Título: “Metade da Vida”
Autor: V.S. Naipaul
Editora: Quetzal
Páginas: 264
Preço: 17,70€

Metade da Vida, o antepenúltimo romance de V.S. Naipaul, está dividido em dois eixos. No primeiro, conta-se a história da vida do pai de Willie Somerset Chandran, um indiano que renegara o sistema de castas e casara com uma mulher de uma casta inferior, não por amor mas como exercício retórico e político, para assim “virar costas a todas as absurdas esperanças” do seu pai em relação ao futuro. No segundo, conta-se a vida do próprio Willie Chandran. Esta divisão no romance, percebemos rapidamente, é irrelevante, uma vez que aquilo que Naipaul nos está a tentar dizer na história do pai e na história do filho parece ser sempre o mesmo e que Willie, tal como o seu pai antes de si, é apenas uma reacção violenta àquilo de que é herdeiro.

A história do pai é contada, como nos é explicado logo na primeira linha do romance, para tentar justificar o facto de um rapaz indiano ter como nome do meio Somerset. A justificação para um segundo nome tão inusitado prende-se com o facto de o pai de Willie se ter perpetuado na posição que ocuparia a vida toda devido a um erro de leitura de Somerset Maugham, numa visita que o escritor fizera à Índia. Somerset Maugham, ao conhecer o pai de Willie, na altura a cumprir um voto de silêncio, num templo budista, assume que este seria um sábio guru, sem perceber que o monge que louvaria num dos seus livros não passava de um adolescente mimado de castigo. Este erro de leitura traria inúmeros visitantes ao templo do pai de Willie para que o pudessem conhecer, forçando-o desta forma a transformar-se na personagem do escritor britânico.

No entanto, mais do que pelo efeito causado na vida da sua família, o nome de Willie assenta-lhe na perfeição por fazer de Willie um rapaz com um nome desajustado para o sítio onde nasceu, uma vez que Willie, como todas as outras personagens do romance, é a demonstração empírica não só da impossibilidade de uma existência pacífica à margem de um sistema de castas, mas também da ilusão que constitui a ideia de miscigenação segundo Naipaul.

Um amigo, há alguns anos, contou-me que visitou um imponente palácio na Índia acompanhado por um guia turístico, e que este percorreu em poucos minutos todas as divisões do palácio, guiando-o por entre quadros sem oferecer qualquer informação sobre a história que os transportara até lá ou sobre o significado dos mesmos e que não fazia outra coisa senão apontar para mesas de snooker e dizer banalidades como: “game”. O meu amigo contava esta história para descrever o sector turístico indiano como um bando de intrujões. Podemos, no entanto, à luz de Metade da Vida, imaginar que este guia turístico tivesse compreendido argutamente o que Naipaul estava a tentar dizer-nos.

O pai de Willie, quando se decide a casar com a mulher de casta inferior que viria a ser sua mulher, passa dias inteiros sentado com ela sem dizer nada. Passado algumas semanas, a pobre rapariga explica-lhe que o seu tio estava incomodado com os seus encontros, o que leva o pai do protagonista a pensar: “Tio? Senti que ela não tinha o direito de me arrastar para tão desagradáveis profundezas”. Cedo percebemos então que, tal como acontecerá com Willie mais tarde, as pessoas são aqui encaradas apenas como a pontuação do discurso político de um jovem com pretensões revolucionárias. Mas percebemos também que, entre castas diferentes, não há absolutamente nada a dizer. O resumo que é feito de uma conversa de Willie com um jornalista londrino é, deste ponto de vista, o resumo de toda a conversa inter-castas ou intercultural no romance:

“A conversa não foi muito longe. Não tinham nada de que falar. O jornalista perguntou pelo babu; Willie não o corrigiu; e, quando esgotaram esse tema, puseram-se a olhar em seu redor”.

Ao chegar a Londres vindo da sua Índia natal, Willie diz que a capital inglesa era tão diferente de tudo o que conhecia que “não sabia para que é que estava a olhar”. Mais tarde, quando já habitava há mais de uma década em Moçambique, Willie diz que a Moçambique dos anos sessenta lhe lembrava extraordinariamente a Londres dos anos cinquenta, o que mostra a cegueira absoluta que constitui o cosmopolitismo do protagonista.

Esta ideia de miscigenação é, talvez, mais acertadamente resumida por Naipaul no jantar que Roger, a pedido do director do seu jornal, organiza onde se reúne o grupo mais inusitado e multicultural que Roger conseguiu encontrar. No fim do jantar, comovido, o director do jornal agradece aos presentes por lhe terem oferecido “uma visão do mundo muito apartada” da sua. O que o patrão de Roger não percebe é que o jantar não foi outra coisa que não uma troca de chavões repetidos até à náusea, um rol de histórias de Babel e Sião contadas por um bando de inadaptados e inadaptáveis. Não percebe que tudo o que foi dito poderia ser melhor resumido pelo pai de Willie que, numa carta, informa o filme de que o seu cunhado vai rodar um filme em Cuba, acrescentando que “é onde fazem charutos”.

Há, todavia, dois problemas em Metade da Vida. O primeiro prende-se com a duração do livro, uma vez que, a certa altura, o romance transforma-se apenas na iteração de padrões que já vimos acontecer vezes demais: o dilema de um conjunto de exilados que não têm onde reclinar a cabeça, que não podem voltar a casa e que, como Willie, se escondem de um mundo que não lhes oferece nenhuma escapatória razoável.

No terceiro volume de Modern Painters, o crítico de arte John Ruskin ataca o que considera ser a falácia patética. Segundo Ruskin, existe uma tendência dos escritores seus contemporâneos para, por tudo e por nada, exagerarem descrições de objectos e estados de alma, para assim fazerem da arte poética uma repetida afirmação da incapacidade da linguagem em capturar o mundo que se pretende descrever. Para Ruskin, então, o talento de um escritor depende tanto da força da sua paixão como da sua capacidade para a conter, quando esta pode ser contida. Naipaul parece fugir da falácia patética como o diabo foge da cruz. O problema é que, ao fazê-lo, ao procurar um tom contido, frio e distante para descrever o seu mundo, torna-se absolutamente incapaz de capturar e descrever estados de alma em que essas paixões não podem, por natureza, serem contidas. O tom naipauliano procura tão intensamente uma perspectiva distante e serena que se revela incapaz de tornar claros, entre outras coisas, os ideais de Willie e do seu pai, os sentimentos de Willie por June e Perdita ou o que aconteceu de tão monstruoso no encontro de Ana com o seu meio-irmão que, graças ao tom adoptado pelo escritor, parece apenas mais uma das cenas banais de incomunicabilidade do romance.