Logo Observador
Carnaval

Quando Cascais tinha um Carnaval de parar o trânsito

2.068

Em tempos, Cascais tinha desfiles com carros alegóricos puxados por burros e bailes de máscaras no Casino Estoril com obras de Dalí. Fotos e vídeos amadores antigos mostram como tudo acontecia

Estávamos em plena década de 1930 — já os gloriosos anos 20 tinham influenciado a evolução do estilo e dos costumes — quando Cascais deixou de ser uma vila pacata para começar a receber os “forasteiros” de Lisboa. A culpa foi das festas que foram sendo promovidas pela Sociedade Propaganda de Cascais que, como o nome prometia, ajudaram a pôr no mapa os corsos carnavalescos de então.

O primeiro desfile aconteceu em 1934, quando carros alegóricos de diferentes coletividades e bairros saíram às ruas. Alguns deles eram puxados por burros e bois, mas todos seguiam ao som de bandas e na companhia de varinas e pescadores. Foi assim até 1951, com a Sociedade a ser forçada a interromper a organização da festa durante quase 30 anos. Seria um deserto por altura do Entrudo se não tivessem aparecido os Carnavais do Estoril nos anos 60, para muitos “o apogeu” dos desfiles de rua na região durante todo o século XX.

1964 Carnaval do Estoril*****https://www.facebook.com/RealVilladeCascaes/videos

Publicado por Real Villa de Cascaes em Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2016

Assim eram os “Carnavais do Estoril”

No seguimento do glamour alcançado durante a Segunda Guerra Mundial, quando o Estoril se tornou poiso não só de espiões internacionais mas de gente ilustre, o Carnaval do Estoril não tinha apenas máscaras — tinha estrelas de cinema e artistas plásticos entre os convidados.

Os ditos carnavais eram organizados pelo empresário Teodoro dos Santos, da Sociedade Estoril-Sol, e era sobretudo à volta dos jardins do Casino — mas não só — que a festa decorria. O cortejo tinha trajeto fixo e não ia propriamente longe, mas nem por isso deixava de atrair milhares de pessoas. Era comum a Avenida Marginal encher-se de carros, sendo que, por vezes, o trânsito era tanto que havia quem ficasse retido em Carcavelos e perdesse o desfile. Quem o recorda é Lima de Carvalho, que há quase 30 anos está à frente da galeria do Casino Estoril. “O Carnaval era extremamente animado, havia sempre um espetáculo com artistas portugueses e brasileiros”, comenta, referindo-se àquilo que diz ser “mais revista do que teatro”.

Carnaval do Estoril 1959-69

Publicado por Real Villa de Cascaes em Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2016

O Carnaval do Estoril era assunto de conversa dentro e fora de fronteiras, sendo que a fama cresceu a passos largos muito por culpa dos artistas internacionais que eram convidados a comparecer. Lima de Carvalho ainda se recorda do ano em que o ator francês Fernandel participou no corso, bem como da girafa que Salvador Dalí concebeu para aí desfilar.

Mas se o corso carnavalesco era gratuito e para povo ver, o mesmo não se podia dizer do baile de máscaras que acontecia no interior do Casino depois de o sol se pôr. Ao jantar de “muito requinte” seguia-se o “bailarico” — como diz Lima de Carvalho — com as “Lili Caneças” da altura. Havia apenas uma exceção à regra: “Às vezes apareciam grupos de pessoas com vestes muito raras. E se as máscaras fossem bonitas, o diretor do restaurante dava permissão para eles entrarem no baile.”

Mas se a década de 60 pertenceu ao Estoril-Sol, em 1980 a Sociedade Propaganda de Cascais voltou a tomar em mãos a organização do Carnaval da vila, e o regresso também foi em grande.

Uns chamam-lhe o Carnaval do Mar e outros o Corso da Costa do Sol. Fosse o que fosse, a festa do Entrudo que decorreu ontem entre o Estoril e Cascais teve o mérito de causar um dos maiores engarrafamentos de trânsito do ano em curso”, lia-se na edição de 20 de fevereiro de 1980 do jornal O Diário.

“A partir de 1980 o Carnaval começou a ser uma coisa mais séria”, conta ao Observador Joaquim Aguiar, presidente da Sociedade Propaganda de Cascais há 28 anos. A festa fazia-se entre Cascais e o Estoril, entre domingo e terça-feira. Os trajetos de ida e volta entre as duas localidades garantiam uma Avenida Marginal sempre cheia de pessoas e, de facto, os relatos noticiosos da época dão conta disso, fazendo quase uma ode jornalística ao que então era considerado como o “regresso” do Carnaval cascalense.

Cascais voltou a ter o seu corso”, escrevia o jornal A Nossa Terra em março de 1980, enquanto o Costa do Sol publicava: “O Carnaval tinha morrido na nossa região, mas quer Cascais, quer o Estoril, resolveram fazê-lo reviver.”

“O hotel Estoril Sol estava sempre cheio de pessoas nas varandas e o júri ficava sentado no décimo andar, onde era o restaurante”, lembra ainda Aguiar. Era da unidade hoteleira que entretanto foi demolida que se via o corso passar, desta vez sem quaisquer animais a puxar os carros alegóricos. E foi precisamente o carro de Joaquim Aguiar o grande vencedor desse ano, tal como o próprio faz questão de dizer. Empoleirado num barco recuperado — e que lhe levou um mês a restaurar –, saiu à rua para levar o prémio final para casa (o que, se a memória não lhe falha, não terá passado de um diploma).

Apesar da animação, a festa voltaria a abrandar uma vez mais e o último cortejo com o cunho da sociedade aconteceu em 1998. Sobre isso, Joaquim Aguiar apenas tem a dizer que “estas coisas têm de ser feitas em colaboração com a câmara”.

Com o passar do tempo a festa foi perdendo esplendor, mas isso não quer dizer que não haja o que fazer por altura do Carnaval nos dias de hoje. Agora, é na Malveira da Serra e em Janes que se adotam celebrações num formato mais popular enquanto a Câmara Municipal de Cascais aposta numa “programação diversificada para vários gostos” que inclui concertos e duas corridas.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: acmarques@observador.pt
Lisboa

Apaguem as luzes de Carnaval

Laurinda Alves

Antigamente dava gosto atravessar as ruas e ver pais e filhos, avós e netos pela mão, a passearem devagar, com tempo para admirar as luzes de Natal. Agora é um desgosto percorrer as mesmas avenidas.

Livros

Os muros do mundo

José Conde Rodrigues

Se a liberdade de circulação e a mobilidade dos povos pode ser a garantia da sobrevivência e da sustentabilidade de algumas nações, para outras constituiu uma grande ameaça ao seu bem-estar.