Quando soube que, em plena Assembleia da República, André Ventura tinha lido uma lista com nomes de crianças, fiquei perplexo. Pensei: “Olha, queres ver que entrou no computador de Nuno Pardal Ribeiro, descobriu o Excel onde ele anotava as suas vítimas de abusos sexuais e agora vai pedir desculpas em nome do partido, reconhecendo que 100% dos políticos nacionais comprovadamente pedófilos são do Chega?” Infelizmente, a perplexidade durou pouco. Fui ver a notícia e percebi que era outro tipo de perseguição a crianças. Afinal, não se tratou de um invulgar nobre gesto de Ventura. Foi apenas uma normal prestação parlamentar de Ventura, produzida de propósito para caber num post. Toda a gente sabe que uma lista é das formas mais eficazes de granjear reacções redes sociais. Foi mais uma intervenção que resulta do prompt “Chat GPT, por favor sugere aí duas ou três acções de extrema-direita para escandalizar as pessoas”.

(Há quem considere que o Chega está a mais na política portuguesa. Não concordo. Acho que há Chega a menos. Devia haver outro Chega, um Chega Plus, para azucrinar o Chega como o Chega azucrina os outros partidos com repetição de provocações a partir de casos que até são verídicos. O episódio do dirigente pedófilo está mesmo a pedir uma perseguição insistente e prolongada. Fazem falta intervenções destas: “Ó Bruno Nunes, cresce e aparece! É que, se não cresces, o teu colega deita-te a mão!” Ou: “Esta tentativa do Chega introduzir a pena de morte não é nova. Até porque, se fosse nova, o seu dirigente pedófilo já lhe tinha deitado a mão”. No fundo, alguém devia importunar o Chega por causa do seu dirigente pedófilo com a mesma persistência com que o seu dirigente pedófilo assediou as suas vítimas).

Uma das maiores críticas feitas a André Ventura, a propósito desta lista, foi a atitude pouco cristã de quem está sempre a invocar a sua pertença à Igreja Católica. Porém, só por ignorância é que se pode afirmar que este desprezo por crianças com nomes estrangeiros é contrária aos ensinamentos ecuménicos de Cristo. É certo, podem mencionar Mateus 19, 13-14, quando Nosso Senhor censurou os discípulos por tentarem impedir as crianças de se aproximarem: “Então as pessoas trouxeram-lhes crianças, para que ele lhes pusesse as mãos e orasse por elas. Mas os discípulos repreenderam essa gente. Jesus disse: «Deixai as crianças e não as impeçais de virem até mim, pois delas é o reino dos céus»”. Mas isso é citar selectivamente. Quem conhece verdadeiramente a doutrina cristã está a par do evangelho apócrifo de Zé Luís, onde o encontro de Jesus com as crianças é relatado de outra forma: “Então as pessoas trouxeram-lhes crianças, para que ele lhes pusesse as mãos e orasse por elas. Mas os discípulos repreenderam essa gente. Jesus disse: «Deixai as crianças e não as impeçais de virem até mim. Espera, como é que te chamas pequenito? Tens uma cor esquisita. Nunca tinha visto esse acobreado”. E a criança respondeu: «Chamo-me Rafik Chopra, Senhor». Ao que Jesus retorquiu: «Ui! Estás a tirar lugar a uma criança da Galileia. Não vai dar, pá. Vai ter com o messias da tua terra»” Só por má vontade e facciosimo teológico é que o Prof. Frederico Lourenço optou por omitir este autor não canónico na sua edição dos Evangelhos Apócrifos.

Os dirigentes do Chega exaltam-se com listas de crianças, mas palpita-me que não se chocariam com crianças às listas. Apesar deste exagero retórico,  não quero cair no absurdo da argumentação reductio ad Hitlerum, tantas vezes usada para caracterizar André Ventura e os seus seguidores. É óbvio que o Chega não é nazi, até porque nunca seria capaz de apoiar um movimento criado por um imigrante. Que é justamente o que o austríaco Adolf era na Alemanha.

Não há dúvida que esta iniciativa foi bem sucedida e conseguiu chamar a atenção para o flagelo que é ver pessoas a ocupar o espaço de outras com mais mérito para estar nesse lugar, mas que, devido à lei, não temos outra hipótese senão vê-las lá. Refiro-me, como é evidente, aos deputados do Chega, que, goste-se ou não, têm todo o direito de estar ali.

Para o momento ser ainda mais tiktokável, só faltou Ventura ler os nomes a cantar. Há muitas músicas com letras que são a enumeração de listas, bastava substituir os itens pelos nomes das crianças denunciadas. Se ainda for a tempo para uma 2ª versão, sugiro que adopte o tema Conquistador, dos Da Vinci. Em vez de Brasil, Praia e Bissau, Angola, Moçambique, Goa e Macau, o catálogo dos lugares por onde os portugueses andaram, Ventura só tem de colocar o nome das crianças de outras origens que não quer que andem por cá.