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E as coisas podem continuar a correr bem a Costa

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António Costa está no centro de duas alianças políticas. Tem uma maioria de esquerda no parlamento e fez um mini bloco central com o Presidente, empurrando o PSD e o CDS mais para a direita.

1. A decisão inesperada de António Costa de se aliar ao PCP e ao Bloco de Esquerda não só apanhou a direita de surpresa como a deixou abalada. Demorou um ano a recuperar. Até lá dividiu-se entre a esperança numa vida curta da geringonça e em juízos e condenações morais contra o Primeiro Ministro (e eu incluo-me nessa direita, tenho que o reconhecer). A direita partidária já recuperou do choque, mas também já percebeu que se seguem tempos difíceis e de luta política a sério. A geringonça não é composta por meninos de coro. São políticos profissionais e estão à frente de uma máquina de poder implacável. A política em Portugal vai ser cada vez mais para pessoas duras e resistentes.

Uma luta difícil exige que se analise o adversário de um modo objectivo e frio e que se entenda o contexto político europeu. A Europa continuará a decidir muito do que acontece em Portugal. Na noite em que perdeu as eleições, António Costa foi “virtuoso” (não se choquem leitores de direita) no sentido em que Maquievel usou o termo no Principe. Levantou uma questão central da vida política: Tenho uma oportunidade para conquistar o poder? E percebeu que tinha. A direita não tinha maioria parlamentar e e extrema esquerda estava desesperada para evitar um novo consulado de Passos Coelho. Um novo governo do PSD e do CDS seria uma enorme ameaça ao poder da esquerda, sobretudo do PCP, no aparelho do Estado.

Costa só tinha duas alternativas: ou se demitia ou formava a geringonça. Do seu ponto de vista, tomou a melhor opção e chegou a PM. Mas não actuou apenas com oportunismo, também agiu com inteligência. Percebeu que a polarização política na sociedade portuguesa, depois de quatro anos duros, tornava a aliança com a extrema esquerda aceitável no PS. E mudou para sempre as regras do jogo político, alargando as possibilidades de maioria absoluta para o PS; por isso, os socialistas, apesar dos avisos esclarecidos de Francisco Assis e de Sérgio Sousa Pinto, aceitaram, aceitam e aceitarão a geringonça. Fazer uns acordos com os sindicatos da educação e dos transportes públicos e dar uns lugares simbólicos aos dirigentes do BE são preços mais do que aceitáveis para o PS estar no poder e continuar a controlar o Estado.

Domesticada a extrema esquerda, Costa lidou com a eleição presidencial da melhor maneira. Aliado às esquerdas radicais no parlamento, precisava de uma figura moderada e do PSD em Belém; por isso, fez o necessário para ajudar a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa. O PM está assim no centro de duas alianças políticas. Tem uma maioria de esquerda no parlamento e fez um mini bloco central com o Presidente, empurrando o PSD e o CDS mais para a direita, num país desequilibrado para a esquerda (aqui não resisto ao desabafo, por isso estamos como estamos, endividados, sem capital e empobrecidos). Apesar dos gritos e das indignações da direita, a curto prazo, Marcelo não tem condições políticas para mudar o seu comportamento. E Costa sabe.

Finalmente, na Europa a situação também se tornou favorável para o governo. As políticas monetárias do BCE permitem a ilusão do que a crise acabou e o suficiente para o governo reverter algumas das medidas mais impopulares do último governo de direita. A política de juros baixos e de injeção de dinheiro nos mercados serve sobretudo para ajudar os países mais endividados, como Portugal e a Itália. Draghi tudo fará para continuar a auxiliar o seu país e apoiando a Itália, ajuda Portugal. Claro que não resolve o problema de fundo, como se vê com o aumento da dívida portuguesa. Apesar das irritações em Berlim, em ano de eleições, Merkel continuará a tolerar a política do BCE.

Mas a evolução política na Europa pode ser ainda mais favorável para António Costa. A geringonça colocou o PS numa situação invejável para a maioria dos partidos da esquerda moderada na Europa. Em Espanha, o PSOE está a lutar para continuar a ser o maior partido de esquerda. Em França, o partido socialista está a chegar ao fim (mais em baixo). Em Itália, o Partido Democrata dividiu-se. no Reino Unido, os trabalhistas foram raptados por grupos de trotskistas. Apenas na Alemanha, o SPD parece estar em condições de regressar ao poder, depois da chegada de Martin Schulz à liderança. E as eleições na Alemanha (e em França) podem ajudar Costa e a geringonça.

Apesar da elevada incerteza em relação às eleições na Alemanha, um dos cenários possíveis é uma maioria das esquerdas com Schultz a Chanceler. Ou seja, uma geringonça alemã. Simultaneamente, apesar do cepticismo de muitos, Macron pode ser eleito presidente em França. Com Schultz e Macron no poder, a curto prazo, a Europa mudará de um modo favorável para o governo português. Poderá permitir mesmo uma segunda maioria das esquerdas. Mais quatro anos de geringonça e uma Europa com Schultz e Macron no poder são possibilidades assustadoras, na minha opinião. Mas, regressando a Maquiavel, isso não me impede de reconhecer as “virtudes políticas” de Costa e de entender que a “fortuna” pode continuar a ajudá-lo.

2. Como diz o Economist desta semana, a revolução política em França não dá sinais de abrandar. Na direita Gaullista, Fillon terá mesmo que desistir. Perdeu o apoio do seu partido. Juppé será o candidato mais provável, o que irá dividir os Republicanos. Na esquerda, o PS francês acabou como partido. Oficialmente, o partido apoia Benoit Hamon, mas a maioria dos chefes políticos, a começar com o ainda presidente, Hollande, apoiam Macron. Se Macron for eleito, formará um novo partido social democrata, e os grupos mais à esquerda do PS formam um novo partido. Ou seja, Le Pen enfrenta candidatos inexperientes ou segundas escolhas, e os principais partidos franceses das últimas décadas divididos ou a morrer. Aconteça o que acontecer, a V República chegou ao fim. Para os menos avisados sobre a história europeia, foi a V República que ajudou a fazer a União Europeia.

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