A evolução dos últimos meses confirmou que estamos efectivamente perante as eleições presidenciais mais abertas e de resultado mais incerto das últimas décadas. Como é sabido, em cinco décadas de eleições presidenciais democráticas e livres, só por uma vez — em 1986 — foi necessário recorrer a uma segunda volta em Portugal. É muito provável que a segunda vez ocorra em 2026 mas, paradoxalmente, as eleições presidenciais mais abertas de sempre poderão ser também umas eleições presidenciais em que quase tudo ficará decidido na primeira volta.
Olhar para os mercados de apostas que incidem sobre as eleições presidenciais portuguesas fornece algumas pistas razoavelmente objectivas sobre o que está em causa. No momento em que escrevo (30 de Dezembro ao final do dia), Luís Marques Mendes lidera claramente — e por muito larga margem — nas apostas sobre quem será o vencedor final das eleições presidenciais em Portugal [], com cerca de 75% de probabilidade de vencer. Seguem-se, a enorme distância, António José Seguro, João Cotrim Figueiredo e Henrique Gouveia e Melo (com probabilidades entre os 6% e os 7%) e André Ventura fecha o lote cinco possíveis vencedores com cerca de 4% de probabilidade estimada no mercado de apostas.
Se atentarmos nas probabilidades associadas às apostas sobre quem ganhará a primeira volta das eleições presidenciais em Portugal, a natureza potencialmente decisiva dessa mesma primeira volta torna-se mais facilmente compreensível. Também no momento em que escrevo este artigo, o claro favorito para vencer a primeira volta das presidenciais é André Ventura, com 47% de probabilidade, seguido a alguma distância por Marques Mendes com 37% de probabilidade e ficando-se os restantes três candidatos (Seguro, Cotrim e Gouveia e Melo) por probabilidades em torno dos 5%.
A chave para interpretar conjuntamente estes valores é a elevada taxa de rejeição de André Ventura, que faz com que uma passagem à segunda volta de qualquer um dos outros quatro candidatos (Marques Mendes, Seguro, Cotrim ou Gouveia e Melo) contra o líder do Chega seja, na prática, uma quase garantia de eleição. De facto, apesar de Ventura ter vindo a gradualmente reduzir a sua taxa de rejeição junto do eleitorado português, valores em torno dos 70% deverão ser ainda demasiado elevados para o líder do Chega poder ser competitivo numa segunda volta. Ao contrário do que acontecia no passado, André Ventura suscita hoje menores níveis de rejeição do que os candidatos do PCP e do BE, mas face a candidatos como Seguro, Gouveia e Melo, Cotrim ou Marques Mendes, que têm todos taxas de rejeição significativamente menores do que a do líder do Chega, é muito improvável que Ventura consiga prevalecer numa segunda volta e é precisamente essa expectativa que os mercados de apostas reflectem neste momento.
Se nada de muito substancial mudar no pouco tempo que falta até às eleições, é bastante provável que um resultado em torno dos 20% possa ser suficiente para passar à segunda volta. Teremos muito provavelmente em 2026 um novo Presidente da República que terá partido de uma primeira volta onde 70% a 80% do eleitorado tinha outro candidato como primeira escolha. Sendo que para a passagem à segunda volta há neste momento cinco candidatos viáveis mas com um favorito: André Ventura. Neste cenário, o decisivo na primeira volta será determinar quem vai à segunda volta com Ventura. É precisamente por aparecer entre os restantes quatro candidatos como o melhor colocado para passar a uma segunda volta (que se estima neste momento será disputada com Ventura) que Marques Mendes aparece como favorito destacado para ser o próximo Presidente da República.
Por outras palavras, caso se confirme a passagem de André Ventura à segunda volta, quase tudo se jogará na disputa entre os restantes quatro candidatos sobre quem disputará com o líder do Chega essa segunda volta. O cenário de fragmentação à direita e as dificuldades notórias de Marques Mendes para consolidar sequer o eleitorado que votou AD nas mais recentes eleições legislativas geram assim uma oportunidade de ouro para a esquerda recuperar a Presidência da República, ainda para mais com um candidato como António José Seguro que entra bem no eleitorado ao centro. Com a crise notória que vive o PS e depois de 20 anos com Cavaco e Marcelo, a oportunidade pareceria boa demais para desperdiçar mas continuam a somar-se as evidências de que demasiada gente no PS tem como principal prioridade impedir uma vitória de Seguro, mesmo que isso implique propiciar uma segunda volta entre Marques Mendes e André Ventura.
Entre a desunião da esquerda e as dúvidas sobre se Gouveia e Melo conseguirá inverter a sua trajectória de erosão, se o crescimento de Cotrim poderá ser suficiente para passar à segunda volta e se a imagem de lobista e facilitador de negócios danificará as possibilidades de Marques Mendes uma coisa é certa: mesmo sendo muito provável que venha a haver uma segunda volta, é bem possível que quase tudo fique decidido logo na primeira.