Há uma possibilidade quase caricata e, ainda assim, inquietante, de que, em algum futuro onde a erosão cultural avance mais depressa do que a memória, os manuais de história possam insinuar, nem que de modo remoto ou descuidado, uma equivalência entre dois homónimos separados por vinte e cinco séculos e por uma distância ética que nenhuma métrica humana consegue medir. Não se trata de assumir que tal confusão exista. Trata-se de reconhecer o risco de que a simplificação do nosso tempo, essa máquina que esmaga subtilezas e reduz biografias a etiquetas, possa algum dia aproximar, por mera contiguidade nominal, o Sócrates que fundou a exigência moral da vida examinada e o Sócrates que passou pelo vértice do poder. Esse que veio depois a ser chamado a justificá-lo nos tribunais. Seria uma traição histórica: deixar insinuar, ainda que por sombra, que partilham mais do que o nome quando, na verdade, tudo os separa — o carácter, o destino, a relação com a verdade e o modo como enfrentaram o juízo, um perante a pólis, outro perante a justiça.

É um fenómeno que não deixa de causar um certo espanto, e talvez até uma compaixão sarcástica, observar que, no clima intelectual rarefeito do presente, se possa correr o risco de ver confundidos dois homens separados por vinte e cinco séculos e por um abismo moral intransponível. Para muitos dos mais jovens, atolados numa cultura de referências rápidas, memórias curtas e equivalências fáceis, Sócrates é um nome indistinto, aplicado sem cerimónia ora ao filósofo que inaugurou a ética ocidental, ora ao ex-primeiro-ministro cujas façanhas judiciais ocupam as manchetes. A ignorância histórica produz estas coincidências grotescas: toma como semelhantes aquilo que o tempo, a conduta e o carácter separaram de forma absoluta. Um viveu para interrogar a verdade, enfrentou a cidade que o condenou e bebeu a cicuta como acto final de integridade; o outro navegou a maquinaria do poder moderno, subiu ao topo do aparelho político e é agora confrontado pelos seus próprios actos. Confundir ambos não é apenas erro de cultura geral, é sintoma de uma época que já não reconhece a diferença entre a vida examinada e a vida expedita, entre a honra assumida e a reputação contestada, entre a morte por princípio e a sobrevivência por expediente.

O “putativo engenheiro” José Sócrates tem feito da sala de audiências o seu palco de entretenimento preferido: trocando umas peças, adiando por aqui, pedindo “mais 20 dias” para escolher advogado, como se estivesse a preparar o figurino. Tudo para que o julgamento fique à espera… e que a espera nunca termine. Se fosse uma maratona, estaria há meses à volta da partida, a fazer alongamentos, sem nunca dar o tiro de partida.

José Sócrates utilizou, ao longo do processo, uma sucessão de manobras dilatórias: iniciou-as com múltiplos incidentes de recusa de juízes (mais de trinta ao longo dos anos) todos rejeitados pelo STJ e pela Relação; interpôs recursos sucessivos, arguições de nulidade e reclamações sobre a distribuição electrónica dos processos; tentou afastar magistrados em várias fases, incluindo juízas da Relação como Margarida Vieira de Almeida, Maria do Rosário Martins, Maria José Caçador, Raquel Lima e Madalena Caldeira, bem como os desembargadores Francisco Henriques e Adelina Barradas de Oliveira; apresentou ainda um incidente de recusa contra a juíza Susana Seca e outro contra o Procurador-Geral da República logo no início do julgamento; pediu a intervenção do Tribunal de Justiça da União Europeia para suspender o processo; avançou com queixa no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem; e, risivelmente, consumou agora a manobra mais notória quando o seu advogado renunciou em plena audiência, levando à nomeação de um defensor oficioso que ele contestou de imediato, obtendo assim uma suspensão de 20 dias para escolher novo advogado. Estas acções, qualificadas pela Relação e pelo Supremo como destinadas a “obstar ao normal decurso da justiça”, revelam uma estratégia persistente de empurrar o julgamento para o futuro indefinido.

Num contraste que quase dispensa comentário, Sócrates, o ateniense do século V a.C., dedicou a vida à interrogação moral da pólis, recusando cargos e honrarias, defendendo apenas a ideia, hoje clássica, de que “a vida sem exame não é digna de um ser humano” (Platão, Apologia, 38ª). Acusado de impiedade e de corromper a juventude, submeteu-se ao tribunal da cidade e aceitou a morte como acto último de coerência intelectual e ética. Já José Sócrates, o ex-primeiro-ministro português, ocupou o mais alto cargo político do país e enfrenta hoje acusações de corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal, num quadro em que se questiona não a sua filosofia, mas o exercício do poder e o eventual desvio do dever público. Enquanto o filósofo se tornou símbolo de integridade pela forma como assumiu a responsabilidade do seu destino, o legado do político permanece suspenso num julgamento em curso, atravessado por suspeitas, recursos e controvérsias. A cicuta, que no ateniense simboliza o sacrifício por princípio, surge aqui apenas como metáfora amarga: o risco de uma reputação ferida pela própria função pública e pela possibilidade de os excessos do poder se tornarem, eles mesmos, um veneno lento.

O contraste moral é inevitável: onde um encarnou a virtude, o outro enfrenta a acusação de ter subordinado o bem comum a interesses privados.