Separados, mas não de costas voltadas. É assim que estão, por esta altura, sociais-democratas e centristas. Na quarta-feira, Pedro Passos Coelho aproveitou para lembrar às “pessoas mais distraídas” que sem Governo não existia coligação. Apesar da repercussão mediática (e política) das palavras do ex-primeiro-ministro, ninguém no PSD e no CDS foi apanhado desprevenido. O fim da coligação “não é um drama, é uma realidade“, explica Matos Correia, vice-presidente do PSD.

Mesmo com Carlos César a aproveitar as palavras de Passos para dizer que sociais-democratas e centristas perderam “a vontade de estar juntos” no mesmo dia em que perderam o poder, na verdade, ninguém acusou o toque. Luís Montenegro, líder da bancada parlamentar do PSD, acredita que as relações entre os dois partidos vão continuar a ser privilegiadas, como foram nos últimos quatro anos, mas que é “natural seguirem caminhos separados” até para que “os dois possam crescer sozinhos”. Diogo Feio, dirigente centrista, ainda acrescenta, em declarações ao Observador: “É uma declaração normal” e “uma situação natural”. PSD e CDS estão “na mesma situação que estavam antes da contagem dos votos, a 4 de outubro”. Ou seja, têm ideias comuns, mas não estão formalmente coligados.

Agora, é preciso “deixar passar o Natal, as presidenciais” e esperar pelos congressos dos dois partidos para perceber qual é o melhor caminho para seguir daqui adiante. Antes disso, “não vale a pena especular” sobre o que pode acontecer em relação a futuras alianças, sublinha Diogo Feio.

A palavra de ordem parece ser agora “esperar” e “deixá-los [à esquerda] comer muitas filhoses”. É precisamente isso que diz um dirigente social-democrata ao Observador. A estratégia do PSD vai passar por aguardar pacientemente na oposição e, pelo caminho, apontar as incongruências da “geringonça” e esperar até ao castelo de cartas ruir, sem esquecer que “as presidenciais podem mudar o quadro todo”.

E o castelo de cartas vai mesmo ruir? O PSD parece apostar nisso. Com a “esquerda a pôr a carne toda no assador” nos primeiros meses de governação, ou seja, revertendo o que PSD e CDS tinham aprovado, por um lado, e aprovando as medidas que dizem respeito à agenda fraturante comum aos três partidos, pelo outro, no futuro, vai restar pouco que una PS, Bloco e PCP.

Além disso, há a questão das expectativas que foram criadas, continua o mesmo dirigente social-democrata. Nomeadamente, no que diz respeito à devolução dos rendimentos e à redução da carga fiscal: o novo Governo dificilmente conseguirá corresponder às expectativas sem colocar em causa o equilíbrio orçamental – e aí o barco da esquerda vai começar a meter água por todos os lados, preveem (ou desejam) os sociais-democratas. No fundo, estão esperançados que socialistas, bloquistas e comunistas fervam no caldo que cozinharam.

Enquanto isso, PSD e CDS vão continuar a defender a herança comum e a avançar, sempre que se justificar, com propostas conjuntas, admite Montenegro. Como também é “natural os dois partidos apresentem propostas separadas”, acrescenta, por sua vez, Matos Correia.

O vice-presidente social-democrata assume, ainda, que no congresso do partido (a 1, 2 e 3 de abril), será aprovado um “conjunto de orientações políticas para um horizonte do próximo mandato”, ou seja, para os próximos dois anos. Também o CDS vai-se reunir entre finais de março e inícios de abril para discutir o seu futuro político – um congresso “muito importante”, como reconhece Diogo Feio. Pedro Passos Coelho já assumiu a recandidatura, resta saber o que fará Paulo Portas, embora seja muito provável que o ex-vice-primeiro-ministro avance. A partir daí, depois das presidenciais e depois dos congressos dos dois partidos, as águas já deverão ser mais claras.