Educação

Só metade dos alunos termina a licenciatura em quatro anos

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Ter média alta na altura de entrar na faculdade influencia taxa de sucesso no percurso académico. Estudos dos pais não contribuem para maiores taxas de abandono do ensino superior.

A percentagem de mulheres que se diplomaram em 4 anos (60%) é muito superior à percentagem entre os homens (40%)

AFP/Getty Images

O que acontece aos alunos quatro anos depois de terem iniciado uma licenciatura de três? A maioria, ou não completou o curso, ou abandonou o ensino académico, ou transferiu-se para outra licenciatura. E só menos de metade dos alunos (46%) conseguiram levar o curso até ao fim. A nota, mais ou menos alta, com que entraram no curso pretendido, tem influência determinante no número de anos que os estudantes precisam para se licenciar.

Os dados são da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) que durante quatro anos analisou o percurso académico de todos os alunos que em 2011/12 se inscreveram, pela primeira vez, no 1.º ano de licenciaturas com duração teórica de três anos.

Os números de abandono são altos: 29% dos estudantes não se encontravam a frequentar o ensino académico português quatro anos depois de terem entrado no ensino superior. Por outro lado, 14% continuavam a tentar chegar ao fim da sua licenciatura, enquanto 11% faziam o mesmo, mas num curso diferente do inicial.

Em relação aos primeiros, os autores do relatório da DGEEC, Patrícia Engrácia e João Oliveira Baptista, fazem uma ressalva: “Esta situação incluirá também casos em que o estudante continuou os seus estudos superiores no estrangeiro, e casos em que o aluno não foi encontrado como inscrito por razões técnicas.” Mas acreditam que estas situações serão marginais no universo total de alunos considerados.

Para perceber o que motiva as taxas de abandono e de sucesso, os investigadores da DGEEC olharam para vários fatores, como a nota de entrada no curso. E quando se olha para a classificação do aluno no concurso nacional de acesso, a conclusão é só uma: quem entra com notas mais altas tem maior probabilidade de concluir o curso e de fazê-lo dentro do prazo esperado.

“É impressionante constatar a regularidade e a força com que as taxas de abandono e de conclusão dos cursos dependem da classificação do aluno à entrada do ensino superior”, defendem os autores no relatório, acrescentando que os dados recolhidos “não deixam grandes dúvidas sobre a importância do nível de preparação escolar dos alunos para o seu posterior sucesso no ensino superior”.

A média conta para o sucesso, os pais não

De facto, se entre os alunos que entraram no ensino superior com 18 valores, a esmagadora maioria (74%) tinha terminado o curso ao fim de quatro anos, entre os que ingressaram com 10 valores o número sofre uma queda abrupta: só 19% tinham concluído a licenciatura até 2014/15, enquanto mais de metade (54%) tinha abandonado os estudos.

A este respeito, os autores deixam um alerta e uma recomendação. Em primeiro lugar, e ressalvando que o relatório olha para grandes populações de alunos, lembram que os dados “não implicam que a nota de ingresso pré-determine, fatalmente, o futuro sucesso ou insucesso no ensino superior” do aluno. Estes resultados, explicam, apontam apenas probabilidades globais de sucesso, havendo “inúmeras e saudáveis exceções”.

Por outro lado, havendo essa correlação entre entrada no curso superior com uma nota baixa e insucesso ou abandono do percurso académico, lembram que há aqui uma oportunidade das instituições de ensino superior darem especial atenção a estes alunos.

Um aluno que ingresse com classificação de 10 ou 11 tem, logo à partida, um risco de insucesso merecedor de uma sinalização e monitorização mais próximas do seu progresso, o que na realidade nem sempre acontece”, argumentam.

Outra variante determinante para sucesso académico, é a via percorrida pelo aluno antes de chegar ao ensino superior. Quem segue o regime geral de acesso tem maiores probabilidades de completar o curso do que quem chega à faculdade pela via do regime especial para maiores de 23 anos. Entre os primeiros, mais de metade tinha o curso concluído ao fim de quatro anos, enquanto que só 30% de quem segue o ensino de adultos tinha conseguido o mesmo feito.

Quanto ao abandono, um em cada dois alunos tinha desistido do seu curso quando a via seguida foi o regime especial para maiores de 23 anos. Para os alunos do regime geral, só um em cada cinco alunos (21%) abandonou o ensino superior sem ter alcançado o grau superior.

E a escolaridade dos pais? Contará também para o insucesso escolar dos filhos? “No caso do ensino básico, o nível de escolaridade dos pais tem uma correlação extremamente forte com os resultados escolares dos alunos. Alunos oriundos de contextos favorecidos têm, em média, resultados francamente superiores aos dos seus colegas de contextos desfavorecidos”, escrevem os autores do relatório. Os resultados no ensino superior não são exatamente os esperados.

Embora se veja que há menores taxas de abandono no caso de alunos que têm pais com um grau superior, “não se observa uma correlação significativa entre o nível de escolaridade dos pais e as percentagens de conclusão da licenciatura em quatro anos”.

Aliás, sublinham os autores do relatório da DGEEC, “os filhos de pais com grau superior não concluíram as suas licenciaturas mais rapidamente do que os filhos de pais com o ensino básico (9.º ano ou menos), pois evidenciam uma maior propensão para se transferirem de curso a meio do seu trajeto no superior. As percentagens mais elevadas de conclusões em quatro anos registaram-se, curiosamente, no grupo dos filhos de pais cujo nível de escolaridade equivale ao 6.º ano completo”.

Mulheres continuam à frente dos homens

“Será que no ensino superior português as raparigas continuam a apresentar melhores indicadores de sucesso académico do que os rapazes? Ou será que, entre a população de alunos já muito filtrada que chega ao ensino superior, os desempenhos escolares dos alunos de ambos os sexos são comparáveis?”, questionaram Patrícia Engrácia e João Oliveira Baptista.

A conclusão está em linha com aquilo a que se tem assistido nas últimas décadas ao nível do básico e secundário. Os resultados das mulheres são brutalmente melhores do que os dos homens. Entre as alunas, 60% tinha completado o curso ao fim de quatro anos e só 17% tinha abandonado o curso. Entre os estudantes do sexo masculino, só 40% chegaram ao fim da licenciatura e um quarto deles (25%) desistiu dos estudos.

Alunos deslocados têm mais sucesso

Para terminar, o relatório analisa ainda outros três fatores: ter ficado colocado ou não na primeira opção de curso escolhido, a área do curso escolhido e ser um aluno deslocado geograficamente da sua área de residência atual.

Em relação ao primeiro facto, os investigadores concluem não haver ligação entre taxas de abandono e ficar ou não no curso escolhido em primeiro lugar.

Entrar no ensino superior em sexta opção não leva, em média, a uma maior probabilidade de abandono futuro do que entrar em primeira opção. Um facto que, à partida, não seria óbvio. Entrar em sexta opção leva, isso sim, a uma maior probabilidade de futura transferência para outro curso, o que é bastante compreensível”, concluem.

Quanto à área de formação, verifica-se que quem segue cursos de Serviços Sociais, Saúde ou Jornalismo tem maior probabilidade de acabar o curso dentro do prazo esperado. Entre os estudantes de Serviços Sociais — que incluem cursos como Educação Social, Serviço Social ou Animação Sociocultural — 75% tinham já o seu diploma ao fim de quatro anos. Na Saúde, o valor desce para 70% e em Jornalismo para 69%. No outro extremo, estão os alunos de Informática (22% concluem o curso em quatro anos), Engenharia (33%) e Arquitectura (35%).

Quanto aos alunos deslocados — “que envolve um certo desenraizamento social do indivíduo e, geralmente, custos financeiros adicionais para o seu agregado familiar” —, não só este fator não pesou no abandono como, em contrapartida, leva a níveis de sucesso relativamente maiores.

E esta situação verificou-se, quer em universidades, quer em politécnicos e em qualquer zona do país. A explicação? “O melhor desempenho escolar no ensino superior dos alunos deslocados parece ser um fenómeno robusto e transversal. Mas como explicá-lo? Apenas podemos oferecer uma hipótese plausível mas não testada: a hipótese de a disponibilidade para deslocação regional, por parte de um aluno, implicar a priori uma motivação para os estudos já razoavelmente forte, em comparação com a média dos seus colegas que preferiram não se deslocar, motivação essa que não se deixará de refletir também no seu desempenho escolar no ensino superior”, conclui-se no relatório da DGEEC.

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João Pires da Cruz
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