comic5Comecemos antes assim.

Confuso? É mesmo de tipos de letra que estamos a falar. E de um em particular: Comic Sans, a fonte tipográfica mais controversa alguma vez inventada. Vincent Connare, o homem por detrás da fonte, foi um dos oradores escolhidos para marcar presença na edição deste ano da Conferência Aborrecida (Boring Conference, na designação original), em Londres, sob o pretexto de falar sobre “o tipo de letra preferido dos utilizadores” e explicou as suas origens. Parece aborrecido? Já lá vamos.

Nem todos gostam da velha máxima de “falem bem ou falem mal, mas falem de mim”, mas o certo é que em alguns casos resulta. A Comic Sans é um claro exemplo disso mesmo. Antes de ser inventada, em 1994, raras eram as pessoas que reparavam ou davam importância ao tipo de letra usado nos documentos, mas hoje em dia todos reconhecem este. Especialmente quando o vêem a ser utilizado de forma aparentemente desadequada.

Até foi criado um movimento – Ban Comic Sans – para banir completamente a fonte dos sistemas operativos, mas nada suficientemente eficaz para impedir que este tipo de letra ficasse gravado em lápides nos cemitérios, em e-mails governamentais ou nos avisos para ‘não deitar papel higiénico para a sanita’ nos estabelecimentos comerciais. Os exemplos são muitos e, nos últimos anos, surgiram várias compilações com usos inapropriados da fonte.

A verdade é que a corrente de ódio que se instaurou à volta deste tipo de letra não fez mais do que popularizar a fonte e criar uma autêntica corrente de humor à volta dela. “Nem toda a gente gosta do Justin Bieber”, resume Vincent Connare, cujo nome aparecia, claro, escrito a Comic Sans no programa da Conferência.

Para o pai daquele tipo de letra é difícil escolher um ponto alto dos seus quase 20 anos de existência. Mas à revista brasileira Trip, Vincent Connare chegou a admitir que “foi engraçado quando o Vaticano divulgou um álbum para assinalar o papado de Bento XVI em seis línguas, tudo escrito com a Comic Sans”.

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Ou quando “a descoberta do Bosão de Higgs, a maior descoberta científica da nossa era, foi apresentada no CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear) em Comic Sans”.

Ou ainda quando a descobriu num site pornográfico ou num site de homenagem aos Black Sabbath.

Esqueceu-se foi do caso, também ridicularizado pela comunidade cibernética, do jogador norte-americano de basquetebol LeBron James que, quando deixou os Cleveland Cavaliers pelo Miami Heat em 2010, levou o presidente do clube Dan Gilbert a escrever uma carta no site onde manifestava desagrado por o jogador abandonar a equipa de Cleveland. A carta tornou-se viral num ápice, não pelo conteúdo, mas pela escolha da fonte: Comic Sans.

Tudo cenários improváveis para um tipo de letra que foi desenhado a pensar no mundo ingénuo das crianças. Na tal Conferência Aborrecida, Connare explica que desenhou a fonte em 1995 quando trabalhava na Microsoft. O objetivo era criar uma letra mais apelativa para a secção de software infantil, pensada não só para crianças mas para pais e mães que se iniciavam nos computadores. “Mostraram-me uma aplicação para o Windows 95 cujo ícone era um cão em forma de desenho animado, o Microsoft Bob, e perguntaram-me o que eu achava do tipo de letra usado”, começa a explicar. O cão comunicava com os utilizadores através de balões, como se faz em banda desenhada. Mas falava em Times New Roman e Connare achou que “era estúpido”. O trabalho tinha de ser feito rápido porque o software estava prestes a sair, então Connare foi inspirar-se nos livros aos quadradinhos, nomeadamente nos do Batman, e desenhou a tipografia base com o rato para parecer que era escrita à mão. Et voilà, em três dias tinha a fonte desenhada.

“Um tipo de letra é uma resposta a uma pergunta”, diz o autor ao The Guardian, para explicar a rapidez do processo – sabia o que queria.

O que Vincent Connare não esperava era que, apesar de o Microsoft Bob ter desaparecido do mapa, a Comic Sans continuasse a ser usada e seguisse no leque de fontes originais do Windows 95. E muitos menos que se tornasse uma das favoritas em todo o mundo. Só quando, numa viagem à Austrália, viu que a fonte estava impressa no menu de um restaurante em Sidney, nas toalhas de praia e numa loja de surf, percebeu que tinha extrapolado o universo dos cartoons. Mas também para isso tem explicação: “É uma coisa que pega porque tudo o resto é semelhante ao que tradicionalmente se vê nos livros”, diz.

Em defesa da fonte há até uma canção humorística criada para fazer frente aos ‘haters’ da Comic Sans que acaba por dizer que o tipo de letra não tem mal…se for usado com moderação. Ou seja, não em contextos profissionais.

Um debate antigo e “aborrecido” que até já à levou à criação de uma nova linha da Comic Sans, a Comic Neue, e que explica o porquê de Vincent Connare – também autor de outras fontes mais consensuais como a Trebuchet -ter sido um dos mais aclamados oradores da última edição da Conferência Aborrecida em Londres. E se o tema aborrece então aborreceu mesmo muita gente, já que os bilhetes esgotaram e a sala do Conway Hall estava cheia.