Antes da notícia em si, impõe-se uma contextualização, para que o leitor possa tirar as suas próprias conclusões, em resposta à questão que dá título a este artigo.

Por um lado, temos o cerco aos diesel, com cada vez mais cidades a impedir ou a restringir a circulação de veículos movidos por este tipo de combustível, com tudo o que isso aportou de instabilidade junto do consumidor. Resultado: o mix de combustíveis está a alterar-se, com os automóveis a gasóleo a perderem terreno para os gasolina ou para uma ainda escassa e pouco competitiva oferta de modelos mais amigos do ambiente, 100% eléctricos ou com algum tipo de electrificação.

Por outro lado, temos as imposições europeias, com uma regulamentação que fixa metas cada vez mais apertadas em termos de emissões de CO2, num calendário que se vai agravando progressivamente e cujo incumprimento está associado a sanções com que os fabricantes terão de arcar.

Gasolina em vez de diesel obriga a pagar milhões

Ora, somando um lado e outro, os construtores têm vindo a queixar-se que o cumprimento dessas tais metas de emissões é praticamente impossível, num cenário em que os diesel perdem quota a cada dia que passa, o que explica o aumento das emissões de CO2. Dizem ainda os fabricantes que as multas a que se arriscam podem mesmo pôr em causa o futuro do sector. Se tudo isto é lógico, é também verdadeiro? Um relatório da Federação Europeia dos Transportes e Ambiente (T&E), diz que não.

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Ao contrário do que têm vindo a afirmar, a maioria dos fabricantes automóveis vai conseguir atingir as metas de emissão de dióxido de carbono em 2021 mas, para evitar a adopção de metas ainda mais exigentes para 2025 e 2030, agora em discussão na União Europeia, a indústria automóvel tem atrasado o lançamento quer de veículos eléctricos quer de versões mais eficientes dos carros a combustão, para que possam escoar os seus modelos mais antigos e menos eficientes”, alerta a portuguesa Quercus.

A associação ambiental portuguesa não só integra a T&E, como o seu membro João Vieira é vice-presidente da instituição que serve de umbrella europeia para organizações não governamentais que defendem a promoção de transportes mais sustentáveis do ponto de vista ambiental.

A T&E entende que toda a discussão gerada à volta das sanções em que incorrem os fabricantes automóveis, caso excedam os limites impostos em termos de emissões, não passa de uma espécie de circo que visa penalizar os consumidores, obrigando-os a gastar mais dinheiro em combustível, quando poderiam poupar se, efectivamente, fossem colocados no mercado modelos menos poluentes, como os eléctricos ou os híbridos plug-in. Sucede que, acusa a T&E, os construtores estão propositadamente a atrasar o lançamento desse tipo de automóveis, “enquanto nos ‘empurram’ SUV obsoletos, muito poluentes e potentes, para maximizar os seus lucros”.

A confirmar esta tese, a T&E faz notar que dos 50 modelos mais vendidos, apenas quatro vão ser actualizados em 2018, quando em média, há sete actualizações por ano. Em contrapartida, em 2019 e 2020, serão relançados 21 “como modelos mais económicos e com baixo consumo de combustível”.

Para além disso, critica a T&E, o lançamento de eléctricos a bateria “também tem sido adiado”. Deverá quintuplicar para 100, mas só em 2021, atirando para essa data a possibilidade de os consumidores terem à sua disposição um leque mais alargado de opções, com maior autonomia e maior concorrência entre marcas. Tudo isto para quê? Segundo a associação, para que as marcas possam continuar a escoar, enquanto podem, “os seus modelos mais antigos e menos eficientes”.

Ainda de acordo com o relatório da Federação Europeia dos Transportes e Ambiente, “a maioria dos fabricantes europeus, excepto a Fiat, deverá cumprir os valores-limite de emissão de CO2 definidos pela União Europeia para 2021 – em parte, vendendo mais veículos plug-in”.