Tenho um amigo com quem costumo travar algumas picardias verbais, pois frequentemente estamos em desacordo. Um destes dias, falava-me da sua convivência com um grupo de muçulmanos e rematou, satisfeito, que “eles são como nós”. A frase ficou a ecoar-me, talvez porque exprime uma boa intenção, mas não a verdade. Não, eles não são como nós. Não o são naquilo que forma o tecido de uma civilização: nos hábitos familiares, na relação entre homens e mulheres, na forma de comer, de vestir, de rezar, de educar os filhos, de lidar com a liberdade, com a dúvida ou com o sagrado. Somos culturas distintas, moldadas por histórias diferentes e por normas que nascem de matrizes também elas diferentes: a greco-romana e judaico-cristã, de um lado; a islâmica, de forte cunho jurídico-religioso, do outro.
No Ocidente, mesmo com todas as derivas pós-modernas, o indivíduo é o centro da ordem jurídica. A lei separa se da religião, o Estado separa-se da Igreja, a consciência pessoal é um espaço que, pelo menos em teoria, o poder não deveria colonizar. No mundo muçulmano tradicional, a religião não é apenas crença; é lei, código, polícia dos costumes. A Sharia não é um detalhe teológico: é uma arquitectura normativa que desce da mesquita para a rua, do púlpito para o tribunal.
Tomemos o exemplo da liberdade de expressão. No Ocidente, um escritor pode insultar deuses, governantes e dogmas; pode ser cancelado nas redes, mas não costuma ser condenado à morte. No caso de Salman Rushdie, a reacção foi exactamente essa: em 1989, o aiatola Khomeini emitiu uma fatwa pedindo a execução do escritor pelo romance The Satanic Verses; a ameaça nunca foi formalmente retirada e esteve na origem do atentado de 2022, que o deixou cego de um olho. No nosso mundo, discute-se o livro; no deles, discute-se se o autor merece viver.
É aqui que entra uma certa e audível boa consciência ocidental. Em Portugal, houve já quem tenha escrito textos onde, para sublinhar os crimes do Ocidente no Afeganistão, acabasse a pedir um olhar mais brando sobre os Talibã, assim romantizando e relativizando os crimes do movimento islamita. É um reflexo típico: para nos distinguirmos moralmente de “nós próprios”, passamos a achar que também os Talibã são, no fundo, “como nós”, apenas vítimas da História.
Mas convém perguntar: e eles, como é que nos vêem a nós? Nos discursos oficiais e nas entrevistas de porta vozes talibãs, o Ocidente aparece descrito como decadente, imoral, hostil à religião, fonte de corrupção dos costumes. Não somos, para eles, parceiros civilizacionais equivalentes; somos a alteridade corruptora, militarmente poderosa, espiritualmente doente. O olhar que alguns entre nós lhes dedicam – compreensivo, relativista, quase de terna desculpabilização – não tem correspondência simétrica.
As diferenças não são apenas abstractas. São visíveis na rua, na mesa, em casa. Em vários países de maioria muçulmana, a mulher está sujeita a códigos de vestuário obrigatórios, muitas vezes inscritos na lei, como no Irão; quem se recusa arrisca prisão, agressão, até morte. No Afeganistão, as raparigas são afastadas da escola e as mulheres praticamente expulsas da vida pública. Em contraste, o Ocidente, com todos os seus defeitos, assenta na ideia de que o corpo e a roupa pertencem ao indivíduo, não ao clã ou ao imã.
Também no espaço público as diferenças são evidentes. Até há poucos anos, nos Emirados Árabes Unidos, a coabitação de casais não casados era crime; só em 2020 foram anunciadas reformas legais que descriminalizaram a coabitação, num esforço de modernização selectiva (isto aplica-se a heterossexuais e a casais estrangeiros, que podem agora partilhar residência, alugar um apartamento ou ficar no mesmo quarto
de hotel sem uma certidão de casamento). Mesmo assim, a lógica de fundo permanece: o Estado vigia a moral privada com um zelo que qualquer liberal ocidental, de esquerda ou de direita, consideraria inaceitável.
Importa, contudo, distinguir os casos de países de maioria muçulmana como a Turquia, o Senegal, a Indonésia ou a Bósnia e Herzegovina, que não vivem sob regimes teocráticos nem sob uma lógica repressiva. Adoptaram, com graus diversos de sucesso e estabilidade, modelos institucionais onde o Estado não se confunde formalmente com a religião e onde subsistem espaços de liberdade individual e pluralismo político. Ainda assim, essa separação revela-se frequentemente frágil, contestada ou reversível, como mostram as derivas autoritárias recentes ou o peso persistente do comunitarismo religioso. As excepções, longe de infirmarem o argumento, confirmam-no: quando sociedades de maioria muçulmana se aproximam de princípios como a laicidade do Estado ou a primazia do direito civil, fazem-no por opção política e influência histórica externa, não por continuidade com a tradição islâmica clássica, e quase sempre de forma instável.
Num outro plano de análise, mais silêncios mas decisivo, temos o factor demográfico, que tantos preferem não discutir. A Península Ibérica foi em grande parte território muçulmano – o célebre Al-Andalus – entre 711 e 1492. Não é preciso cair em fantasias de “reconquista ao contrário” para admitir um facto simples: o Islão é hoje, globalmente, a religião que mais cresce. Entre 2010 e 2015, os nascimentos em famílias muçulmanas representaram cerca de 31 % de todos os bebés nascidos no mundo, acima da sua quota demográfica total. Um relatório mais recente do Pew Research Center indica que, entre 2010 e 2020, o número de muçulmanos aumentou 347 milhões, fazendo subir a sua quota para 25,6 % da população mundial, enquanto a dos cristãos desceu para 28,8 %. A matemática não tem convicções políticas; limita-se a somar.
É plausível, portanto, que a presença muçulmana na Europa venha a crescer em número e influência. Se, além dos corpos, vierem também as instituições, os códigos legais e os costumes, a Europa de daqui a cinquenta anos não será a mesma. O nosso território já foi árabe e deixou de o ser; poderá voltar a sê-lo, não por invasão militar, mas por demografia, direito e inércia cultural.
Dizer isto não significa negar a dignidade de cada pessoa, nem reduzir milhões de indivíduos a uma caricatura. Significa apenas recusar a ilusão cómoda do “são como nós”. Não são. E, se continuarmos a fingir que são, talvez um dia descubramos que fomos nós que nos tornámos irreconhecíveis a nós próprios.