Os alunos que durante o ensino básico acumulam várias retenções e acabam desviados para outras opções educativas são também aqueles que menos sucesso alcançam nos cursos profissionais do ensino secundário. De acordo com um novo estudo da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), divulgado esta terça-feira pelo jornal Público, um terço dos alunos que não termina o ensino básico pela via dita normal acaba mesmo por abandonar os estudos.

No ano letivo 2016/2017, apenas 35,6% dos 7869 alunos que três anos antes tinham optado pelo ensino profissional depois de completarem o 9.º ano através de uma das ofertas educativas alternativas – Cursos de Educação e Formação (CEF), cursos vocacionais ou Percursos Curriculares Alternativos (PCA) -, tinham concluído o ensino secundário. Por outro lado, 70% dos jovens que tinham terminado o ensino básico pela via regular concluíram o secundário em três anos, ou seja, sem chumbos. E se apenas 6% do segundo grupo acabou por abandonar os estudos, essa percentagem sobe para 30% no caso dos primeiros.

O jornal Público refere ainda que, no ano letivo 2014/2015, 5652 dos alunos que se inscreveram nos cursos profissionais tinham concluído o 9.º através dos CEF, enquanto que 1769 tinham frequentado cursos vocacionais e 448 os PCA. As três opções educativas alternativas têm em comum o facto de terem sido criadas e pensadas para alunos que acumularam várias retenções ao longo do ensino básico. Prova disso é, aliás, a idade média dos alunos provenientes destas soluções que entram no ensino secundário: têm normalmente 17 anos enquanto que os alunos que chegam aos últimos três anos do ensino obrigatório pela via normal não chegam a ter 16.

Para Joaquim Azevedo, um investigador da Universidade Católica consultado pelo Público, estas opções educativas são já por si “soluções de segunda e de terceira”. “O ensino profissional não é um percurso mais fácil que o do ensino geral. Exige, por exemplo, uma clara orientação e vocação”, explica o investigador, que defende que os alunos que completam o ensino básico através de vias alternativas devem depois ser encaminhados para soluções semelhantes no ensino secundário, já que o ensino profissional não serve “para tudo e para todos”. “As escolas não sabem lidar com as crianças que tiveram percursos muito conturbados durante o ensino básico”, acrescenta Joaquim Azevedo.

O estudo da DGEEC aponta ainda para um crescimento da percentagem de alunos que termina o curso profissional em três anos, uma maior taxa de conclusão no tempo normal no Norte, comparada com Lisboa, um maior sucesso das raparigas face aos rapazes e o facto de as classes mais favorecidas só optarem pelo ensino profissional quando os alunos revelam sérias dificuldades nos estudos.