Mario Draghi recorreu a uma expressão característica do seu antecessor e garantiu que está “vigilante” em relação à taxa de inflação e às perspetivas para a economia. Foi o suficiente para levar todos os analistas a acreditar que pode estar na calha um reforço do programa de compra de ativos, incluindo dívida pública dos países da zona euro. E foi, também, o suficiente para levar a uma inversão da tendência dos juros de Portugal, que tinham superado os 2,5% de manhã, e passaram a cair oito pontos base para 2,36%.

A dívida pública portuguesa esteve sob pressão nos últimos dias nos mercados. Nesta manhã de quinta-feira, os juros das obrigações do Tesouro em todos os prazos longos subiam num dia em que as yields de países como Espanha, Irlanda e Itália seguiam praticamente inalteradas. O agravamento dos juros, em que Portugal estava isolado, era um espelho da apreensão dos investidores face ao arrastar do impasse político.

A potência dos estímulos do BCE ficou demonstrada nesta quinta-feira. De uma subida de cinco pontos base nos juros durante a manhã, as taxas passaram para uma queda de oito pontos base no prazo de referência a 10 anos. 

Ainda assim, apesar de em termos absolutos as taxas serem mais baixas em Espanha (1,63% a 10 anos), o alívio das taxas no país vizinho está a ser ainda maior: 12 pontos base.

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No final do programa, nas suas condições atuais, o BCE terá adquirido um valor próximo de 26 mil milhões de euros em dívida nacional (pública e privada), tendo em conta a quota de 2,5% de Portugal no capital do banco central. É dívida que não deixará de ter de ser paga, bem como os respetivos juros, mas as compras do BCE serão – já estão a ser – decisivas para baixar os custos suportados pelo Tesouro e pelas empresas na emissão de nova dívida.

O reforço sinalizado por Mario Draghi poderá ser um aumento do ritmo mensal de compras – 60 mil milhões por mês no total da zona euro – ou alterações na estrutura do programa que tenham um efeito potenciador do programa. Por outras palavras, os investidores admitem que o BCE irá injetar mais liquidez financeira no sistema e, com Draghi às compras, a tendência dos preços das obrigações é de subida – o que faz cair os juros implícitos.