cai como se a alma tivesse abandonado a pedra, como a jovem mãe segura um homem muito maior e mais velho do que ela? Já te puseste cá fora no centro da Colunata e viste só uma coluna, a simetria perfeita? Sentiste aquela espécie de coro de silêncio dos devotos? Dos que acreditam? Do que somos capazes de fazer quando nos pomos de acordo?

— Se eu disser que sim, calas-te?

— Vamos embora que eu preciso de ir à casa de banho.

A conversa continua, agora já com os dois saindo. Muito admirado, diz o outro:

— Mas Deus m…

— Deus feito homem, sim. Vinha nos termos e condições.

— E a que casa de banho é que vais? Homens? Mulheres? Género neutro?

— O meu problema, às vezes, é interpretar os símbolos nas portas…

— Espero que, ao menos, transformes isso em cerveja. É o mínimo.