Nome: “A Estrada Subterrânea”
Autor: Colson Whitehead
Editor: Alfaguara
Páginas: 384
Preço: 19,90€

No seu mais recente romance, Colson Whitehead baseia-se nas histórias das Underground Railroads americanas (uma rede de rotas e esconderijos clandestinos construídos ao longo do sul dos Estados Unidos para proteger e ajudar escravos fugitivos) para contar a história de Cora, uma escrava em fuga ao longo da Estrada Subterrânea que, ao contrário da sua correspondente histórica, funcionaria mesmo através de carris colocados em túneis.

A premissa do romance permitirá a Whitehead construir uma narrativa que o próprio reconhece ser inspirada nas viagens de Gulliver, já que, à medida que Cora percorre os diversos estados dos Estados Unidos, pelos quais o seu itinerário passará, encontrará diferentes reacções à sua presença, bem como diferentes maneiras de encarar a escravatura. Esta construção swiftiana será, porventura, a maior virtude do livro, uma vez que revelará a monstruosidade da atitude de estados abolicionistas e aparentemente tolerantes. Ao chegar à Carolina do Sul, Cora descobrirá que, apesar de não haver perseguição ou escravização da população negra, as mulheres negras, supostamente em nome de um bem maior, são esterilizadas à força a partir do segundo filho, para assim se protegerem de eventuais doenças e da fúria dos homens brancos que veriam no crescimento do número de negros uma terrível ameaça à sua subsistência. Quando se apercebe deste plano de eugenia, Cora conclui argutamente que ao cruzar a fronteira com a Geórgia não entrou num estado que a encara de uma forma mais humana, mas apenas que deixara de ser vista como propriedade para passar a ser vista como gado. Cora perceberá então que um escravo será sempre um escravo e que o mais a que pode aspirar é apenas a breves momentos de libertação. A Estrada Subterrânea será assim a história da busca de uma terra prometida inalcançável, sempre mais a norte, “como se no mundo não existissem lugares para onde escapar, apenas locais de onde era preciso fugir” (página 313).

Whitehead tem ainda o inegável mérito de escrever uma história sobre a escravatura sem criar uma divisão entre bons e maus, índios e cowboys. Em A Estrada Subterrânea não existe forçosamente uma comunidade fraterna e bondosa entre aqueles que sofrem, já que os escravos podem ser tão maldosos quanto os fazendeiros seus donos. O exemplo máximo desta fuga a um maniqueísmo é talvez o de Ridgeway, o caçador de escravos que parece sempre simpatizar muito mais com as suas presas do que com os seus patrões, e Homer, a criança negra que se recusa a abandoná-lo.

O romance apontará sempre para a violência sofrida por Cora e pela restante população negra, bem como para o pouco valor que lhes é atribuído. Cora deixará involuntariamente um enormíssimo rasto de sangue à sua passagem, sendo as descrições a esse respeito sempre bastante gráficas. No entanto, ao procurar demonstrar a gratuitidade da violência, bem como a precariedade da vida dos escravos, Whitehead recorrerá frequentemente a um mesmo truque que, por isso, se torna bastante incomodativo. Whitehead, uma e outra vez, irá isolar numa frase extraordinariamente curta os elementos geradores de problemas para que assim se torne clara a sua respectiva insignificância. Quando Cora começa a desesperar com a possibilidade de um reordenamento de território que lhe retire parte do jardim, Whitehead resume a situação dizendo: “Três míseros metros quadrados” (página 30). Quando Chester se prepara para ser chicoteado por ter entornado uma gota de vinho em cima do seu patrão, Whitehead escreve: “Uma gota” (página 50). Quando Cora se prepara para fugir pela calada da noite do sítio onde vivera a vida inteira deixando para trás tudo o que tem (uma pilha de pedras azuis), Whitehead descreve esta tensão numa só frase: “A sua despedida” (página 74).

Em A Estrada Subterrânea, Whitehead abusará também das metáforas, quase sempre previsíveis e desinteressantes. Se alguém é colocado num outro ponto da fazenda, a cabana de que saíra fica “ali tão perto e ao mesmo tempo tão longe” (página 29). Tal como perto permanecem os mortos que, apesar da sua partida, “continuavam com eles” (página 265), a vigiá-los de um céu nocturno que é, para os escravos fugitivos, “a melhor refeição que alguma vez [saborearam]” repleta de estrelas “suculentas e maduras” (página 186). No entanto, e ao contrário das estrelas maduras, as flores do ramo de uma jovem escrava murcham e perdem as pétalas quando esta é separada à força da sua família.

Existe ainda um problema no romance de Whitehead ao qual o romancista é, todavia, inteiramente alheio. A versão portuguesa do romance está repleta de opções de tradução muito difíceis de compreender, que prejudicam em demasiados momentos a compreensão da narrativa e que serão de seguida elencados de forma não exaustiva.

Na página 51, a palavra ‘picker’ (alguém que trabalha na apanha, neste caso, do algodão), é traduzida por ‘homem’, o que não levantaria qualquer problema se esse mesmo ‘homem’ não se chamasse Bertha. Algumas páginas antes, lê-se que “Os corredores foram ter com Jockey depois de terem corrido e eu depositei um pedaço de bolo de gengibre na palma das mãos dele” (página 39). Ao lermos isto, estranhamos imediatamente que apareça pela primeira e única vez no romance uma sugestão de que o narrador é afinal uma personagem, cuja identidade ficaria para sempre por revelar, e que, sem motivo aparente, colocaria na palma das mãos de Jockey um pedaço de bolo. Confrontando com o original, percebemos que o ‘eu’ é afinal um ‘he’ (o próprio Jockey), que colocara o pedaço de bolo na palma das mãos dos corredores (‘onto their palms’). Ao narrar os primeiros tempos de Cora em Indiana, Whitehead descreve a reacção da antiga escrava aos tiques afectados das senhoras de Delaware. Diz-nos o escritor que “Cora já observara alguns [tiques] em Valentine e não se preocupara com essa peculiaridade regional, mesmo quando todos se remetiam ao silêncio” (página 290). Esta frase incompreensível sob qualquer ponto de vista não corresponde minimamente ao original, onde se lê que “Cora had met a few of them and didn’t care for [não simpatizava com e não não se preocupara com] that regional peculiarity, even if they knew how to bake a good pie [ainda que soubessem fazer uma boa tarte e não, por incrível que pareça, mesmo quando todos se remetiam ao silêncio]”.

Mais à frente, onde no original se lê “There was frequent talk now of lighting out West”, a versão portuguesa opta por escrever “Agora eram frequentes as conversas acerca da luz que brilhava no Oeste” (página 301), transformando uma discussão acerca da necessidade urgente de fuga (‘to light out’) dos escravos para Oeste naquilo que poderia ser uma conversa entre turistas no Chiado acerca da célebre luz de Lisboa. Já perto do fim do romance, quando Cora parecia ter por fim encontrado um refúgio na quinta Valentine, lemos que “Royal parecia estar ao lado dela” (página 304), quando deveríamos ler “Royal apareceu de repente ao lado dela”, uma vez que Whitehead escreveu “Royal suddenly appeared at her side”. Finalmente, na penúltima página, encontramos a pergunta “Shall we catch up?” traduzida não para um “Vamos alcançá-los?” ou qualquer coisa parecida, mas antes para “Vamos tratar de te matar a fome?”.

João Pedro Vala é aluno de doutoramento do Programa em Teoria da Literatura da Universidade de Lisboa.