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A primeira história do escândalo que está a abalar a NBA é exemplo paradigmático do que se passou durante 18 anos nos Dallas Mavericks, quando Terdema Ussery era presidente executivo (CEO) da equipa finalista vencida em 2006 e campeão em 2011.

A cerca de uma hora do início de um jogo no Americana Airlines Center, uma funcionária do staff da equipa que tinha sido contratada há pouco tempo estava a jantar na sala de refeições dos media. Depois de se ter sentado, Ussery perguntou se poderia juntar-se. Começou a ficar nervosa, não por ser o chefe do seu chefe mas pela reputação que tinha em casos de assédio sexual. Na conversa, o CEO insinuou que iria participar numa orgia durante o fim de semana; ela respondeu, a tentar desviar o tema, que iria ao cinema com amigos. Ussery voltou a falar na participação numa orgia. Quando tinha aceitado entrar na organização, em 2010, a mesma funcionária tinha recebido uma espécie de alerta de uma colega: “Cuidado com o presidente. O que quer que faças, não fiques presa no elevador sozinha com ele”. Mas este é apenas um dos muitos relatos numa investigação levada a cabo pela Sports Illustrated e que chegou esta quarta-feira a público.

A festa dos Dallas Mavericks, equipa que se sagrou campeã da NBA em 2011 frente aos Miami Heat (Ronald Martinez/Getty Images)

“Casa de animais”, “Zoo”, “Não me sentia segura quando ia trabalhar” e “Cultura corporativa cheia de misoginia e abusos sexuais” são algumas das acusações feitas ao longo do trabalho (aqui sintetizadas pela Marca), que ouviu várias funcionárias da organização na altura em que Ussery foi CEO dos Mavericks, que têm como acionista principal desde 2000 Mark Cuban. “Trabalhando com jogadores nunca tive problemas, até me relaxava, mas quando ia para os escritórios as coisas pioravam”, defendeu uma das antigas funcionárias ouvidas na reportagem, citada pelo El Mundo. Além do antigo CEO, também o responsável pelo site, Earl Sneed, foi acusado de assédio sexual e encontra-se nesta altura suspenso.

“Recebemos toda essa informação sobre a violação da conduta e do comportamento da organização no local de trabalho, onde se refere que um antigo responsável estará implicado em vários atos de conduta inapropriada com mulheres ao longo de vários anos. Essa pessoa deixou o seu emprego nos Mavericks há quase três anos e só soubemos do alcance dessas queixas há uns dias”, escreveram os Dallas Mavericks em comunicado, anunciando ainda a abertura de uma investigação interna.

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“Tudo isto é novo para mim. O único conhecimento que tinha era de ouvir que andavam à procura de algumas coisas. Baseado no que li aqui, acabámos de despedir o nosso responsável dos Recursos Humanos. Não tenho qualquer tipo de tolerância com o que li. É uma situação errada, abominável. Já nem sei quantas vezes, sobretudo desde o início do #MeToo, perguntei ao nosso diretor dos Recursos Humanos se tínhamos algum tipo de problema ou alguma situação dessas que tivesse conhecimento. A resposta dele foi sempre a mesma: ‘não'”, comentou o “envergonhado” Mark Cuban, milionário que chegou a ser apontado mais do que uma vez como possível candidato à Casa Branca nos últimos anos, à Sports Illustrated.

Também a própria NBA emitiu um comunicado sobre o assunto, assinado pelo vice-presidente executivo para a Comunicação, Mike Bass. “Os Dallas Mavericks informaram-nos sobre as alegações que envolvem o ex-CEO Terdema Ussery e o readator do Mavs.com Earl Sneed. A alegada conduta vai contra o compromisso da NBA. Este comportamento é completamente inaceitável e iremos monitorizar de perto a investigação independente a esse propósito”, destacou.

Por seu turno, Ussery, na primeira reação ao escândalo, referiu que as acusações eram falsas. “Estou muito dececionado com essas fontes anónimas que fizeram essas acusações falsas contra mim. Em todo o meu percurso nos Mavericks, a minha conduta foi sempre íntegra e empática com os meus companheiros”, assegurou o antigo responsável pela parte desportiva da Under Armour, que se demitiu três meses após ter aceite o cargo por problemas com uma funcionária.