Apesar de ter vencido de forma inequívoca as eleições legislativas italianas deste discurso, graças a um discurso de crítica constante do statu quo político, o Movimento 5 Estrelas (M5E) só pode subir ao poder se sucumbir a um dos vícios que mais critica aos partidos do establishment: quebrar promessas políticas.

Desde sempre, o M5E fazia da sua rejeição de qualquer acordo com as outras forças políticas um ponto de honra. Porém, os números são incontornáveis. Na Câmara dos Deputados, o partido liderado por Luigi Di Maio conquistou 221 assentos, ficando a 95 da maioria. No Senado, ficou-se pelos 112 deputados, o que deixa a 49 de controlar a câmara alta do parlamento italiano.

Assim, é evidente: se quiser governar, o M5E terá de chegar a um entendimento com algum partido. Foi isso que o deputado do M5E disse na noite eleitoral quando, pouco depois de serem conhecidas as primeiras projeções, disse: “Ninguém poderá governar sem o Movimento 5 Estrelas”. Ora, entre todas as opções disponíveis, há duas forças políticas que se destacam entre os possíveis aliados de um governo liderado por Luigi Di Maio: o Partido Democrático (PD) e a Liga.

Partido Democrático pode dar a mão ao M5E, mas só por cima de Renzi

Uma das notícias que marcaram a segunda-feira pós-eleições foi a demissão sui generis de Matteo Renzi. O ex-primeiro-ministro assumiu a derrota (o PD teve 18,7% na Câmara dos Deputados e 19,1% no Senado), para a qual muito contribuiu a subida do M5E: estima-se que um terço dos eleitores do PD tenham fugido para aquele partido.

“Deixo a liderança do partido porque é preciso começar uma nova etapa”, disse em conferência de imprensa, esta segunda-feira. No entanto acrescentou: “Isto terá efeito quando terminar a a fase de instalação do novo parlamento e a formação do novo governo”. Esta manobra de Matteo Renzi, que causou estranheza e até algum desagrado dentro do próprio partido, pode funcionar como uma manobra para evitar que o PD facilite a aprovação de um governo do M5E.

Essa foi, aliás, uma promessa do ex-primeiro-ministro na conferência de imprensa desta segunda-feira. “Não faremos nenhum acordo”, disse. “Dissemos durante a campanha eleitoral ‘não’ a um governo com os extremistas e não mudámos de ideias nestas 48 horas.”

Porém, isto não quer dizer que dentro de alguns setores do PD não se comece já a pensar na maneira de chegar a acordo com o M5E. Segundo o La Stampa, o próprio Matteo Renzi teme a formação de um movimento dentro do próprio PD cujo objetivo seja chegar a um entendimento com o M5E, impedindo assim que este se apoie à sua direita, na Liga. Ainda de acordo com aquele jornal, os propulsores desse movimento — a que se deu o nome de “Partido de Sérgio Mattarella”, o nome do Presidente, que tem pela frente a difícil missão de designar um candidato a primeiro-ministro — são dois pesos pesados PD. Trata-se do ministro da Cultura e do Turismo, Dario Franceschini, e do atual primeiro-ministro, Paolo Gentiloni.

Também a AGI escreve que, dentro do M5E, o PD é visto como o parceiro ideal para um possível entendimento de governo. No entanto, essa possibilidade pode ser deixada para trás, ou colocada em stand-by, caso haja um desentendimento entre o Força Itália (FI) e a Liga, que contra as expectativas se tornou no maior partido da coligação de centro-direita. Nesse caso, o jogo abre ainda mais para o M5E.

Além de alguns setores do PD, também há outro partido do centro-esquerda disponível a dialogar com o M5E. Trata-se do Livres e Iguais (LI), composto por ex-militantes do PD e dissidentes da linha de Matteo Renzi. Já durante a campanha, o partido fundado Pietro Grasso para concorrer a estas eleições já tinha admitido essa possibilidade. Agora, os 14 deputados e 4 senadores com que se estreia no parlamento italiano podem ajudar a consumá-la.

Para já, a Liga segura a coligação de centro-direita — mas até quando?

As eleições de domingo não foram apenas marcantes pelo facto de o M5E se ter tornado o primeiro partido de Itália. Na área do centro-direita, também ocorreu uma transformação que pode ter efeitos a médio-prazo na política italiana. Isto porque, até domingo, ao centro-direita havia uma certeza já desde a primeira metade da década de 90: o FI, de Silvio Berlusconi, faria uma coligação com outros partidos à sua direita, acabando sempre por ficar acima deles. Assim, falar de centro-direita era, na prática, falar de Silvio Berlusconi.

Esses dias parecem agora ter chegado a um fim. No domingo, o centro-direita tornou-se no maior bloco político do país, ao conquistar 37% dos votos na Câmara dos Deputados e 37,4% no Senado. Mas, dentro deste números, houve uma surpresa. A Liga, liderada por Matteo Salvini, conseguiu arrecadar 17,4% dos votos para a Câmara dos Deputados e 17,6% para o Senado. Enquanto isso, atrás, ficou o FI, com 14% e 14,4%, respetivamente.

Esta era já uma possibilidade, embora tida como menos provável nas sondagens — mas, ainda assim, uma possibilidade. Por isso, durante a campanha ficou claro na coligação de centro-direita que, se a Liga ficasse em primeiro naquele bloco político, o candidato a primeiro-ministro seria Matteo Salvini — e não a pessoa escolhida por Silvio Berlusconi, já que ele próprio está legalmente impedido de desempenhar cargos públicos até 2019.

Para já, Matteo Salvini garantiu que vai segurar a coligação do centro-direita — e, com isso, a sua posição como candidato a primeiro-ministro e líder do maior bloco político. “Foi a coligação [de centro-direita] que venceu, é a coligação que deve governar”, disse esta segunda-feira. “Leio nos jornais sobre a construção [de coligações ou entendimentos]. É falso.”

Para chegar ao poder, o centro-direita precisará sempre da ajuda de outros partidos — o que, neste momento, é pouco claro que venha a acontecer, sobretudo com Matteo Salvini à cabeça. Assim, perante um hipotético impasse, o líder da Liga terá de decidir se prefere manter o seu protagonismo como candidato a primeiro-ministro do centro-direita ou se admite dar a mão ao M5E e assim ter influência na governação do país.

Embora os seus eleitores sejam diferentes e até diametralmente opostos — a Liga é mais popular a Norte, tendo subido a custo dos votos que outrora pertenciam à FI; o M5E triunfou a Sul, graças aos votos que roubou ao PD —, há pontos programáticos onde os dois partidos podem chegar a entendimento. A segurança, imigração, o euroceticismo e o desejo de reatar relações com a Rússia são causas que unem estes dois partidos — e que podem servir de base para um entendimento de base populista.