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Os especialistas britânicos, pelo menos aqueles contactados pelo Science Media Center britânico, apoiam a decisão tomada pela Autoridade britânica de Embriologia e Fertilização Humana (HFEA, na sigla em inglês) que concedeu, pela primeira vez no Reino Unido, autorização para que cientistas possam usar técnicas de manipulação genética em embriões humanos. O Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV), num parecer sobre o assunto, é muito mais cauteloso e rege-se pelo princípio da precaução – “na inexistência de dados suficientes sobre os possíveis riscos, a ação deve ser realizada de forma prudente”. Ana Sofia Carvalho, diretora do Instituto de Bioética, da Universidade Católica Portuguesa, concorda.

“Na ausência de consenso científico sobre as suas consequências, os usos potenciais destas novas tecnologias devem ser abordados com extrema prudência recorrendo a um princípio de precaução que acautele o seu impacto sobre as gerações presentes e futuras”, refere o comunicado do CNECV.

O conselho de ética aponta como principais preocupações éticas em relação à manipulação genética de embriões humanos “a destruição dos referidos embriões humanos, bem como pelos riscos imprevisíveis e potencialmente irreversíveis que a modificação do genoma, se conseguida, poderá ter no pool genético da espécie humana”.

Embora concorde que a destruição de embriões é uma questão ética, Ana Sofia Carvalho considera que o maior problema agora é a possibilidade de manipulação de embriões e as consequências que pode ter no futuro, porque o que for alterado no embrião pode ser passado à descendência. “A edição no embrião vai-se perpetuar para gestões futuras.”

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A autorização cedida à equipa de investigação do Instituto Francis Crick destina-se unicamente à investigação e não poderá ser usada em técnicas de reprodução medicamente assistida, como reforçou a BBC. Mesmo assim, Ana Sofia Carvalho lembra que uma vez que a tecnologia se torna possível, pode resvalar para outras utilizações. De qualquer forma a investigadora também “não acha que a proibição seja a melhor alternativa” e que a “solução mais segura é acompanhar a situação para minimizar os riscos”. “A Europa não pode fechar ao que se passa na China.”

O CNECV admite que o Reino Unido tem tido a investigação nesta área “fortemente regulada e sistematicamente acompanhada”. E reforça “a preocupação com os riscos associados aos usos e aplicações das novas tecnologias e a necessidade de uma abordagem prudente e antecipatória relativamente às suas consequências”. Esta preocupação já tinha sido manifestada em relação “a questões como a modificação genética de organismos potencialmente patogénicos ou os organismos geneticamente modificados”.

Os especialistas britânicos mais entusiasmados com a aprovação

“Estou satisfeito que a HFEA tenha aprovado o uso de manipulação genética em embriões doados para investigação por casais que tenham recorrido a tratamento de fertilização in vitro“, refere Daniel Brison, professor de Embriologia Clínica e Biologia de Células Estaminais, na Universidade de Manchester.

Considerando a decisão da HFEA como um “triunfo” e não descartando os desafios éticos, Darren Griffin, professor de Genética, da Universidade de Kent diz que “é claro que os benefícios potenciais do trabalho proposto ultrapassam largamente os riscos”. O professor defende que este é um exemplo de como o Reino Unido lidera não só na investigação em desenvolvimento embrionário, mas também “na ciência social usada para a regular e monitorizar”.

Daniel Brison recorda que agora que as técnicas de manipulação genética em embriões humanos foi desenvolvida não há forma de voltar para trás. Ainda que na Europa ainda não fosse possível, já havia investigadores a fazê-lo noutros locais, como na China. “Esta investigação pode agora progredir sob o olhar de um entidade reguladora respeitada internacionalmente, a HFEA, que irá assegurar que a investigação é conduzida de forma segura e responsável.”

“A decisão da Autoridade britânica de Embriologia e Fertilização Humana consolida a posição do Reino Unido como líder global em termos de investigação”, defende Rob Buckle, diretor dos Programas Científicos do Medical Research Council. “À medida que as técnicas de edição se desenvolvem é importante que este trabalho continue com um quadro regulamentar robusto e adaptável de maneira a que o potencial em termos científicos, éticos e legais seja alcançado de forma rigorosa.”

O presidente da Academia de Ciência Médicas, Robert Lechler, considera que é importante estudar o desenvolvimento do embrião humano, assim como avaliar as questões científicas e éticas nesta área de conhecimento. “A manipulação de genes pode vir a ser usada clinicamente no futuro para tratar e prevenir doenças genéticas graves e que de outra forma não têm cura. É importante que o debate aberto continue, não só entre cientistas, mas entre especialistas em ética, profissionais de saúde, reguladores, os doentes e respetivas famílias e o público em geral.”

Haver um conhecimento público do que está a acontecer permite uma regulamentação mais eficaz. “O Reino Unido tem um sistema regulador excelente através da HFEA, que vai assegurar que qualquer embrião geneticamente modificado não será implantado de forma a seguir o desenvolvimento. Para isso acontecer é preciso uma mudança na lei e isso não pode acontecer sem um vasto consentimento tanto da sociedade como do parlamento”, nota Robin Lovell-Badge, investigador no Instituto Francis Crick — o instituto que recebeu a autorização para investigação.

Em dezembro, a Academia Nacional de Ciências e Medicina dos Estados Unidos, a Academia Chinesa de Ciência e a Royal Society no Reino Unido reuniram-se para discutir o estado da arte, tanto científico como ético, legal e regulador, das tecnologias de edição de genes. A conclusão é que a manipulação genética, mesmo em embriões, é necessária e deve continuar, desde que nenhuma gravidez resulte desse embrião alterado, como refere a Science News.

Os cientistas conseguiram a aprovação da HFEA, que verifica a pertinência científica dos objetivos de investigação, mas para poderem dar continuidade ao trabalho precisam que o comité de ética, que tem responsabilidade pelos embriões, aprove este tipo de investigação. Se isso acontecer, o trabalho pode iniciar-se nos próximos três meses.

Atualizado às 11h45, de 3 de fevereiro, com as declarações de Ana Sofia Carvalho.