Ah, as visitas de estudo. Sempre foram as visitas de estudo. A mania de correr para a fila de trás do autocarro é em tudo semelhante com a competição da melhor máquina fotográfica descartável. Vera Marmelo ganhava sempre. Ou, pelo menos, viria a ganhar mais tarde. Assinalam-se dez anos do v-miopia.blogspot.com, blogue daquela que é seguramente cara conhecida de todos, ainda que possamos não saber de onde, ainda que o rosto escondido atrás da objetiva nos possa trair. Trabalhou – melhor dizer trabalha – com toda a espécie de músicos nacionais, outros internacionais, como Angel Olsen e Thurston Moore, e já esteva em mais concertos em Portugal do que qualquer um de nós, provavelmente. Qual provavelmente, de certeza.

Ou seja, tratemos de conter a inveja, sobretudo em hora de celebração. Sim, que uma década de fotografia de Vera Marmelo (pelo menos com morada online) tem que meter festa. E mete. E tem que meter poster. E mete. Já em 2013 a fotógrafa tinha tratado de fazer um cartaz onde juntava vários retratos de músicos que, à partida, não têm grande relação. Ver Alex D’Alva Teixeira a piscar o olho a Thurston Moore só acontece quando Vera Marmelo diz. Ela que é filha do Barreiro, cidade que está farta de dar provas que a cultura importa e que a música é um lugar seguro por lá.

“Em 2003 e 2004 comecei-me a cruzar com uma série de pessoas que estavam a organizar os seus próprios concertos. Eram pessoas mais velhas, mas eu, que nem uma adolescente fascinada, comecei a escolher aquelas que mais me interessavam”, avisa.

Fala do Out.Fest – Festival Internacional de Música Exploratória do Barreiro, palco que lhe serviu outros voos, rampa talvez seja mais indicado. Foi nesse ambiente familiar, nesse ir a casa à hora de almoço, que conheceu Tiago Sousa, numa altura ideal. O pianista estava a começar a Merzbau, editora online com um catálogo interessante à época (Walter Benjamin, B Fachada, Noiserv…) e chamou Vera Marmelo para dar uma mãozinha. E se havia mãozinha que a barreirense sentia que podia dar era a disparar: “Tinha uma câmara fotográfica pequena e velhinha, dos meus pais, e comecei a fotografar estes concertos de uma forma bastante inconsequente”, confessa.

vera marmelo_ foto

Vera Marmelo

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É claro que o do-it-yourself tem limites, erro será pensar o oposto. Qualquer autodidata, nem que seja por um bocado, tem que ler qualquer coisa, tem que consumir informação que lhe confira mais opções. Era tempo de largar a câmara velhinha dos pais e arranjar uma “câmara a sério, isso e tentar aprender alguma coisa”. Foram-se sucedendo os concertos e os festivais, tanto que a certa altura, como um viciado em leituras precisa de estantes e afins, Vera Marmelo precisou de um lugar onde publicar tanto trabalho. Na edição de 2006 do Out.Fest, como fotografou todas as sessões, decidiu criar o blogue e meter os registos online.

Vera Marmelo às voltas consigo. Isto é, às voltas com um processo de aprendizagem que era mais rápido do que a própria, do que os concertos que fotografava. Quando finalmente teve essa tal câmara mais profissional, aí foi o fungagá da bicharada, e as desculpas já não funcionavam: “Foi aí que me virei para o filme e estou, entre 2004 e 2009, a fotografar sempre com filme, com câmaras analógicas, e a chegar a casa à noite para revelar os rolos na casa de banho, a pendura-los a secar e, na manhã seguinte, a digitalizá-los para meter as fotos no meu blogue”.

A paciência sempre foi amiga do sucesso. E, claro, como nos poderíamos esquecer da componente mais pesada, aquela que grande parte dos bem-sucedidos atribuí como essencial: a sorte.

“Há dois momentos chave que definem quando é que isto deixou de ser uma coisa de miúdos e passou a ser uma coisa maior. A propósito da Merzbau conheço o Walter Benjamin que produziu o primeiro disco de sucesso da Márcia. Nisto conheço o Fachada que se aproxima da FlorCaveira, o facto de começar a fotografar essa malta, muito por desafio do Bernardo, quando eles começaram a ter sucesso fez com que as únicas fotografias que existissem fossem minhas”, avisa.

E OK, até aqui sorte, óbvio, nunca outra coisa. “Depois houve outro momento. Em 2009, o Henrique Amaro, na NOS Discos, convida os Linda Martini para fazerem um disco ao vivo e convida-me para fotografar esse momento para ilustrar a capa do disco. Foi também o Henrique Amaro que me aproximou dos Orelha Negra com quem estive cinco anos em digressão, essa relação deu-me bastante visibilidade. Há ainda o facto de me ter cruzado com o Thurston Moore e com a Angel Olsen. Isto acontece por obra do acaso, as minhas amizades viraram agentes nesta coisa da música e isso abre-me alguma portas”, conclui. Portanto, estamos esclarecidos, a sorte é o nosso grande amor. Mas então, ó Vera, é isso? E as fotografias são normais, género OK?

Não pode ser apenas isso: “Quero acreditar que evoluí e que tenho valor para continuar a fotografá-los. Sim, claro, e a minha personalidade também deve ajudar um bocado. Depois, acho que conta o facto de estar em sítios muito distintos, ao mesmo tempo que fotografo os Acid Mothers Temple, uns japoneses muito fora, também já acompanhei o Jimmy P. E sinto-me tão bem de um lado como do outro, porque estou perante gente que está a fazer música que gosta”, explica. E, pronto, ao menos isso. Ainda corríamos o risco de ir comprar uma máquina descartável só para conhecer Angel Olsen. Ah, a inveja…

Dez anos, dez concertos

O que se segue são dez concertos e as dez respetivas fotografias que Vera Marmelo escolheu como “importantes”, por uma razão ou por outra. “Estas dez fotografias estão longe de ser os concertos mais incríveis, faltam pessoas como o Rodrigo Amarante, o D’Angelo, o Father John Misty ou os Deftones no Tivoli. Mas junto aqui aqueles que mais me caracterizam, pela diferença entre géneros e pessoas”.

Tiago Sousa

“Esta foto é uma das escolhidas para o primeiro poster. O Tiago é um amigo muito importante no início da minha ‘vida’ a fotografar e é também ele o responsável pelo texto que acompanha a primeira publicação. Quando estávamos a olhar para esta foto, depois de lhe dizer que seria uma das que iria aparecer num formato 50x70cm, ele voltou ao passado e lembrou-se que tinha sido um concerto de transição na música que andava a fazer.”

20080705_Tiago Sousa_Maxime

Devendra Banhart

“Sou fã do Devendra há mais de 10 anos e a primeira vez que o vi com Vetiver, a banda do Andy Cabic, que também aparece nesta foto, foi em 2004. É apenas em 2014 que tenho a hipótese de o conhecer pessoalmente. E esta noite foi especial, num sítio especial e marca uma série de datas que guardaremos para sempre na minha história com a ZDB, que organizou a noite.”

20150529 Devendra Banhart e Andy Cabic _ Sociedade de Geografia pela ZDB

Angel Olsen

“Sou fã da Angel. Este concerto foi o segundo da primeira passagem dela em Portugal em nome próprio. Foi um concerto muito generoso, muito despido e corajoso. Este ano, com a saída do seu novo disco My Woman, saíu um 7” extra e são fotos minhas, deste concerto, que fazem a capa.”

20150909 Angel Olsen - ZDB

The Parkinsons

“Quem ali vai em braços é o Renato. E acho que esta é a fotografia que melhor ilustra o que é o Barreiro Rocks. Este concerto dos Parkinsons acontece na edição do Barreiro Rocks em que se comemorou o 15º aniversário do Festival. Uma edição memorável e um concerto inacreditável.”

20151205 concerto dos Parkinsons Barreiro Rocks 2015

The Dirty Coal Train

“Adoro os Dirty pela cumplicidade entre os dois guitarristas, a Beatriz e o Ricardo. Nesta data tinha na bateria o Kaló, um dos incríveis de Coimbra. Abriam para os The Parkinsons, numa noite para lá de esgotada.”

20160206 The Dirty Coal Train - Sabotage

Pista com Alex D’Alva Teixeira.

“Sou amiga dos membros dos Pista desde os 14 anos. E quase que conheci o Alex com 14 anos. Deixa-me sempre super feliz a presença do Alex nos concertos de Pista. É nestas alturas que sinto o Cláudio mais solto, para libertar toda a sua magia nas guitarras e o Alex livre para mostrar todo o seu passado musical, que é muito mais do que a Pop a que hoje o associam. É um monstro em palco.”

20160715 Pista com Alex DAlva TEixeira SBSR 2016

Thee Oh Sees

“Esta edição do Reverence foi, a par da de 2015 quando lá fui pela primeira vez, uma mistura de momentos entre amigos e música incrível. Já havia visto os Thee Oh Sees numa noite incrível na ZDB, mas vê-los em linha, na meirinha daquele palco alto, com os dois bateristas completamente em sintonia, foi inesquecível. E o John Dwyer é um frontman que está aí para as curvas.”

20160908 Thee Oh Sees Reverence Valada 2016

Filipe Sambado e Primeira Dama

“O Sambado decidiu dar um concerto com uma banda de 6 pessoas, antes da apresentação do disco do Alek Rein, numa noite de ZDB cheia de amigos. Foi maravilhoso ver toda aquela gente em palco e o Primeira Dama que aparece nesta foto dá uma lição de livreza muito especial a todos os presentes. Têm mais de 10 anos de diferença entre eles mas uma cumplicidade que valorizo muito hoje em dia. Nesta facilidade dos mais novos entrarem e tomarem conta do pedaço sem problemas.”

20160930 Filipe Sambado e Primeira Dama _ ZDB

Systemic Violence

“O homem da frente dos Systemic é um amigo de anos do Barreiro, que me chateou durante uns bons meses para os ir ver e fotografar. Foi o melhor que fiz. Nada me anima mais hoje em dia que me meter em concertos que, à primeira vista, não seria uma escolha musical minha. O público, a cena envolvente entusiasma-me tanto quanto a música. Vou voltar a vê-los dia 16 de Dezembro, só porque me apetece aquela chapada de energia punk.”

20161031 Systemic Violence - Sabotage

Selma Uamusse

“Conheço a Selma dos tempos do Técnico. Demorei demasiado tempo a conseguir apanhar um concerto dela a solo e arrependo-me profundamente. A energia e a generosidade da Selma é inesgotável. Vê-la ao vivo é obrigatório. Que me desculpe a frente de sala do CCB mas fotografei o tempo todo, na fila da frente, naquele lugar ao centro que parecia estar à minha espera.”

20161102 Selma Uamusse - CCB Misty Fest