A reconfiguração das direitas ibéricas é hoje, provavelmente, a maior ameaça à democracia, à alternância partidária/democrática e ao Estado de Direito desde o fim do Estado Novo e do franquismo nos anos 70 do século passado. Primeiro, pelos programas políticos do Chega! e do VOX, mas sobretudo, porque a existência destes partidos representa o maior seguro de vida aos radicalismos de esquerda representados pelo Bloco de Esquerda, pelo PCP, pelo Unidas Podemos, pela ERC, pela CUP, enfim; e de uma vitória permanente e perpétua do Partido Socialista e do PSOE. É aquilo que tantas vezes Miguel Poiares Maduro define como o risco de “mexicanização” do regime.

Os mais cínicos à direita dirão que o problema se resolve com a aceitação do Chega! e do VOX e que estes passem a integrar governos. No fundo, admitem, aceitam e toleram que estes partidos, de duvidosas convicções democráticas e iliberalismo retro, possam influenciar os destinos de Portugal e Espanha. Dão o benefício da dúvida e para isso utilizam como exemplos recentes, e a contrario, o governo português da geringonça e a coligação PSOE/Podemos com o apoio parlamentar do braço político da ETA e dos nacionalistas bascos e catalães, apelidada na imprensa espanhola de Gobierno Frankenstein. Caem no erro de pensar que uma aproximação ao poder os moderará e que isso, por si só, é razão suficiente para coligações com o Chega! e com o VOX.

Estes são os argumentos que não me permitem concordar com os tais cínicos à direita.

Comecemos pelo perfil de André Ventura e Santiago Abascal. Primeiro, têm em comum o facto de terem sido militantes e dirigentes do PSD e do Partido Popular, respectivamente. Abascal, por exemplo, militou no PP durante 20 anos, 15 dos quais a receber um salário do partido. Chegou a ter um lugar num chiringuito do Governo Autonómico de Madrid e a receber 183 mil euros anuais como trabalhador único da Fundación para el Mecenazgo y el Patrocinio Social. Saiu zangado por não ser ouvido. Em 2014, fundou o VOX e, cavalgando a mesma onda de descontentes do Unidas Podemos, chega ao Congresso dos Deputados e é hoje o terceiro maior grupo parlamentar espanhol. Numa entrevista, em 2017, ao El Español disse “Voy siempre armado con una Smith & Wesson”. Já André Ventura fez-se famoso a comentar futebol nos mais diversos canais do Correio da Manhã e a proferir lugares comuns sobre ciganos e subsídios. Hoje, todas as sondagens coincidem num terceiro lugar para o Chega!.

Ventura e Abascal, os líderes “patriotas” do Chega! e do VOX não pertencem ao mesmo grupo político europeu – Ventura é talvez mais hardcore e prefere a companhia dos recomendáveis alemães da Alternative für Deutschland, da Liga de Salvini, de Wilders e de Le Pen do “Identidade e Democracia”; já Abascal opta pelo Reformistas e Conservadores Europeus, onde vota com o Nieuw-Vlaamse Alliantie, um partido nacionalista e separatista flamenco, que apoia a causa dos independentismos basco, catalão e galego –  mas a verdade é que é muito mais forte aquilo que os une do que aquilo que os separa (roubado ao Rui Veloso).

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Ventura e Abascal são consequências e manifestações da crise financeira da última década. Inteligentes e profundamente oportunistas, os dois líderes partidários que se consideram incumbidos por Deus, ou pelo menos assim se apresentam, nasceram das cinzas e das cicatrizes das troikas e encontram a sua existência política na vitimização constante, na divisão e na segregação entre cidadãos de primeira e de segunda, na política de gangs, na amplificação dos medos e dos problemas sem a consequente apresentação de soluções, na tribalização da mensagem política, nos discursos inflamados e nos exércitos de anónimos, mais ou menos reais, que nas redes sociais rugem cassetes fora de prazo.

Ventura e Abascal são, portanto, os melhores amigos dos socialistas dos dois lados da fronteira. Sabem que só cavando trincheiras e criando inimigos comuns conseguem arregimentar as suas tropas de leais seguidores. Tal como o Bloco de Esquerda e o Unidas Podemos, Ventura e Abascal vivem das fake news, da acusação infundada, dos mitos e do medo. No fim ganham os socialistas, que no meio da lama até parecem decentes. Perdem Portugal e Espanha.

Posto isto, como poderá o centro direita e a direita democrática, reformista, liberal e contemporânea combater a gritaria estéril de Ventura e Abascal e voltar ao poder em Portugal e Espanha? Proponho a seguinte solução.

Os sistemas eleitorais português e espanhol têm em comum o facto de utilizarem o mesmo modelo matemático de conversão de votos em mandatos para os órgãos de soberania de natureza colegial: o método de Hondt. Este modelo permite que a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), com menos de 900 mil votos, consiga 13 lugares no parlamento espanhol e que o Ciudadanos, nas mesmas eleições, não vá além dos 10 deputados com mais de 1,6 milhões de votos. O cenário não melhora com uma cada vez maior fragmentação partidária: nas últimas eleições autonómicas de Julho de 2020 no País Basco, o último deputado eleito para aquele parlamento foi do EH-Bildu (actual nomenclatura do Batasuna), quando poderia ter sido do Partido Popular, caso o VOX não tivesse ajudado à dispersão de votos.

Ora, perante isto, e tendo em conta todas as sondagens publicadas nos últimos 12 meses em Portugal e em Espanha (mesmo com uma crise pandémica sem precedentes “liderada” nos dois países pelos socialistas), só numa realidade alternativa e muito distante, é que PSD e Partido Popular conseguirão voltar ao poder – mesmo num cenário de maiorias negativas (onde não incluo nem Chega! nem o VOX). Assim, resta-lhes ou passar o tempo e contribuir para a tal “mexicanização” dos regimes, ou pensar pragmaticamente e liderar uma fusão dos partidos de centro direita e de direita nos dois países.

A ideia não é nova e em Espanha foi/é defendida há já algum tempo por Cayetana Álvarez de Toledo, ex-líder parlamentar do Partido Popular e cabeça de lista por Barcelona nas últimas eleições legislativas. No caso, defende uma fusão com o Ciudadanos de Inés Arrimadas. Assim, em Portugal, a direita democrática, com o PSD à cabeça, não tem outra alternativa se não agregar, num único e grande partido de centro direita, o CDS (ou que ainda resta dele) e a Iniciativa Liberal. Isto, claro, se não quiser ficar eternamente no lugar de partido de “oposição” ao Partido Socialista. Quanto ao CDS e à Iniciativa Liberal, e a possíveis “resistências” a uma OPA por parte do PSD, lembro que em política os purismos ideológicos de pouco valem se não servirem para as soluções concretas dos reais problemas das pessoas. Neste sentido, não vejo outra alternativa. Isto, claro, se quiserem fazer parte da solução, ou se também, tal como o Chega!, preferem ser o seguro de vida do Partido Socialista.

Quanto aos líderes, devo dizer que Espanha já tem o problema resolvido: é clara a liderança de Pablo Casado, sobretudo depois do debate da moção de censura apresentada pelo VOX em Outubro de 2020, em que se demarca claramente de Abascal. Já em Portugal, há um enorme vazio.

É preciso, portanto, um protagonista que represente uma alternativa real a António Costa e ao Partido Socialista. Alguém que se apresente como um elemento agregador das direitas democráticas e que em vez de diabolizar os desafios da contemporaneidade (como a digitalização e a automação das cadeias de produção, a revolução do mercado de trabalho, o aumento da esperança média de vida e a redução da natalidade, a competitividade e a transformação verde na economia), que os enfrente com soluções justas, pragmáticas e de futuro. Em suma, alguém que consiga ocupar o actual vazio político e esvaziar o Chega! de André Ventura; e esse protagonista é, evidentemente, Passos Coelho.