Título: “Pequenas Cadeiras Vermelhas”
Autor: Edna O’Brien
Editora: Cavalo de Ferro
Páginas: 288
Preço: 19,99 €

No seu último romance, Edna O’Brien conta a história da chegada a Cloonoila do dr. Vlad, um curandeiro e terapeuta sexual vindo dos Balcãs nitidamente inspirado em Radovan Karadzic. Cedo, o passado obscuro de Vlad, responsável pelo genocídio de milhares de muçulmanos bósnios em Sarajevo durante os anos 90, é revelado à pequena aldeia, não sem antes Fidelma, a dona da boutique de Cloonoila casada com Jack, um homem vinte anos mais velho do qual não consegue ter filhos, convencer o forasteiro charlatão a engravidá-la.

Enquanto o livro se mantém em Cloonoila, Edna O’Brien joga em casa. No entanto, a internacionalização da narrativa com a prisão do dr. Vlad e a mudança de cenário da Irlanda rural para Londres e Haia não parece trazer grandes vantagens, anulando aliás muitas das virtudes de Edna O’Brien.

Na primeira aparição do dr. Vlad é dito que este “usava luvas brancas, que retirou devagar, dedo por dedo, e olhou em volta inquieto, como se estivesse a ser observado”. É exactamente assim que todas as personagens daquilo a que poderíamos chamar a parte irlandesa do livro se revelam ao leitor: retirando lentamente o manto que as cobre não para revelarem o seu corpo nu exposto ao nosso olhar inquisidor, mas apenas uma mão, acerca da qual desconhecemos intenções, crenças ou origens.

No início do sexto capítulo do livro, conta-se que “já passa da meia noite e, no Castle, tudo está sereno”. No entanto, esta serenidade é só aparente uma vez que “ao mesmo tempo que os empregados subiam e desciam as escadas estreitas até à sala de jantar, onde era tudo elegância e luz de velas”, reinava “o caos na cozinha, ouviam-se gritos e ordens e discussões, com Olive, a subchefe, a chamar ‘merdas’ a toda a gente”. Tal como no Castle, em Cloonoila, o que aparenta ser serenidade e calma são apenas os gritos abafados que, interiormente, todos soltam, deixando o leitor sempre apenas a especular acerca do que realmente move as personagens que se se escondem atrás da janela a espreitar para nós, curandeiros sérvios invasores do seu reduto, esperando pacientemente que acabemos de ler o livro para voltarem às suas vidas. Deste ponto de vista, o facto de nunca sabermos o nome real do dr. Vlad (que logicamente, sendo um dos homens mais procurados da Europa, não usaria o seu verdadeiro nome) funciona como a tal luva que tapa a visão do leitor e o transforma num voyeur indesejado.

Até as próprias personagens parecem ser vítimas desta incapacidade de acedermos aos outros. Quando Fidelma decide ir a Haia assistir ao julgamento de Vlad sugere que o faz por querer perceber quem era o homem que a engravidara e que nunca conheceu verdadeiramente. Todavia, o antigo companheiro de guerra de Vlad com quem Fidelma desabafa, explica-lhe, de forma necessariamente hesitante e entrecortada, que esse desejo é impossível de se concretizar: “Queres respostas… Que ele se explique… não vais receber nada disso… ele não consegue, sentimentos não são os mesmos, a tua perspectiva e a dele… carnificina… Volta para casa.”

Mesmo a maior virtude de Edna O’Brien, a descrição de cenas de enorme violência (cenas essas que se repetem por três vezes ao longo do romance, uma das quais absolutamente central na narrativa) é herdeira desta sua contenção, da capacidade de apresentar essa violência sem qualquer vestígio de emoção que entorpeça a exposição do que está ali a acontecer, como se, tal como uma das vítimas dessa violência, Edna O’Brien soubesse “que o plano de Deus é que eu viva a minha vida de olhos abertos” para a violência, sem pestanejar por um segundo diante dela.

Fidelma foi já descrita como uma vítima da repressão moral e do machismo das pequenas povoações da Irlanda rural. Ainda assim, o mais extraordinário é esta violência não ser exercida exclusivamente pelos habitantes de Cloonoila, mas também, tal como acontece com Emma Bovary, por si própria. O problema de Fidelma não é o de uma mulher emancipada oprimida pela terrinha onde vive, mas, pelo contrário, o de uma mulher que cede à tentação (uma tentação que não se parece basear no prazer carnal, mas na sua indomável vontade de ser mãe), arrependendo-se logo de seguida. Fidelma parece aliás ver como justa a mancha e a maldição que cai sobre ela e que qualquer leitor razoável considerará absurdamente desproporcional. Esta incapacidade de se libertar da culpa é evidente desde logo na descrição que Vlad faz do dia seguinte à primeira noite em que ambos dormem juntos, em que “de manhã cedo, ela insistiu em lavar o lençol. Tomámos o pequeno-almoço naquele terraço e o pequeno atlas descolorado, no que de outra forma seria um lençol branco, que ela pendurou, era simultaneamente um triunfo seu e uma repreensão que me dirigia”.

Já na cosmopolita Londres, Fidelma, que alguns críticos acreditam ser por esta altura uma mulher emancipada das antigas convenções que a regiam, não deixa por um segundo de encarar o seu casamento como indissolúvel (“subitamente, imagina Jack na cozinha de ambos a ter de se desenvencilhar sozinho, e é como se fossem duas pessoas no meio de uma grande ruína, que, embora não possam comunicar entre si, sabem da existência uma de outra e que um dia terão de se encontrar”).

O problema de Pequenas Cadeiras Vermelhas é apenas o de Edna O’Brien não ter ouvido o conselho do companheiro de armas de Vlad e ter querido sair de casa. Ao internacionalizar o romance, este torna-se numa tentativa de dar voz às vítimas do massacre sérvio, numa tentativa de reescrever a história, numa tentativa de se fazer justiça pelas próprias mãos, rejeitando assim a epígrafe de Bolaño que afirma pouco poder alguém sozinho contra a história. Edna O’Brien parece muito mais talhada para ser uma escritora da impotência do que uma porta-voz da indignação.

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