É uma espécie de cartilha que quase todos os pais sabem de cor: entre os quatro e os seis meses do bebé iniciar a alimentação complementar, introduzindo os purés de legumes, a fruta e as papas. Depois, por volta dos sete meses, juntar carne moída na sopa, a seguir é a vez do peixe, mais tarde o ovo; entretanto os lanches já são feitos de iogurtes e, ao completar um ano, tudo pode ser oferecido à criança, incluindo o leite de vaca e a carne de porco. Mas e se em vez de um pouco de frango se colocar na sopa um pouco de tofu? E se em vez de bolacha maria der ao bebé uma bolacha de aveia e banana, adoçada com tâmaras em vez de açúcar? Se em vez de uma papa comprada no supermercado der à criança uma papa de arroz com maçã feita em casa? Se em vez de arroz branco se der quinoa? Se em vez do esparguete oferecer millet? Hoje são cada vez mais os pais que procuram alternativas à introdução alimentar tradicional: querem evitar as papas de compra com elevado teor de açúcar, introduzir proteínas vegetais como o tofu e o seitan na dieta dos seus filhos, alguns seguir uma alimentação totalmente vegetariana.

A todos se dirige Cozinha Vegetariana para Bebés e Crianças, livro que Gabriela Oliveira acaba de lançar com receitas exclusivamente vegetarianas a pensar nos mais novos: dos primeiros purés, papas e sopas aos pratos completos e sobremesas, passando pelos leites vegetais, iogurtes, manteigas, bolachas e biscoitos, sem lactose, sem açúcar, sem produtos refinados. De confeção simples, estes pratos são para todos: para bebés e crianças vegetarianas, para aqueles que querem apenas introduzir mais variedade e mais vegetais na alimentação dos seus filhos – mesmo continuando a oferecer-lhes carne e peixe e para crianças com intolerâncias alimentares. É possível ser vegetariano desde a primeira colherada? Gabriela Oliveira defende que sim. Mas defende, acima de tudo, que é possível introduzir também uma alimentação vegetariana desde essa primeira colherada.

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O livro foi editado pela Arte Plural e custa 18,80€.

Este não é um livro de receitas só para crianças vegetarianas. Este é um livro de receitas vegetarianas para todas as crianças”, explica a autora numa conversa com o Observador. “Através do livro, e das sugestões de receitas, qualquer família pode diversificar a alimentação dos filhos e introduzir alimentos que à partida, não iria utilizar nos menus diários, como as sementes, os frutos secos, os cereais de vários tipos, como a aveia, o millet e a quinoa. Tudo coisas que já se encontram nos supermercados mas que muita gente ainda tem dificuldade em saber como confecionar.”

A ideia, explica Gabriela Oliveira, é que a alimentação das crianças não seja apenas centrada nos alimentos refinados e com excesso de açúcar e gorduras, hipercalórica e hiperproteica, mas saudável e variada. “No caso dos bebés, por exemplo, é importante que as primeiras refeições, as papas, as sopinhas, os purés de legumes e de fruta, sejam preparadas em casa de modo simples e que não se recorra apenas aos produtos industrializados e processados, como os purés de frutas pronto a consumir e boiões de comida. Quis mostrar que pode ser fácil, rápido e económico preparar tudo em casa, das papas aos pratos principais e sobremesas.”

Almôndegas de legumes

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  1. Demolhe 1 cháv. de flocos finos sem glúten em 2/3 cháv. de água a ferver; reserve.
  2. Pique 1 cebola, 2 dentes de alho, 1 cháv. raminhos de brócolos, 1 cháv. raminhos de couve-flor, 1/2 beringela pequena, 1/2 talo de alho-francês e 1 tira de pimento; rale 1 cenoura.
  3. Aqueça uma frigideira com um fio de azeite e salteie a cebola e o alho; junte os legumes que preparou, 1/2 cháv. de ervilhas congeladas e 3 c.sopa de polpa de tomate. Tempere com pimentão-doce, tomilho, manjericão, pimenta preta e sal, e deixe cozinhar até os legumes ficarem macios. Misture os flocos de aveia demolhados e triture grosseiramente com a varinha mágica.
  4. Adicione 2 c. sopa de salsa picada, 2 c. sopa de levedura nutricional (se usar) e 2 c. sopa de farinha de aveia ou de arroz integral (se achar a massa húmida, aumente a quantidade); retifique o tempero. Humedeça a palma de uma mão com azeite, retire porções de massa e faça bolinhas.
  5. Coloque num tabuleiro forrado com papel vegetal e leve ao forno preaquecido a 200 °C cerca de 20 min. Sirva com 1 cháv. de molho de tomate.

O que não invalida que este livro seja também uma ferramenta útil para os pais que desejam que os seus filhos sigam uma dieta vegetariana. Esse é, de resto, o caso da família de Gabriela. Em casa são todos vegetarianos, adultos e crianças. Se os pais o são há quase 20 anos, os filhos, de cinco, 10 e 16 anos, são-no desde que nasceram. E, garante Gabriela Oliveira, saudáveis. “Quando se dá a iniciação dos sólidos, na alimentação dos bebés, começa-se pelos alimentos de origem vegetal: as sopas, as frutas, os cereais. Depois, quando chega o momento em que os médicos sugerem o reforço das proteínas, aí os pais podem escolher se dão uma alimentação vegetariana ou se incluem proteínas vegetarianas na alimentação das crianças. É possível ser-se vegetariano desde os primeiros momentos de vida. Essa é uma afirmação que não é apenas minha, mas feita por várias associações internacionais de dietética, de nutrição e de pediatria, que afirmam que o regime vegetariano, incluindo o vegan, é adequado a todas as fases e todas as etapas da vida. Cabe aos pais tomar a decisão de qual o regime alimentar que consideram melhor para a família e para os filhos e, em função disso, fazer escolhas equilibradas e ajustadas à idade das crianças.”

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As almôndegas de legumes explicadas passo a passo no livro.

A autora sabe que este é um tema polémico, com vários médicos a defenderem que, na infância, as proteínas animais são essenciais ao crescimento e nutrição adequada. “Mas a Direcção-Geral de saúde (DGS) já emitiu dois comunicados sobre o assunto: o primeiro, com as linhas de orientação da dieta vegetariana, afirmava que a alimentação vegetariana é adequada a qualquer etapa da vida, desde que corretamente planeada. E, este ano, a DGS emitiu outro comunicado, afirmando que a dieta vegetariana pode ser aplicada também na infância e adolescência, dando também coordenadas para que haja essa adaptação da alimentação nas várias etapas do crescimento”, assegura Gabriela.

“Não quero comer um animal”

E quanto às dificuldades encontradas no meio social? Nada que não possa ser contornado. Os três filhos de Gabriela frequentam a escola pública. Na hora de almoçar, há várias hipóteses: por vezes há uma opção vegetariana preparada pela escola, noutras são as próprias crianças a levar a proteína vegetal, comem a sopa, o arroz e substituem, por exemplo, o bife de vaca por um hambúrguer vegetariano. Quando há uma visita de estudo levam a refeição preparada de casa. E não têm curiosidade de experimentar a carne e o peixe dos colegas? “As crianças perguntam muitas vezes ao colega vegetariano se quer provar. E, quase sempre a resposta dos miúdos é: não, obrigado, eu não quero comer um animal. Mas compreendem que os outros o façam. Sabem que a maior parte das crianças nunca provou tofu, quinoa ou salsichas vegetarianas. E por isso muitas vezes são os colegas que pedem para provar o prato vegetariano. Normalmente não é o vegetariano que quer provar a carne mas quem tem a carne que quer provar a comida vegetariana.”

Foi, aliás, por não querer comer animais, poupar-lhes a vida e evitar-lhes sofrimento, que Gabriela se tornou vegetariana. Há 20 anos havia menos informação. Como é jornalista aproveitava para se informar ao entrevistar médicos e especialistas em nutrição. No decorrer da profissão fez vários dossiers sobre o tema e, por encontrar pouca informação, decidiu, ela mesma, lançar um livro com alternativas para as crianças. Publicou-o há dez anos, há muito que está esgotado. Como continuava a receber pedidos de ajuda de famílias que queriam introduzir alimentos vegetarianos na alimentação dos filhos, perguntando-lhe a partir de que idade poderiam começar a introduzir alimentos típicos da culinária vegetariana, como o seitan e o tempeh, decidiu escrever um novo livro. Cozinha Vegetariana para Bebés e Crianças junta-se, assim, aos livros anteriores da autora: Cozinha Vegetariana para Quem Quer Poupar (Arteplural, 2014) e Cozinha Vegetariana para Quem Quer Ser Saudável (Arteplural 2015).

Gabriela Oliveira não quer evangelizar, não tenta fazer com que as famílias passem a ter uma alimentação exclusivamente vegetariana. Quer apenas dar a conhecer alternativas, outros alimentos, que podem complementar a dieta das famílias, tornando-a mais saudável. “Precisamos de nutrientes. Onde os vamos buscar é uma opção”.