Perfumes

A ciência por trás dos perfumes com “cheiro a chuva”

Há várias fragrâncias com "cheiro a chuva". É o aroma que paira no ar depois da chuva cair em solos que estiveram secos durante algum tempo. Mas afinal de onde vem este cheiro característico?

O apego ao "cheiro a chuva" está associado ao facto de os nossos antepassados terem dependido dela para sobreviver.

AFP/Getty Images

Autor
  • Catarina Gonçalves Pereira

Quem nunca ouviu falar do “cheiro da chuva”? Aquela fragrância bem característica que acompanha as primeiras chuvadas depois de algum tempo de seca? Sim, essa mesmo que está a pensar. Na Índia, já há cerca de 40 perfumarias que engarrafam este “cheiro da chuva” a que chamam “mitti attar” — mas não é de agora. Na verdade, já se faz desde 1911.

O ser humano e até os animais respondem positivamente a este aroma como se de um sinal de vida se tratasse, afirma a antropóloga Diana Young, da Universidade de Queensland, Austrália. Na investigação que conduziu, observou que o povo Pitjantjatjara, da Austrália Ocidental, associa esse cheiro à cor verde — uma ligação entre o olfato e a visão associada à expetativa de crescimento, a que se chama de “sinestesia cultural” e que, segundo a mesma,todos partilhamos“.

Alguns cientistas acreditam que o apego do ser humano ao odor da chuva está associado ao facto de os nossos antepassados terem dependido da chuva para sobreviver, mesmo que hoje em dia muitas pessoas nunca tenham sequer criado os seus próprios alimentos e gado. Na verdade, é como se o sentimento relativamente ao aroma da chuva fizesse já parte do nosso ADN, deixando-nos muitas vezes nostálgicos, até.

Difere de lugar para lugar e de estação para estação, mas no fim de contas todos o conhecemos e gostamos dele. Por exemplo, o cheiro de uma tempestade acompanhada por trovões é bem distinto de uma chuva mais fraca que ocorra no meio de uma floresta. Mas aquele que conhecemos como cheiro da chuva tem na realidade um nome próprio — petricor (“petri”, do grego “pedra”, e “ichor”, que significa “fluido eterno” ou “sangue dos deuses”).

Este termo surgiu nos anos 60, num artigo escrito por Bear e Thomas para a revista Nature. Nesse artigo, explicam que o cheiro deriva de um óleo produzido por certas plantas durante os períodos de seca, que é depois absorvido pelo solo, bem como por pedras argilosas. O que acontece depois, quando chove, é que o óleo se dissipa juntamente com outro composto, a geosmina — conhecida como “perfume da terra” –, dando origem àquele cheiro característico. Ou seja, o cheiro não provém da água que está a cair, que é inodora, mas sim dos compostos que se encontram na terra.

O que acontece quando as gotas tocam o solo?

Os investigadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que acreditam ter capturado imagens do fenómeno, observaram como as gotas de chuva aprisionam minúsculas bolhas de ar no momento em que tocam o solo.

[No vídeo abaixo pode ver a explicação do fenómeno]

O que acontece é que essas pequenas bolhas “explodem”, produzindo gotículas ou partículas sólidas extremamente finas que ficam suspensas no ar, quase como se de uma névoa ou fumo se tratassem. Essas partículas minúsculas que são libertadas não só espalham o cheiro pelo ar, como também podem espalhar bactérias e vírus.

Os perfumes com “cheiro a chuva”

Desengane-se se pensa que os perfumes com este aroma provêm diretamente da chuva que cai. Não é assim que funciona. Os perfumes que tentam captar o fenómeno natural são combinações de misturas que lembram os diferentes cheiros que são libertados pelas gotas da chuva nos mais variados sítios em todo o mundo.

Provavelmente o mais puro, lê-se no Quartz, é o “perfume da Terra”, fabricado na Índia. Recentemente, produziu-se também  o perfume “Thunderstorm”, da marca Demeter, que capta o “profundo e violento” aroma de uma tempestade de verão, quando a humidade do solo excede os 75% e o cheiro de petricor se sente com maior facilidade.

Mas há também o perfume “Black March”, que lembra “gotas de chuva, folhas, galhos molhados, seiva de árvores, musgo e a mais leve insinuação da primavera”, criado por Christopher Brosius, que recorreu a extratos de beterraba — ricos em gesmina –, e o “Pale Grey Mountain” criado por David Seth. Este último é inspirado numa caminhada que o seu criador fez no norte da Irlanda — “Estava a tentar criar um efeito fresco e transformá-lo na narrativa do que aconteceu [na montanha]. Então juntei algumas rochas cinzentas (…) com materiais aquosos”, disse em entrevista ao Into the Gloss.

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