A pandemia Covid-19, originária na China, como outras já em pleno séc. XXI, terá seguramente várias explicações de índole social e científica, que o futuro se encarregará de esclarecer.

É, no entanto, seguro afirmar que ela se manifestou à escala mundial fruto da globalização dos mercados, geradora de trocas intensas de produtos e de deslocações de pessoas nunca registadas na História da humanidade.

Este e outros fenómenos, nomeadamente ambientais, seriam então o preço a pagar pelo desenvolvimento e crescimento sociais que se registaram nas últimas três décadas, e que retiraram da miséria e obscuridade pelo menos três quartos (3/4) da população mundial.

Resta saber se, no futuro, saberemos modelar o crescimento económico e técnico-científico da sociedade humana, sem esquecer os outros ser vivos do planeta Terra (e o próprio Planeta), e sem que abramos a porta a modelos sociais antidemocráticos que transformem o HOMEM de um ser livre no pensamento e na iniciativa num perieco ou escravo de uma Oligarquia.

Em Portugal, podemos à data corrente afirmar como factos certos que:

  • Falhámos pelo menos em todo o mês de Fevereiro, quando já tínhamos “Aníbal às portas” em Espanha e Itália, no fecho precoce das fronteiras, na compra ou fabrico próprio de material de proteção (que se sabe agora possível, mesmo que em pequena escala), no despiste sistemático do vírus com testes (possíveis tal como acima se disse ), na preparação de hospitais e lugares “limpos” (hotéis e outros) para doentes COVID.
  • Falhámos quando não estabelecemos um “Gabinete de Guerra” – porque é de uma guerra que se trata – constituído pelo recrutamento de militares de ação, políticos experientes dentro e fora do governo, cientistas, operacionais de todos os ramos da administração interna – GNR, PSP, bombeiros, SEF, médicos de saúde pública, competentes administradores de empresas e de recursos humanos, informáticos e matemáticos, etc. – e que, uma vez constituído e nomeado, seria plenipotenciário nas opções primordiais a tomar, baseado em informações e previsões do que já se sabia e numa logística e informática competentes, podendo prevenir o que era de prever e preparar/equipar/organizar o que se tinha de fazer, então (em Fevereiro) como nos meses próximos, em que agora vivemos.
  • Continuamos a falhar porque, para além da imprevisibilidade do que virá no futuro próximo (não questionável), vemos diariamente uma total anarquia e desarticulação entre ministérios vários e direções-gerais e serviços de saúde e de administração pública, na ausência de qualquer orientação/chefia política, económica e social, o que explica também infelizmente a mortandade que se está a verificar nos lares, o número permanentemente alto de infeção do pessoal de saúde (12,5 % do total), as incongruências/erros/sonegação/manipulação na informação diária dos dados da pandemia, a contínua negação de carências na proteção e realização de testes, na não distribuição programada e organizada de máscaras para toda a população ou para os mais expostos ou em maior risco.
  • Continuamos a falhar quando verificamos que funcionalismo público, reformados e pensionistas e até presos são positivamente discriminados em relação aos funcionários empregados nas PME e trabalhadores individuais que já tinham sofrido na pele a crise dos tempos da Troika, quando 750.000 foram lançados no desemprego e miséria, fazendo de uns filhos e outros enteados.
  • Continuamos a falhar quando, desde já, não optamos (como, por exemplo, faz a Alemanha) no avanço para a realização de testes de deteção em massa e sobretudo testes serológicos, que, no futuro próximo, nos permitam lançar na vida ativa normal aqueles que, com elevado grau de garantia, já estejam protegidos contra a Covid-19 e não possam infetar ou ser reinfectados por qualquer cidadão, seja ele colega de trabalho, amigo de confraternização ou simples familiar.
  • Continuamos a falhar quando, desde já, não optamos também pelas aplicações para telefone que já estão a ser tentadas em países mais desenvolvidos, mais realistas e pragmáticos nos objetivos a alcançar e seguramente com melhores lideranças.

Reconheçamos, no entanto, que, muito à portuguesa, nos fomos desenrascando e apresentamos, neste momento, números de infetados, mortos e em recuperação e cura, lisonjeiros, porque moderados à escala europeia e até mundial, embora seguramente afastados da realidade por defeito, como penso que, no futuro, se virá a verificar, quando se fizerem todas as contas do pós-“guerra” .

A maneira como abordámos a pandemia que se anunciava foi muito semelhante ao modo como formámos o Corpo Expedicionário Português e o enviámos para a guerra na Flandres — mal equipado, mal armado, sem comando competente e informado, sem logística de apoio, etc.

Paradoxalmente, estamos aparentemente dependentes quase por inteiro de material chinês para proteção e tratamento! O que, considerando a origem e etiologia da pandemia e o absoluto controle do Partido Comunista da China sobre toda a população, nos deveria no mínimo deixar preocupados (até sobre a qualidade e esterilização do material), procurando, se possível, outras fontes de abastecimento e, por maioria de razão, o estímulo à produção interna.

Porém, com algum grau de incerteza, mas também de esperança, podemos hoje pensar que estaremos próximos do pico viral e talvez em meados de junho possamos tomar como números finais trinta/quarenta milhares de infetados testados e mil/dois mil mortos.

Talvez com uma quebra de PIB que poderá rondar até 10%! E com um número de significativo da taxa de desemprego que irá atingir, em números semelhantes aos de 2011, os mesmos sectores e grupos que foram devastados aquando da crise das dívidas soberanas, somada aos efeitos na Europa, somada ao resultado da danosa gestão socialista socrática, somada aos efeitos da receita “troikiana”!

Mas não, não é este o momento/tempo de apontar defeitos e má gestão no plano das políticas, mas antes o tempo de enfrentar com coragem o presente combate, tanto mais que contamos com um povo disciplinado, compreensivo e resistente, que, mesmo sem organização sistematizada e chefias competentes, está a saber responder com coragem e determinação ao presente desafio, apoiando-se mutuamente, inventando todo o tipo de dispositivos de proteção a partir do nada, cooperando comunitariamente pelo bem de um, que é o bem de todos.

Por isso, entendemos que este é o momento de fé e de luta, à espera de dias melhores, que seguramente virão, até sob o ponto de vista climatológico, que muito nos ajudou nos primeiros dias de março – tempo quente – e nos irá ajudar com o desenrolar da Primavera, na certeza de um bom Verão, garantido que está aos portugueses que não a outros povos da Europa e do Mundo. Mas sempre sem nos desfocarmos daquilo que como Povo e Nação deveremos almejar: a recuperação dos vivos, da nossa saúde, economia e finanças pelo futuro dos nossos filhos e netos.

Este é o momento de chorar e de rir, de afastar-se para depois abraçar, de agradecer a todos os profissionais de saúde – médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica, técnicos auxiliares, farmacêuticos – bombeiros, militares, GNR e PSP, guardas prisionais, pessoal de limpeza, padeiros, carteiros, pescadores e talhantes, trabalhadores agrícolas e das fábricas em laboração, e a todo o povo, que, com a sua atitude e exemplo, nos trouxeram soluções e respostas que pareciam estar escondidas.

Por um amanhã com futuro.