Uma das razões para a infertilidade masculina pode ser a incapacidade de produzir gâmetas maduros, os espermatozoides, a partir das células imaturas – um problema que afeta 1% dos homens em todo o mundo. Agora, uma equipa de investigadores japoneses recuperou uma técnica que tinha caído em desuso, mostrando que algumas células imaturas, os espermatídios redondos, podem ser utilizadas na fertilização in vitro. Para o demonstrar apresentam 14 crianças nascidas com esta técnica – ROSI, microinjeção de espermatídios redondos -, noticia o The Guardian.

“Em termos práticos abre-se uma nova via. Uma via que estava abandonada e que pode ser retomada”, disse ao Observador Vladimiro Silva, diretor da Laboratório de Procriação Medicamente Assistida da clínica Ferticentro. “Abre uma nova esperança, não em termos clínicos a curto-médio prazo, mas enquanto via de investigação.”

“Pensávamos que esta técnica estava morta, que nunca mais seria utilizada”, disse ao The Guardian Allen Pacey, professor de Andrologia na Universidade de Sheffield, que não participou no estudo. “Isto oferece potencialmente uma opção interessante a 1% dos homens que não produzem espermatozoides. Esta é a porção de 1% de homens para os quais ainda não podemos fazer nada. A única opção é tratamentos com dadores de esperma que pode não ser aceite.”

Quando o número de espermatozoides é insuficiente ou quando estes não conseguem nadar convenientemente isso pode impedir o homem de fecundar a mulher conduzindo a situações de infertilidade. A recolha de sémen e a fertilização in vitro, com os espermatozoides maduros, permite proporcionar uma gravidez ao casal. Mas nos casos em que isto não é possível, a única solução é recorrer à doação de esperma. O que o investigadores japoneses se propuseram fazer foi recolher células imaturas nos testículos e usá-las na fertilização in vitro.

O que são espermatídios?

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Os espermatídios são células imaturas que ainda não completaram três quartos da espermatogénese (processo de formação de espermatozoides). São células redondas, sem a cabeça e a cauda típicas dos espermatozoides, e podem ser encontradas nos testículos.

E conseguiram. Dos 734 ovócitos estimulados eletricamente (de 76 mulheres) e fecundados com espermatídios dos respetivos companheiros, nasceram 14 crianças (de 12 casais). Os autores reforçam, no entanto, que apenas 30% dos homens inférteis que não produziam espermatozoides tinham espermatídios que permitissem usar esta técnica.

Ainda assim, e se a memória não o atraiçoa, Vladimiro Silva acha que isto é melhor do que os resultados conseguidos há 20 anos. O sucesso pode estar na ativação elétrica dos ovócitos. A ativação dos ovócitos costuma ser feita pelo espermatozoide que faz a fecundação, mas na ausência deste espermatozoide a ativação podia estar também em falta e justificar a baixa taxa de sucesso.

A utilização de espermatídios redondos ou mesmo alongados (espermatídios numa fase mais avançada de maturação) chegou a ser usada, mesmo em Portugal, afirmou Vladimiro Silva. “Foi há mais de 17 anos que nasceu a primeira criança pela técnica de ROSI.” Mas este método foi abandonado porque a taxa de sucesso era muito pequena e porque não era possível garantir que a técnica era segura. Em Portugal não existe uma proibição formal como no Reino Unido, mas as recomendações da autoridade britânica para a fertilização in vitro (Human Fertilisation & Embriology Authority) acabam por ser seguidas um pouco por todo o mundo, confirmou o farmacêutico.

O risco de as crianças poderem nascer com algum problema de saúde foi um dos motivos que levou o Reino Unido a banir esta técnica nos anos 1990, referiu o Guardian. Mas os investigadores japoneses garantem que as 14 crianças, que nasceram entre setembro de 2011 e março de 2014, não apresentam sinais de problemas físicos, mentais ou genéticos, conforme publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences.

“Este novo estudo faz-nos repensar se este é ou não um caminho para o qual devíamos voltar a olhar. Eu penso que vale a pena tê-lo em consideração”, disse Allan Pacey, reforçando que a equipa japonesa conseguiu adicionar-lhe um pormenor que pode fazer a diferença – a estimulação elétrica dos ovócitos.

No artigo, os investigadores admitem que a taxa de sucesso é reduzida, mas que pode ser um último recurso para os homens que não conseguem produzir espermatozoides e não querem recorrer a bancos de esperma. Também admitem que com apenas 14 crianças nascidas, ainda que todas saudáveis, não podem afirmar com certeza a segurança desta técnica de reprodução medicamente assistida. Mas assumem que a técnica pode ser melhorada e a taxa de sucesso aumentada.