Web Summit

Há amor e negócios nas noites da Web Summit. “Dás-me o teu QR code?”

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A Web Summit não acaba quando terminam as conferências. Pelo contrário. Empreendedores, investidores e curiosos juntam-se na noite para fazer "networking", uma expressão com vários sentidos.

A rua cor-de-rosa está engalanada como se fosse Santo António. Não é, mas o espírito casamenteiro talvez ande no ar

D.R.

Autor
  • João Pedro Pincha

Marta veio à Web Summit para ver se arranja emprego no estrangeiro, mas para já ainda só conseguiu engates. “A app da Web Summit serve para dates”, diz a rir-se. “Todas as mensagens que recebi foi para ir a pitches de empresas ou para beber copos”, explica, enquanto a amiga Joana acena afirmativamente.

São dez e tal da noite de segunda-feira e a Rua Nova do Carvalho, a famosa rua cor-de-rosa do Cais do Sodré, está à pinha. É aqui e no Bairro Alto que se realizam, durante toda esta semana, as Night Summit, a versão noturna da Web Summit — mas sem conferências e chatices, só álcool e muita lábia.

À porta de um dos bares mais concorridos da noite, onde estão a oferecer pequenas taças de vinho fresco, Marta e Joana explicam porque vieram a este evento e não conseguem esconder um certo desapontamento. “Vim à procura de novas tendências. Acho fantástico o conceito, de estar num ambiente menos corporate”, desenvolve Joana, que trabalha para uma multinacional de marketing e publicidade. Mas ficou desiludida por ver tão poucas mulheres no meio da multidão. E, apesar de Marta brincar com o facto de estarem “à espera que o networking venha”, as duas amigas lamentam ter recebido tantos convites para dates, quando o que elas queriam mesmo era aumentar a rede de contactos profissionais. “Uma amiga minha estava super-feliz por ter ganho um bilhete e agora só lhe aparecem homens a convidá-la para copos.”

Networking é uma expressão com muitos sentidos. Quase todas as pessoas que vieram até ao Cais do Sodré esta noite atiram essa palavra como primeira justificação para o facto de estarem aqui. “É para fazer contactos. Não estamos à procura de financiamento, mas se acontecer, ótimo”, afirma Eshaan Takkar, um indiano de turbante que criou uma plataforma online de cuidados de saúde. Ao ver o crachá verde, que nos identifica como jornalistas, começa imediatamente a vender o produto. A plataforma que ele criou permite procurar dadores de sangue, consultar receitas médicas e ter consultas recorrendo apenas a um computador ou smartphone, além de enviar alertas aos utilizadores às horas de tomar a medicação.

A rapidez com que faz o discurso é impressionante. “Sabemos dizer tudo o que queremos em quatro minutos. Estamos preparados!”, atira com gargalhadas. Ele e a equipa de cinco pessoas que o acompanha vão participar no concurso de pitches da Web Summit, que se realiza entre terça e quinta-feira no Parque das Nações. Por isso as noites servem para cativar jornalistas, colecionar cartões de apresentação e, quem sabe, convencer algum investidor.

É também isso que Dmytro anda a fazer na Night Summit. O empresário ucraniano é muito direto quando tem de dizer porque veio até Lisboa este ano. “I want to sell my butt”. Não há uma boa tradução para explicação tão refinada, mas o que Dmytro quer dizer é que fará o que for preciso para conseguir a atenção dos três investidores com quem se quer encontrar especificamente. Para se destacar do mar de gente que quer dar nas vistas, o ucraniano mandou fazer umas caixas com preservativos personalizados. Como o principal produto da empresa dele é um serviço de VPN (redes privadas dentro da internet) e isso requer boa segurança, cada preservativo tinha um slogan metafórico: “Seguro em todo o lado”. Mas a alfândega da Ucrânia não achou tanta graça à ideia e não o deixou viajar até Lisboa com o inovador contracetivo.

Se tivesse deixado, Dmytro provavelmente o experimentaria durante a estadia na capital portuguesa. Entre algumas gargalhadas e sem o admitir explicitamente, o rapaz de vinte e muitos anos lá vai dizendo que já tem a conversa preparada para as poucas raparigas que por ali se veem. “O que acontece na Web Summit fica na Web Summit?”, perguntamos. “Sim, sim, sim!”

Os homens, de facto, estão em larga maioria. Alguns não perdem a oportunidade de apertar a mão ou entregar um cartão de visita sempre que veem o crachá verde. Outros integram-se em grupos já existentes e, de repente, é como se sempre tivessem feito parte deles. “Já conheci mais gente aqui do que na Web Summit”, diz Gonçalo, de uma empresa de marketing online portuguesa, que acabou de dar de caras com Dmytro e parece entusiasmado com a excitação do ucraniano.

Entretanto, e porque Lisboa é muita gente, vão-se misturando pessoas de todas as origens: lisboetas, turistas apanhados no meio do turbilhão, participantes da Web Summit, voluntários que vieram de todo o país só para estarem perto dos ídolos da tecnologia, vendedores de chapéus coloridos, vendedores de droga falsa, os habitués das noites de poesia de um dos bares.

Eshaan Takkar não se envergonha. Antes de se despedir, pede: “Dás-me o teu QR code?” Muitos outros também o fazem, mas não é só pela possibilidade de discutir negócios no chat privado que existe na app da Web Summit. Ao ver a multidão, um rapaz que passa comenta aos berros: “No último dia é que vai ser, dizem que a app é como o Tinder!”

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