Leiam-me lá num daqueles textos sobre vários assuntos, aparentemente sem nada em comum além da capacidade de nos deixarem boquiabertos durante uns minutos.

O primeiro: o governo e toda a esquerda (com abstenção do PSD e votação contra do CDS) decidiram a possibilidade de descontar no IRS 15% do IVA, até 250€, pago com as despesas de veterinário dos animais de estimação.

Ora a geringonça que aprovou a dedução nos impostos para despesas com os animais de estimação foi a mesma que aumentou o IRS para muitas famílias com filhos, ao anular o quociente familiar do governo anterior. Governo de esquerda é isto: aumenta impostos às famílias com crianças e diminui os impostos aos donos de animais de estimação. (E até aqui discrimina. As despesas com o peixinho dourado do meu filho mais novo não vão estar abrangidas pela súbita bondade para com a fauna dos deputados de esquerda.)

Em suma: despesas com saúde da prole – é controlar, que os limites às deduções no IRS também têm vindo a decrescer (e desde o governo PSD-CDS, supostamente promotor da natalidade). Já as despesas com veterinário do grand danois vão ser premiadas com a dedução.

Pelo que já sabem: para a maioria de esquerda, se puder adquirir um animal de estimação em vez de procriar, está a tomar uma boa decisão. Na verdade, está a permitir grandes poupanças ao SNS e isso é patriótico. Temos de aplicar aqui a lógica (se alargarmos devidamente o conceito de lógica) do inefável ministro da economia, que acha sintoma de grande amor à pátria pagar alegremente o saque estatal de cada vez que se põe combustível no depósito do carro, em vez de ir dar fundos aos usurpadores de 1580. (À escola pública a falta de filhos não poupa grande coisa, que a Fenprof não deixa que o número de professores esteja relacionado com o número de alunos.) E se teve a ideia – despesista e ruinosa para as finanças familiares e para o erário público – de ter um filho, pelo menos tenha o bom senso de adquirir um animal de estimação (ok, até o governo reconhece que é importante o petiz ter um companheiro de brincadeira) em vez de se decidir por lhe dar um irmão.

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O segundo. Como se o país não tivesse já problemas suficientes, o Presidente da República quer aumentar a nossa auto-estima. (E agora paramos por alguns segundos para suspirarmos em uníssono com tamanha tolice dos políticos que elegemos.)

Vejamos. Pessoalmente quero garantir a Marcelo Rebelo de Sousa que não tem qualquer relevância nas oscilações da minha auto-estima, pelo que agradeço mas declino. E se me quiser englobar à força no coletivo português a reagir em rebanho aos sucessos ou insucessos do país, informo que corre o risco de ter o efeito contrário. Ter um presidente que perante um estado mastodôntico que absorve mais de metade da riqueza produzida anualmente no país e que em troca oferece maus serviços públicos, a histórica e secular pobreza relativa aos vizinhos europeus, as bolsas de mão-de-obra sem qualificações nem idade para novas aprendizagens, a pobreza infantil (muito resultante do ponto antecedente), o compadrio das elites políticas com as grandes empresas coladas ao estado, enfim, que perante tudo isto ache que o problema do país é a crispação do discurso político é risível. Ou que é mais importante despejar afetos para cima da população do que, como Cavaco nos tempos socráticos, alertar para a ‘situação explosiva’ que poderia vir (e oh se veio).

A maioria dos jornalistas (suspiremos por momentos novamente) está encantada. Mas é a mesma classe que em 2002 se indignou por Durão Barroso dizer que o país estava de tanga. Estava, e iria ficar pior, mas não interessava dizer a verdade. Afinal os jornalistas e Marcelo são da clique que faz lembrar as senhoras espartilhadas vitorianas que desmaiavam à mais ligeira provocação e necessitavam dos sais para reavivar. São pessoas delicadas que não aguentam nem discursos sem papas na língua nem mensagens cruas. E não, estar assim acompanhada não me aumenta a auto-estima.

No terceiro, rumemos a países estrangeiros. Em Cambridge foi cancelada uma festa de estudantes cujo tema era A Volta ao Mundo em Oitenta Dias de Jules Verne. Não por reação dos estudantes apoiantes do Brexit ao uso de um autor da malévola Europa continental. Porque se considerou que como o livro que dava tema à festa se passava em fins do século XIX, numa época colonial europeia, tinha ‘potencial para ofensa’ aos estudantes estrangeiros que aparentemente estão ainda em 2016 oprimidos pela colonização dos tempos de Phileas Fogg.

Como o texto já vai longo, não vale a pena aqui fazer penitência por termos tido potências coloniais terminando com bons hábitos indígenas como os satis na Índia (as viúvas da casta cxatria que se imolavam nas piras funerárias dos maridos – e quantas vezes obrigadas pelas famílias, que queriam assim preservar ou reclamar estatuto social desta casta elevada) ou a antropofagia na América do Sul. Menos ainda chamar a atenção que a história foi como foi e não vale a pena recusá-la nem julgá-la pelos padrões do presente.

Queria simplesmente congratular-me por nenhum colonizador europeu ter ousado tocar nesse bom hábito da África muçulmana que é a mutilação genital feminina. Ainda bem que aqui houve respeito pelos costumes dos colonizados. E, felizmente, em 2016 ninguém se sente ofendido por a ocupação indevida de terras alheias pelos europeus ter impedido que milhões de meninas sejam submetidas anualmente a esta barbárie.