O jornalista que passou cinco anos à procura da Bíblia mais antiga do mundo

01 Julho 2017411

Em 1883, um manuscrito misterioso foi considerado o mais antigo exemplar da Bíblia. Depois, uma falsificação. Mais tarde, voltaram as dúvidas. Entrevista a Chanan Tigay, que descobriu a verdade.

Durante cinco anos, o jornalista e escritor norte-americano Chanan Tigay investigou um dos maiores mistérios da história das religiões: o manuscrito de Moses Shapira, que em tempos foi considerado o mais antigo exemplar dos textos da Bíblia, mas que viria a revelar-se uma falsificação. Tratava-se de um documento, composto por 15 tiras de cerca de 20 centímetros de comprimento e 8 de altura, que supostamente continham a versão original do Deuteronómio (o último livro do Pentateuco — os primeiros cinco livros da Bíblia cristã, correspondentes à Tora judaica).

Em 1883, ano em que Shapira, um astuto comerciante de antiguidades de Jerusalém, tentou vender o manuscrito ao British Museum, em Londres, por um milhão de libras, o documento tornou-se assunto mundial. Multidões acorreram à capital britânica para ver o papiro e o primeiro-ministro do Reino Unido, na altura William Ewart Gladstone, empenhou-se pessoalmente em angariar o dinheiro necessário para comprar o manuscrito, que alegadamente tinha sido encontrado naquele ano, junto ao Mar Morto, por um conjunto de árabes beduínos que vendiam artefactos a Shapira.

Mas não tardou que o documento fosse considerado uma falsificação. Assolado pela vergonha, Shapira suicidar-se-ia no ano seguinte com um tiro na cabeça, após uma viagem errática pela Europa. Não voltaria a Jerusalém, onde a sua mulher e a sua filha gastavam milhares a crédito, achando que em breve se tornariam na mais rica família da região. Mas a história, que poderia perfeitamente ter ficado por ali, não terminou.

Seis décadas depois, a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto — atualmente considerados uma das mais importantes descobertas arqueológicas da história em termos bíblicos –, que correspondem aos exemplares mais antigos dos textos da Bíblia, fez renascer as dúvidas, devido às suas curiosas semelhanças com o documento de Shapira. Alguns académicos tentaram retomar o estudo do manuscrito de Shapira, para saber se não seria, afinal, verdadeiro e se não seria realmente o primeiro dos Manuscritos do Mar Morto. Mas o documento tinha desaparecido do museu britânico.

Só já no século XXI, pelas mãos de Chanan Tigay, é que a investigação ficou concluída. Filho de um biblista norte-americano, Tigay ouviu desde criança a história do Deuteronómio e, quando conheceu o manuscrito de Shapira, ficou intrigado. Decidiu empenhar-se numa investigação aprofundada e passou por quatro continentes a tentar reconstituir os passos do comerciante de antiguidades de Jerusalém. No ano passado, publicou “O Livro Perdido de Moisés“, que agora chega às livrarias portuguesas, numa tradução publicada pelo Círculo de Leitores.

Numa longa conversa com o Observador, o escritor norte-americano conta toda a sua investigação, detalhando como recebeu um email misterioso a meio da noite que o levou a contratar um detetive privado na Austrália, como esbarrou repetidamente em pistas que não levaram a lado nenhum e como, por fim, acabou por descobrir a verdade a 100 metros do seu escritório, na Universidade de São Francisco, onde dá aulas de escrita criativa.

Chanan Tigay falou ao Observador em Lisboa, onde está este mês para participar no programa literário Disquiet (JOÃO FRANCISCO GOMES/OBSERVADOR)

Comecemos pelo básico: quem foi Moses Shapira?
Shapira foi um comerciante de antiguidades de Jerusalém, que nasceu em Kamenets-Podolski, uma cidade que fez parte da Rússia, da Polónia e da Lituânia, dependendo da geopolítica de diferentes eras. Nasceu judeu, mas a dado momento, em meados da década de 1850, decidiu sair daquele lugar e viajar até Jerusalém. Deixou Kamenets-Podolski com o avô, numa altura em que tinha pouco mais de 20 anos, rumo a Jerusalém. Pelo caminho, o avô de Shapira morreu. Depois, numa paragem na Bulgária, conheceu uma comunidade de cristãos evangélicos, que o convenceram sobre as verdades do Evangelho, o que acabou por levá-lo à conversão do Judaísmo para o Cristianismo. Por isso, quando chegou a Jerusalém, já era cristão, e juntou-se a uma comunidade de cristãos anglicanos na cidade.

Quando Shapira apareceu em Jerusalém, não tinha nada, era um homem pobre. Falava hebreu, presumivelmente, talvez uma versão do hebreu bíblico, que provavelmente aprendeu nas escolas judaicas em Kamenets-Podolski, e além disso ficava muitas vezes doente. Teve uma doença que se chamava ague [forma arcaica de designar um estado febril], e ficava doente repetidamente. Por isso, a entrada dele em Jerusalém foi difícil. Era solteiro, órfão, pobre e muitas vezes doente.

Como é que ele se safou, então?
O que o ajudou foi o facto de ser um cristão. É difícil imaginar, hoje em dia, mas ser judeu em Jerusalém em meados do século XIX era muito complicado. A comunidade judaica estava no nível económico mais baixo de todas as que viviam lá, enquanto a comunidade cristã estava económica e socialmente muito melhor. Em parte, porque tinham acesso a dinheiro das suas igrejas na Europa.

Uma das questões é se Shapira sabia isto ou não. Se a sua conversão foi baseada apenas numa genuína mudança de crenças e na aceitação dos Evangelhos, ou se pelo menos em parte foi uma decisão para melhorar a sua posição económica. De qualquer das formas, ele chegou lá pobre, tornou-se membro de uma comunidade cristã mesmo junto ao Portão de Jaffa, e entrou numa escola dessa comunidade, dedicada a judeus convertidos ao Cristianismo.

O que é que ele aprendeu lá?
Aprendeu, essencialmente, carpintaria. Começou a fazer coisas em madeira e gradualmente evoluiu e criou a sua própria loja, em Jerusalém, onde vendia Bíblias dentro de capas de madeira, que ele próprio fazia. Também vendia outros livros religiosos e pequenos itens para os peregrinos, que nessa altura já começavam a visitar a cidade. Os navios a vapor e as linhas ferroviárias, na altura, tornaram possível que as pessoas da Europa e dos Estados Unidos começassem a visitar a cidade mais sagrada do mundo.

Pelo caminho, passavam na loja dele. Rapidamente, Shapira passou a negociar, além de livros religiosos e itens em madeira, antiguidades. Das antiguidades, passou para os manuscritos.

Ele já tinha interesse em antiguidades e manuscritos?
É difícil dizer. Shapira deixou muito poucos documentos escritos que explicassem o seu pensamento. Apesar de ter escrito um diário, pelo menos em dada altura da sua vida…

O Chanan leu esse diário?
Não… Ninguém sabe onde o diário está. Aparentemente, terá sido escrito em hebreu. Teria sido espetacular ter acesso ao diário, para conseguir entrar mesmo na mente dele, mas infelizmente o diário desapareceu e já ninguém sabe dele. Por isso, há muito poucos documentos relativos à sua vida em geral. O que há é uma grande quantidade de material relativo à altura mais controversa da vida dele, quando tentou vender ao British Museum um manuscrito muito antigo. Já lá vamos a essa parte da história.

“Rapidamente, a loja de Shapira tornou-se num centro obrigatório em Jerusalém, um ground zero. Quer para as pessoas que andavam a a escavar e que lhe vinham vender os artefactos, quer para os peregrinos, que iam lá para os comprar”

Essencialmente, não sei bem de onde terá aparecido este interesse por antiguidades e manuscritos, mas uma coisa deve ser dita. Jerusalém, até ao final do século XIX, era um terreno muito fértil para o interesse na arqueologia. Isto porque toda a gente que vinha da Europa e dos Estados Unidos, peregrinos religiosos, sobretudo cristãos, aquilo que queriam fazer era andar pela areia onde Jesus andou, cavar, descobrir artefactos antigos, que provassem que a Bíblia estava certa. E queriam objetos físicos que pudessem levar para casa, como recordação e para mostrar à família e aos amigos.

E ele aproveitou essa tendência.
Sim. Shapira, mesmo não sendo formalmente educado — não tinha um doutoramento, nem uma licenciatura — era um tipo muito inteligente. Penso que ele era um génio. Percebeu o que estava a acontecer à sua volta, teve acesso a muitos dos arqueólogos que andavam a escavar, porque muitos deles estavam ligados à comunidade anglicana onde ele estava integrado. Por isso, Shapira estava mesmo muito embrenhado na arqueologia em Jerusalém naquela época.

Ora, sendo ele um tipo inteligente, um bom homem de negócios, que já tinha uma loja sua, e que queria tornar-se famoso, que queria deixar uma marca, viu o que se passava à sua volta, percebeu o desejo dos peregrinos de terem artefactos arqueológicos, e provavelmente pensou: “Cá está um bom negócio para eu me meter”.

É aí que ele começa a sua busca por artefactos e manuscritos?
Não sei se ele terá mesmo andado a escavar, mas ele tinha parceiros de negócios nas áreas onde se andava a fazer as escavações — muitos eram árabes beduínos. Rapidamente, a loja dele tornou-se num centro obrigatório em Jerusalém, um ground zero. Quer para as pessoas que andavam a a escavar e que lhe vinham vender os artefactos, quer para os peregrinos, que iam lá para os comprar.

É neste contexto, já como importante comerciante de antiguidades, que aparece o manuscrito controverso da Bíblia, certo?
Sim, é exatamente neste contexto. Mas, para perceber bem a história, temos de começar uns anos antes do manuscrito, e depois já vamos a essa parte.

Em meados da década de 1870, alguns dos beduínos que eram seus parceiros de negócio começaram a aparecer na loja dele com sacos cheios de estátuas de argila, supostamente centenárias. Muito estranhas, muito grotescas, até sexuais. E disseram-lhe que as estátuas tinham sido encontradas na terra de Moabe, a leste do rio Jordão, onde hoje é a Jordânia. Na altura, as pessoas conheciam Moabe e quem tinham sido os Moabitas quase exclusivamente através da Bíblia. Muito pouco além do que estava na Bíblia era conhecido sobre aquele povo, sobretudo sobre a sua cultura.

De repente, começaram a aparecer na loja de Shapira centenas e centenas destas estátuas estranhas, com frases numa língua que ninguém conseguia decifrar. E toda a gente pensou: “Isto são estátuas moabitas e vão dar-nos informações sobre a cultura moabita”. Aquilo tornou-se no assunto da cidade. As pessoas nos cafés falavam sobre as estátuas. Tornou-se tão importante que o governo alemão comprou duas mil daquelas estátuas por imenso dinheiro. Ele tornou-se num homem rico e muito famoso, e a Alemanha ficou muito contente, porque conseguiram obter este pedaço incrível de história para colocar nas prateleiras dos seus museus.

Moses Shapira, o comerciante de antiguidades de Jerusalém que ficou famoso pelo manuscrito que tentou vender ao British Museum (Imagem de domínio público)

Ainda lá estão?
Bom, é aí que vamos chegar (risos). Veio a descobrir-se, pouco depois, que todas estas relíquias que Shapira vendeu ao governo alemão eram falsas. Eram uma fraude.

Mas ele não sabia disso, ou sabia?
Essa foi a grande questão na altura. Ele acabou por ser exonerado. A ideia que passou na altura foi que Shapira não fez aquelas estátuas, ele não sabia que elas eram falsas, foi enganado pelos beduínos que faziam negócio com ele. Foram eles que as fizeram, trouxeram-nos para a loja e disseram-lhe que eram antigas. Disseram-lhe que tinham sido desenterradas nas terras de Moabe. Eles também eram tipos inteligentes. No fundo, Shapira foi o primeiro a ser enganado por eles, não foi culpado da fraude.

Esta discussão tornou-se num grande embaraço para o governo alemão, que na altura teve várias discussões acesas sobre o assunto no parlamento. O parlamento criou inclusivamente novas políticas relativas à aquisição de artefactos arqueológicos para garantir que não tornaria a acontecer uma coisa daquelas.

E essas estátuas hoje ainda estão na Alemanha?
Esse detalhe é interessantíssimo, acho isto fascinante. Eles tiraram-nas dos museus, é verdade. Mas eu passei cinco anos a viajar por todo o mundo a tentar reconstituir os passos de Shapira, a tentar encontrar o manuscrito de que já vamos falar. E em vários locais por onde passei, descobri que há pessoas que ainda têm estas estátuas dos anos 1870, mesmo sabendo que elas são falsas.

Por exemplo, conheci um antropólogo em Jerusalém que tinha duas dessas estátuas à entrada da sua casa. No museu de arqueologia da Universidade Hebraica de Jerusalém eles guardam algumas das peças falsas de Shapira na mesma sala onde está guardada a coleção verdadeira deles. Visitei também o Pergamonmuseum, um dos grandes museus de história de Berlim e eles estavam prestes a fazer uma grande obra de restauro. Antes disso, tiveram de mudar todas as obras que lá têm para um outro edifício, para não se danificarem no restauro, e antes de fazerem a mudança, verificaram todos os objetos para garantir que eram suficientemente sólidos para sobreviver ao transporte. Essas verificações incluíram um grande conjunto de peças falsas de Shapira. Estive numa das salas de restauro no museu, uma espécie de bloco operatório de obras de arte, e eles passaram duas semanas a trabalhar em algumas daquelas peças falsas.

Mesmo sabendo que são peças falsas… Será, calculo, porque têm uma grande história por trás.
É exatamente isso. Têm uma grande história, é um tipo diferente de valor. Por todo o mundo, há pessoas que ainda guardam estas peças antigas. Bom, não antigas. Que já foram consideradas antigas e que hoje são consideradas totalmente falsas. Isto é uma forma de medir o quão fantástica é a história. Aposto que Shapira ficaria muito contente hoje, por saber que ainda é falado (risos).

Vamos agora ao manuscrito?
Certo, vamos a isso. Portanto, toda esta questão das peças moabitas são uma grande vergonha para ele. É verdade que ele fez muito dinheiro e conseguiu mudar-se da zona antiga de Jerusalém para a parte nova da cidade, que estava a emergir. Arrendou lá uma villa maravilhosa e estava-lhe a correr muito bem a vida. Mas acho que o que Shapira mais desejava, mais do que tudo o resto, era reconhecimento e respeito da parte de pessoas com mais conhecimentos do que ele — os biblistas, o teólogos. Por isso, mesmo estando a ter uma boa vida em termos financeiros, penso que ele ainda estava à procura do respeito da comunidade académica.

Precisava, portanto, de apresentar um artefacto verdadeiro e de grande valor.
De uma grande descoberta. E essa grande descoberta faria as pessoas esquecer-se do que tinha acontecido antes, com as estátuas moabitas. Em vez de ficar associado às peças falsas, ele ficaria associado a essa grande descoberta.

No verão de 1883, Shapira aparece no British Museum, em Londres, e diz que tem nas suas mãos o mais antigo exemplar da Bíblia. Diz que é uma versão do livro do Deuteronómio, que tinha sido descoberta por beduínos que andavam por umas cavernas junto ao Mar Morto, embrulhada em linho. O mais controverso de tudo era que se tratava de uma leitura diferente do texto tradicional. Ou seja, algumas das palavras e expressões são diferentes. Além disso, aquela versão do Deuteronómio era muito, muito mais curta do que a versão tradicional.

Podia ser apenas um excerto, ou não?
Não. Supostamente, era o livro inteiro, mas muito mais curto que o texto tradicional. Por exemplo, a versão tradicional do Deuteronómio tem um conjunto de capítulos que são dedicados exclusivamente a questões legais, as leis que o Povo de Israel teria de cumprir quando passassem para a Terra Prometida. Na versão de Shapira, essas leis não existem. Os dez mandamentos são diferentes nesta versão…

No verão de 1883, Shapira aparece no British Museum, em Londres, e diz que tem nas suas mãos o mais antigo exemplar da Bíblia. Diz que é uma versão do livro do Deuteronómio, que tinha sido descoberta por beduínos que andavam por umas cavernas junto ao Mar Morto, embrulhada em linho.
Chanan Tigay

A sério?
Sim. É assim que as pessoas reagem (risos). Se os dez mandamentos são diferentes, então tudo o resto pode estar em causa. É uma lista central de leis para o Povo de Israel na altura e hoje é o centro de toda a religião judaico-cristã. Por isso, se os dez mandamentos eram diferentes, então tudo o resto podia ser diferente. Era uma proposição chocante.

Além disto tudo, Shapira disse que queria que o museu lhe pagasse um milhão de libras pelo manuscrito. Um milhão de libras hoje é muito dinheiro, mas em 1883 era o equivalente a 250 milhões de dólares hoje em dia. Nunca alguém tinha pago um valor sequer perto daquele por uma relíquia. O maior valor que o British Museum tinha pago até àquela altura era dez mil libras, por um cálice de ouro.

O museu chegou a pagar esse dinheiro?
Já lá vamos, já lá vamos. Naquele momento, Shapira tornou-se numa celebridade. Os jornais começam a falar dele todos os dias, inclusivamente nas colunas sociais. O primeiro-ministro da Inglaterra, William Ewart Gladstone, vai ao museu para olhar para os manuscritos e cumprimentar o convidado de honra. Aparentemente, ele sabia ler hebraico bíblico e ficou tão impressionado com o que viu que, de acordo com relatos da altura, ele próprio começou a angariar dinheiro para que o British Museum pudesse pagar o milhão de libras e não perder este manuscrito para a Alemanha ou para a França, que eram na altura os seus concorrentes internacionais.

Em Jerusalém, a mulher e a filha de Shapira já estavam a estoirar imenso dinheiro a crédito, porque em breve iriam tornar-se na família mais rica de Jerusalém. E logo nos primeiros dias o British Museum chama um dos grandes biblistas da altura, um homem chamado Christian David Ginsburg. Pedem a Ginsburg para transcrever e traduzir o texto do manuscrito, para saberem exatamente o que tinham ali. Na altura, o museu recebia multidões, Shapira era uma celebridade, e quatro semanas depois aparece Ginsburg para dar o seu veredicto: “Parem tudo, é falso, o manuscrito não é real”.

Que provas é que Ginsburg apresentou?
Basicamente, ele apresentou dez pontos. Alguns são muito técnicos, não consigo entrar muito por aí, mas havia dois pontos muito importantes contra o manuscrito. Em primeiro lugar, ele não acreditava que a pele, os materiais do manuscrito, conseguissem sobreviver naquela região durante dois mil anos.

O manuscrito teria dois mil anos de idade?
Sim, aproximadamente. Porque os escritos no manuscrito eram muito semelhantes aos escritos encontrados noutra grande descoberta arqueológica da altura, que é a pedra de Mesha [o rei dos moabitas], uma grande pedra de basalto onde está escrita uma história que também é contada na Bíblia. Foi a primeira vez que uma história bíblica foi descoberta noutro sítio, o que confirmou a sua existência. A pedra de Mesha está datada de aproximadamente 832 a.C. Portanto, associando os manuscritos à pedra de Mesha, concluiu-se que o documento teria mais de dois mil anos.

E qual era o segundo ponto?
A primeira controvérsia era então essa: os especialistas não acreditavam que o manuscrito sobrevivesse durante esse tempo todo naquela zona. Agora a segunda… É importante dizer que Shapira era, na altura, um importante negociador de artefactos bíblicos autênticos. A maioria vinha do Iémen e ele já tinha vendido muitos ao British Museum. Por isso, quando ele lá apareceu, apesar de a história das estátuas moabitas ser conhecida, eles também sabiam que ele era um negociante importante de artefactos autênticos.

Nos rolos da Tora [livro sagrado judaico composto pelos livros do Pentateuco], quando os desenrolamos, vemos que o texto está escrito no centro da folha. No topo há uma margem branca e em baixo há outra margem. O que Ginsburg e outro arqueólogo francês, Charles Clermont-Ganneau — que Shapira odiava, porque tinha sido ele a dizer em público que as estátuas moabitas eram falsas –, disseram foi que Shapira tinha recortado a margem branca de um dos seus rolos antigos autênticos, pegado nela, e escrito lá a sua versão do Deuteronómio. Eram 15 tiras pequenas, com cerca de 20 centímetros de comprimento e 8 centímetros de altura.

Porque é que ele faria isso? Porque é que iria escrever essa versão tão estranha e tão diferente do livro tradicional?
Aí já entramos numa questão da psicologia. Olhando para um texto que é muito desviante do tradicional, podemos pensar que obviamente é falso, porque ser completamente distinto do que conhecemos é facilmente descartável e considerado falso. É simplesmente demasiado estranho para acreditar. Por outro lado, se fizermos outra abordagem psicológica, podemos questionar de outra forma. Porque é que alguém iria fazer uma versão tão estranha, tão diferente do tradicional? Que é tão fácil de classificar como falsa? Tem de ser verdadeiro, seria estúpido fazer uma falsificação assim.

De qualquer forma, estes foram dois dos pontos que Ginsburg e Clermont-Ganneau apresentaram para provar que o manuscrito de Shapira era falso. Quando esse veredicto foi conhecido, toda a gente ficou desiludida. Shapira ficou especialmente desiludido e partiu para uma viagem de seis meses pela Europa. Em cada cidade por onde passava, escrevia cartas que nunca chegava a enviar. Pelo caminho, ia deixando partes da sua bagagem.

Leu algumas dessas cartas?
Li algumas das que ele chegou a enviar. Mas as outras desapareceram. Ele saiu do Reino Unido muito chateado, porque enquanto Ginsburg ainda estava a trabalhar nos manuscritos, o museu exibiu algumas das partes, e vieram multidões para ver. Quando foi divulgado que o manuscrito era falso, Shapira escreveu-lhes uma carta a perguntar: “Porque é que foram exibir partes de um manuscrito que achavam que era falso? Isso só aumentou as expectativas das pessoas e quando revelaram que era falso foi muito mais devastador”. E no fim, dizia qualquer coisa como: “Não sei se vou ser capaz de sobreviver à vergonha”. Ninguém percebeu bem o que é aquilo significava, mas parecia uma ameaça de suicídio.

Mas quando ele chega a Amesterdão, parece ter acalmado, e escreve uma carta de 11 páginas ao museu em que, ponto a ponto, refuta os argumentos todos usados para contrariar o manuscrito. Parece ter ganhado alguma força, mas depois, em março de 1884, chega a Roterdão, na Holanda, aluga um pequeno quarto num hotel da cidade e suicida-se com um tiro na cabeça. Naquele momento, fica óbvio que ele estava totalmente destruído.

Mas a história não fica por aqui, certo?
Para a maioria das pessoas, a história parece acabar aqui. Ele falsificou um manuscrito do Deuteronómio, tentou vendê-lo ao British Museum, foi apanhado e ficou tão envergonhado que se suicidou. Mas avancemos seis décadas, até à descoberta dos Manuscritos do Mar Morto, que começou em 1947. Recorde-se que o manuscrito de Shapira foi descoberto por beduínos, em cavernas junto ao Mar Morto, enrolado em linho, estava cheio de variações relativas ao texto tradicional, e era o livro do Deuteronómio, o segundo mais popular entre os Manuscritos do Mar Morto.

Alguns académicos, que conheciam a história de Shapira, pensaram que talvez Shapira tivesse sido empurrado para a morte porque a sua descoberta esteve muito à frente do seu tempo. Talvez Shapira tivesse descoberto o primeiro manuscrito do Mar Morto, quase 70 anos antes dos outros.

Os Manuscritos do Mar Morto são considerados hoje o mais antigo exemplar dos textos bíblicos?
Sim. São documentos muito antigos, não tão antigos como supostamente seria o de Shapira, mas os mais antigos que temos. Esses documentos dividem-se em duas categoriais principais: os livros bíblicos e os textos sectários. Os textos bíblicos são mesmo isso, os textos que hoje estão na Bíblia. E os manuscritos sectários foram escritos por uma comunidade específica que vivia em Qumran, junto ao Mar Morto, onde foram descobertos os manuscritos, e continham regras que estabeleciam a forma como aquelas comunidades deviam encarar a vida e a religião.

Entre estes textos havia diferenças face aos textos originais. Nada tão flagrante como o de Shapira, mas ainda assim mostravam que havia diferenças que podiam enquadrar também o documento de Shapira. Quando os Manuscritos do Mar Morto foram descobertos, houve académicos, que estavam familiarizados com a história de Shapira, que começaram a questionar-se mesmo se ele não teria descoberto o primeiro desses documentos. E decidiram investigar de novo, usar novas tecnologias para analisar o manuscrito de Shapira. Eles assumiram que o manuscrito estaria no British Museum, mas quando lá foram não o encontraram. Ninguém sabia onde ele estava.

Decidi que iria procurar o manuscrito e foi assim que começou uma busca de cinco anos, que me levou a oito países em quatro continentes, a tentar reconstituir os passos de Shapira e do manuscrito. A tentar encontrar o manuscrito e, mais importante, a tentar provar que era verdadeiro ou falso. Em última análise, foi isso que fiz.”

E desistiram?
Na altura não foi possível encontrar o manuscrito. E é aqui que eu entro na história. O meu pai é biblista e passou 16 anos a escrever um comentário de 600 páginas sobre o livro do Deuteronómio, o mesmo livro que deu tantos problemas a Shapira. Uma vez, numa sexta-feira ao jantar, eu estava com a minha família e estava a contar-lhes uma história sobre um artigo que eu tinha escrito recentemente. Todos os anos, parece que alguém descobre a Arca de Noé num sítio qualquer, e dois dias depois descobre-se que é falsa (risos). Eu tinha escrito um artigo sobre a mais recente descoberta da Arca de Noé, que se tinha revelado falsa, e o meu pai pergunta-me: “Queres ouvir uma história sobre uma farsa bíblica a sério?”

Contou-me a história de Shapira e eu fiquei imediatamente intrigado pelo mistério. Fiquei particularmente impressionado pela ligação ao Deuteronómio, porque o meu pai tinha passado a maior parte da minha infância a trabalhar naquele livro. Enquanto os outros miúdos falavam de sandes de manteiga de amendoim e geleia, eu ouvia falar do Deuteronómio todos os dias e todas as noites. Fiquei imediatamente atraído pela história e quando descobri que os manuscritos estavam desaparecido e pensei: “Alguém tem de os encontrar”. Aquilo podia mesmo ser a cópia original do Deuteronómio, que o meu pai tinha analisado durante toda a vida.

A sua relação com a história tem uma origem familiar, então…
Completamente familiar. Quando andei a escrever o livro, passei horas e horas ao telefone com o meu pai — eu vivo em São Francisco e o meu pai em Filadélfia — a discutir o manuscrito. Para garantir que percebia tudo bem. Portanto, decidi que iria procurar o manuscrito e foi assim que começou uma busca de cinco anos, que me levou a oito países em quatro continentes, a tentar reconstituir os passos de Shapira e do manuscrito. A tentar encontrar o manuscrito e, mais importante, a tentar provar que era verdadeiro ou falso. Em última análise, foi isso que fiz.

O que descobriu?
Será que vou revelar o que vem no livro? (risos)

Conte lá a sua aventura.
A busca demorou imenso tempo, porque segui todas as pistas que consegui encontrar, mas na maioria das vezes as pistas não me levaram a lado nenhum. Eu ia até um país para tentar encontrar determinados documentos, e esses documentos não estavam lá. Havia um realizador israelita que andava a preparar um documentário sobre o mesmo assunto e que tentou por todos os meios que eu não obtivesse muita da informação de que precisava.

Estive quase sempre a esbarrar em paredes, a seguir pistas promissoras que não levaram a lado nenhum. Anos e anos nesta busca. Viajei até ao Reino Unido, França, Alemanha, Holanda, Israel e Jordânia e nada estava a resultar no que eu pretendia. Até que numa noite, por acaso foi na noite do feriado judeu mais importante do ano, o Yom Kippur, ouvi uma notificação do meu email e tive de ir ver o que era. Abri o email e só dizia o seguinte: “Caro professor Tigay, sei que está a trabalhar no manuscrito de Shapira. Eu descobri o nome da pessoa que acabou por ficar com o manuscrito. Matthew Hamilton, Sydney, Austrália”.

Aquilo para mim foi uma explosão. Muitos académicos tentaram encontrar este documento e ninguém conseguiu. Mas se eu conseguisse ter acesso ao nome da pessoa que o tem, podia começar a aproximar-me de o conseguir.

Só estava assinado assim?
Sim, só dizia aquilo. Eu não fazia ideia de quem ele era. Então, respondi-lhe e disse-lhe: “Caro sr. Hamilton, isso são grandes notícias. Gostava que me dissesse o nome dessa pessoa”. E, a partir daí, Matthew Hamilton parece ter desaparecido da face da Terra.

Nunca recebeu resposta?
Ele não respondeu durante oito meses. Eu continuava a enviar-lhe emails, a tentar convencê-lo, mas não recebi nenhuma resposta. Eu tinha uma suspeita: achava que seria o tal realizador israelita a ter chegado ao contacto com ele e a pedir-lhe para não divulgar o nome.

Na altura, eu já tinha vendido este livro a uma editora, mas não tinha final. Não sabia como iria acabar aquilo, não sabia onde me ia levar. Estava a esbarrar em paredes atrás de paredes, e tinha duas escolhas: ou desistia, escrevia lá “fim” e esperava que a minha editora gostasse, ou então continuava a procurar. E fiz o que qualquer jornalista de investigação faria: contratei um detetive privado na Austrália para tentar descobrir alguma coisa sobre este Matthew Hamilton… Um número de telemóvel, uma morada. Duas semanas depois, o detetive enviou-me um relatório de 63 páginas que continha zero informação útil. Tinha uma lista de 400 pessoas chamadas Matthew Hamilton na cidade de Sydney.

Mas houve um pedaço de informação que me pareceu vagamente promissor: o nome de alguém chamado Gary Matthew Hamilton, com uma morada que já tinha pelo menos seis ou sete anos. Novamente, tinha uma escolha: ou desistia, ou metia-me num avião para Sydney para ver o que encontrava.

E foi isso que fez, apanhou o avião?
Imediatamente. Voei para Sydney sem ter nenhuma ideia de se iria encontrar o tipo ou não. Uma outra informação que eu tinha também sobre o Matthew Hamilton é que ele, a dada altura, tinha trabalhado na biblioteca de um colégio anglicano. E pensei: “Talvez ele seja anglicano”. Cheguei a Sydney num domingo, e onde é que se pode encontrar um bom anglicano num domingo de manhã? Na igreja. Quando cheguei, fui ao hotel e pesquisei no Google por igrejas anglicanas no bairro de onde era a morada do tipo que aparecia no relatório. E encontrei uma.

Apanhei um táxi e fui para lá. Quando lá cheguei, encontrei uma mulher que estava a estacionar o carro e perguntei-lhe: “Conhece um homem chamado Matthew Hamilton? É suposto ele estar nesta igreja anglicana”. E ela respondeu-me: “Não conheço, mas esta igreja também não é anglicana há 20 anos, agora é uma igreja aborígene”. Neste momento pensei que estava ali há uma hora e já estava acabado. Mas ela disse-me também que havia uma igreja presbiteriana ao fundo do quarteirão. Já que lá estava, fui lá.

Fiz o que qualquer jornalista de investigação faria: contratei um detetive privado na Austrália para tentar descobrir alguma coisa sobre este Matthew Hamilton... Um número de telemóvel, uma morada.
Chanan Tigay

Quando me aproximei, comecei a ouvir rock’n’roll vindo do interior da igreja. Cheguei lá e encontrei uma mulher que estava a receber as pessoas à entrada. Perguntei-lhe por Matthew Hamilton, disse-lhe que era professor e que estava à procura de uma bíblia desaparecida. Ela disse: “Oh, o Matthew Hamilton já não vem aqui há 20 anos. Mas espere lá. Há um homem lá dentro que deve ter ideia de onde o encontrar”. Ela volta lá dentro e regressa um minuto depois com um homem de cabelos brancos, chamado Paul Berenger, que já tinha sido o pastor daquela igreja. Apresentei-me e ele respondeu-me que já não via Matthew há 20 anos. Mas depois disse-me: “Isso parece-me importante. Venha, meta-se no meu carro”. Então, começámos uma viagem pela cidade de Sydney, passámos por várias igrejas, por várias casas, para tentar encontrar Hamilton ou alguém relacionado com ele.

E conseguiram encontrar?
Não estávamos a conseguir, até que, como último recurso, eu disse: “Olhe, tenho esta morada de há seis ou sete anos, podemos ir lá e ver se lá está?” Era a nossa última esperança, por isso fomos. À medida que nos aproximamos da morada, um SUV branco aparece na entrada de trás. E o Paul para o carro e vai a correr para tentar intercetar o SUV, enfia a cabeça no interior do carro e começa a falar com alguém. Depois, grita para mim: “Venha cá, é a mulher do Matthew!”

Eu apresentei-me, já com medo de que ela tivesse ouvido falar de mim e me quisesse ver longe, mas ela respondeu-me: “Venha, o Matthew está lá dentro, pode entrar”. Fomos para a porta da frente, que abre para fora, e o pastor bateu à porta. Matthew abriu a porta e eu fiquei por trás da porta, ele não me conseguia ver. Só conseguiu ver o pastor, e cumprimentaram-se logo, já não se viam há 20 anos.

Por fim, o Paul Berenger vira-se para o Matthew e diz-lhe: “Matthew, este tipo fez uma grande viagem para te ver”. Apresentei-me, disse que era “o tipo do Shapira”, e ele convidou-me a entrar, quase como se já estivesse à espera que eu lá aparecesse eventualmente. Entre a porta da frente e o escritório, ele diz-me: “Posso falar de muita coisa relacionada com Shapira, mas não posso dizer-lhe o nome da pessoa que acabou por ficar com o manuscrito”.

Porquê?
Eventualmente, percebi que era mesmo por causa do realizador, que já lhe tinha dito para não divulgar o nome. Ao que parece, o realizador já andava a investigar o assunto há 30 anos, e o Matthew, que é um bom tipo, pensou que ele merecia ser a pessoa a divulgar o paradeiro do manuscrito. Ele não me dizia o nome, mas conversámos durante muito tempo sobre Shapira. Até que eu o convidei para jantar no dia seguinte. O que eu achava era que se continuássemos a falar ainda havia esperança. Então, fomos jantar no hotel na noite seguinte, e conversámos durante três horas ou três horas e meia.

Ele trouxe um conjunto de sebentas com a investigação dele e deu-me uma delas. Eu comecei a folheá-la e percebi que no início havia algumas palavras em cada página que estavam pintadas a preto. No final, já havia, páginas inteiras todas a preto. Ele tinha mesmo apagado todas as referências ou pistas que pudessem levar à identidade da pessoa que tinha o manuscrito.

Mas à medida que íamos falando, ele ia revelando algumas pistas… Sobre como tinha descoberto a pessoa, vagamente sobre o local onde a pessoa vivia. A dada altura, já me tinha dado um conjunto de pequenas pistas que eu pensei que talvez já fossem suficientes para, quando eu voltasse para o meu quarto, colocar no Google e descobrir a identidade da pessoa. Então, pedi licença para sair da mesa, peguei em alguns guardanapos, fui a correr para a casa-de-banho e fechei-me lá dentro a escrever tudo o que ele me tinha dito. Eu não estava a tomar notas quando falei com ele, porque quando falamos com alguém que não quer dar informações, se começamos a tomar notas ou a gravar, a pessoa passa-se.

Quando volto para a mesa, é ele que pede para se retirar, para ir à casa-de-banho, e deixa o caderno dele em cima da mesa. O dele não tinha informações riscadas a negro, tinha toda a informação, e estava a poucos centímetros de mim. Podia facilmente chegar lá e ver. Mas comecei a debater-me sobre se devia ou não fazer aquilo. Primeiro olhei à volta, para ver se aquilo não seria um teste, se ele não estaria a olhar para mim ou não. Mas não estava. Por dentro, estava a pensar: “A informação a que eu dedicava a minha vida estava ali, posso tirá-la, mas ao mesmo tempo é tão desonesto se eu o fizer, é roubar. Se eu fizer esta descoberta, não quero ficar associado a essa desonestidade. Mas ao mesmo tempo é a minha vida. O que é que eu faço?”

Estive a debater-me durante tanto tempo que ele acabou por regressar, e eu não cheguei sequer a tocar no livro. Mas quando ele regressa, vem diferente. Começa a fazer-me questões, em vez de ser eu a fazer perguntas. E começa a perguntar-me coisas como: “Se eu lhe der essa informação, o que é que fazia com ela? Quando é que publicava o livro? Onde vai ser publicado?” Notei que havia uma diferença no tom, comecei a questionar-me onde é que aquilo me iria levar. Depois, já não sei o que lhe disse exatamente, mas depois de três horas e meia a conversar e oito meses depois de me ter contactado pela primeira vez, ele diz-me o nome. Fiquei eufórico… E aquela informação mandou-me num sentido completamente distinto das minhas pesquisas anteriores.

Nem chegou a usar os guardanapos, então.
Bom, na verdade usei (risos). Quando cheguei ao meu quarto, estava tão eufórico, tão contente, e antes de me deitar na cama pensei: “Será que se ele não me tivesse dito o nome, eu seria capaz de o descobrir?” E peguei nos guardanapos e fiz a pesquisa na Internet, tal como teria feito se não me tivesse dito o nome. E apareceu! Teria sido possível encontrar o nome só com a informação que ele me foi dando…

Pergunto-me se ele não o terá feito de propósito. Ele é um génio. Tem um QI incrivelmente alto. Aliás, existe uma organização nos Estados Unidos, chamada Mensa, uma organização para génios, até é preciso fazer um teste de QI para entrar. Ele fez o teste, e descobriu um erro no teste (risos). É o quão genial ele é.

Mas é também um homem muito religioso. Acredita que as capacidades intelectuais que tem são um dom de Deus e que tudo o que consegue fazer com as suas capacidades não lhe pertence, mas a Deus. Em última análise, pensou que aquela informação que ele tinha, aquele nome, não lhe pertencia, pertencia a Deus, e precisava de ser partilhado. Por isso, não sei se foi alguma coisa que eu realmente fiz ou disse, ou se terá mesmo sido aquele sentido interior de gratidão para com Deus.

“O Livro Perdido de Moisés” está traduzido para português e publicado pelo Círculo de Leitores

O que é que fez depois?
Bom, ele deu-me o nome da pessoa, eu fiz alguma pesquisa sobre a pessoa e descobri onde vivia. Meti-me num avião e fui para lá, para as Midlands, no Reino Unido, numa cidade de que eu nunca tinha ouvido falar. Comecei a tentar descobrir tudo o que consegui sobre aquele tipo, sobre a vida dele, sobre a família dele, sobre a carreira dele. Acabei por descobrir que ele era um físico, mas também um naturalista, um colecionador de pássaros empalhados e plantas. Quando ele morreu, a mulher doou dezenas de peças das coleções dele a diferentes museus por toda a Inglaterra.

Eu pensei que talvez ela tivesse dado também o manuscrito e comecei a tentar descobrir todas as doações. Fui a todos os museus, pesquisei em todos os registos, fui à casa onde ele viveu e procurei no sótão, na cave, em todo o lado. Entrevistei historiadores da cidade e fiz imensa pesquisa.

Não vou detalhar tudo o que está no livro, mas digo que o local onde fiz a minha descoberta mais importante, que me permitiu, no fim, provar se o manuscrito é real ou falso, foi na Universidade Estatal de São Francisco, que é onde eu dou aulas. Foi pura sorte. A biblioteca da universidade, a cem metros do meu escritório, tem uma coleção de 167 manuscritos antigos, que em tempos pertenceram a Moses Shapira, em Jerusalém. E acabaram ali, na Universidade de São Francisco. Onde eu sou professor. Completamente por acaso (risos).

Oito dias antes do prazo para entregar o livro, fiz uma descoberta que me permitiu responder à questão que queria responder há cinco anos. Voltei imediatamente para casa e reescrevi o final do livro.

Não quer contar o que descobriu? Vamos querer ler o livro na mesma.
O que eu descobri, no final, é que o manuscrito é falso. Naquela coleção de manuscritos, havia um conjunto de rolos da Tora. Lembra-se que um dos argumentos usados contra Shapira no final do século XIX foi que ele teria cortado a margem branca de algum rolo original da Tora?

Bom, eu estou a olhar para aqueles manuscritos todos e de repente encontrei uns quantos que tinham a margem inferior completamente recortada. Comecei a pensar: “Oh meu Deus”. Comecei a falar com muitos especialistas em textos bíblicos e a perguntar-lhes: “Há alguma razão para que estes pedaços tenham sido cortados? Alguma razão legítima que não tenha a ver com falsificação de manuscritos?” E todos me disseram que não. Na verdade, de acordo com a lei judaica, até é ilegal cortar o manuscrito daquela forma.

Fiquei apenas com uma resposta… A de que ele teria cortado o pedaço do rolo e usado a pele para falsificar o manuscrito. E quando me perguntava, há pouco, porque é que ele é um génio, é por causa disto. No processo de criar esta versão fantástica, estranha, controversa, do Deuteronómio, ele previu os Manuscritos do Mar Morto, 60 ou 70 anos antes de eles serem descobertos. É um grande ato de criatividade e imaginação, que me fez gostar mais dele. Se ele tivesse descoberto o manuscrito, seria ótimo, mas sobre ele só diria que ele tinha tido sorte. Mas ao ter escrito esta versão do manuscrito, ele é mesmo brilhante, inteligente. Um génio.

Ia perguntar-lhe se acha que Shapira foi tratado de forma injusta, mas calculo que não…
De certa forma, até está certo. No entanto, por outro lado, Shapira foi mal tratado por toda a gente. Ele era um tipo judeu convertido ao Cristianismo. Os judeus não gostavam dele porque ele era aquilo a que se chama um apóstata, alguém que se converteu para fora do Judaísmo. Os cristãos não confiavam plenamente nele, porque o viam como um judeu. Portanto, para onde quer que ele se virasse, não confiavam nele. Depois, envolveu-se naquela controvérsia das estátuas moabitas, e mesmo não tendo sido culpa dele, a imagem dele saiu afetada.

Bom, as duas grandes descobertas da vida dele acabaram por se revelar falsas.
Sim, é verdade. Mas ainda pode ir à Biblioteca Britânica, que tem a coleção bíblica que pertence ao British Museum, e ainda pode ver um grande conjunto de rolos da Tora, valiosos, lindos, muito significativos, que Shapira lhes vendeu.

Falou com o seu pai sobre a sua descoberta?
Sim, sim, claro.

E o que é que ele lhe disse? Não ficou desiludido?
Não sei se ele ficou desiludido. Não sei se ele alguma vez acreditou que este manuscrito fosse o original do Deuteronómio. Pelo caminho, desenvolvemos outras teorias. Por exemplo, que Shapira não o tivesse falsificado, mas que o manuscrito não fosse tão antigo como ele dizia. Mas, sabe, sempre foi uma tentativa arriscada para mim conseguir arranjar forma de provar uma conclusão ou outra. Por isso, penso que quando lhe liguei naquela tarde… primeiro enviei-lhe um email e disse: “Vê o que eu acabei de encontrar”. E acho que ele sentiu o mesmo que eu senti. “Ele conseguiu mesmo provar isto”. Ficou chocado, mas não sei se em última análise ficou desiludido. Penso que ficou orgulhoso de eu ter conseguido as provas.

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